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18-08-2008
Uma certa justiça
Quando olhou o camarim reservado só pra ele, lacrimejou. Uvas, maçãs vermelhíssimas, pães artesanais, queijos diversos, grãos importadas do Líbano, a garrafa de Veuve Cliquot no gelo, água San Pelegrino. Tudo colocado harmoniosamente sobre uma mesa com toalha de renda branca. E flores. Muitas flores.
Depois de 32 anos de anonimato, esnobação dos críticos e completa inexistência na lembrança da mídia gorda, aquilo era a prova de que havia um certa justiça “nesse mundo de meu Deus”.
Numa algaravia, os auxiliares do Canecão perguntavam coisas sobre a tonalidade da mesa de som, sobre o roteiro, os convidados “vip”, as canjas. Mas seus ouvidos não acompanhavam mais nada do que vinha de fora. Só as orelhas de dentro funcionavam agora. As orelhas e os olhos internos.
Lembrava-se com grande clareza de seu longo calvário As temporadas no circuito alternativo da Zona Norte e Leste de São Paulo. Muitas vezes tocando sem cachê algum, apenas para tentar imprimir suas idéias revolucionárias a um grupo pequeno, mas interessado no novo.
Depois o empresário que embolsou a grana de seu primeiro grande show num Sesc da periferia. Com o dinheiro desviado, o mau caráter viabilizou a gravação dos discos de quatro duplas caipiras. E, com o estouro de um desses duos breganejos, montou um selo e uma rádio em Goiânia.
Por outro lado, não havia meio do trabalho dele decolar, parecia uma sina. Quanto mais tentava divulgá-lo, buscar pacientemente espaços, mais era esquecido pelos que controlavam as programações de rádio e tevê.
E o período mais negro ainda estava por vir.
Cansada do fracasso e da deprê generalizada, a companheira de duas déacdas o trocou pelo organista de uma igreja Pentecostal de Belém do Pará. E ainda meteu-lhe uma ação na Justiça de não-pagamento de pensão que o fez perder seu único bem: um Fiat Elba 1982 que herdara do avô.
Teve que se apresentar em saunas gay por cinco anos para conseguir honrar o parcelamento da dívida.
Nos cartazes promocionais de seu pocket-show-homoerótico - na foto, ele aparecia vestido de Cleópatra ao lado de um negro musculoso e nu da cintura para baixo - era aclamado como “Cléo, o menestrel do povo entendido”.
Calamidade maior, nem Paulo Coelho teve durante seu período de sexo, drogas e pacto com o demônio.
Nunca mais pôde ouvir o refrão “I will survive” impunemente.
Entretanto, a partir daquele show glorioso no Rio, tudo se repararia.
O acaso começava a jogar a favor.
Então como explicar o episódio de sua descoberta?
Certa madrugada, com insônia e entediada num quarto de hotel em Londres, Marisa Monte resolveu fuçar no google. Acidentalmente, acabou fazendo download de uma das canções dele. E, em seguida, baixou-a direto para o i-pod.
Dali para a apresentação do "genial músico da vanguarda de São Paulo" à sua turma de músicos foi um passo.
Um assistente avisou que faltavam dois minutos para o início do show. E que estavam na primeira fila Chico Buarque, Carlinhos Brown, Lenine, Maria Rita, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Titãs, Gil, Caetano, a velha Guarda da Portela inteira. E, claro, a sua madrinha Marisa Monte.
Fez uma pequena prece, memorizou o repertório. E uma última imagem veio à sua mente. Ele saindo do teatro da prefeitura de Itaquera, com uma craviola às costas, depois de fazer um show onde não houvera nenhum pagante.
Ouvindo o ruído dos primeiros aplausos da noite, ergueu-se, dirigindo-se altivo à boca do palco.
Nesse instante, o meteoro de 97 quilômetros de largura por 42 de comprimento precipitou-se sobre a Baía de Guanabara.
Passados poucos segundos, uma onda equivalente a 10 mil bombas atômicas levantou-se sobre toda a região sudeste do país e 75% da vida no planeta deixou de existir.
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