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31-08-2008
A tristeza do humorista
O Humorista acordou aquela manhã com o rádio-relógio soando às 7h45. Era o programa jornalístico da manhã.
O âncora contava uma piada sobre um negro e um judeu. A tradicional claque de risadas veio logo em seguida.
Saiu do quarto e foi até a geladeira. Abriu a porta para pegar o vidro de água. Não sem antes olhar para o quadrinho do Garfield que a mulher pregara ali.
Após as abluções matinais de praxe, catou displicentemente o jornal que estava ao lado da caneca de café com leite ilustrada com carinhas de Groucho Marx de charuto na boca. A primeira página mencionava uma série de chamadas sobre textos de humor.
Um físico escrevia sobre a função do riso. Um poeta descrevia, de modo sarcástico, sua viagem à EuroDisney com os filhos. Uma militante feminista listava suas piadas favoritas sobre o homens chauvinistas.
Procurou a seção “Veículos” para tomar contato com assunto diverso.O anúncio de um carro coreano trazia um título com um trocadilho infame. Mais adiante, uma página dupla vendia um SUV com uma celebridade mostrando a língua para a câmera. Mais abaixo na página, o slogan: “nem Einstein faria um 4X4 melhor”.
Fechou o jornal, tomou um grande gole da caneca e levantou-se.
Do quarto, vinha o som metálico do rádio-relógio. Às 8h20 começava a sessão de entrevistas. O convidado de hoje era um dos palhaços do Cirque du Soleil.
O Humorista foi até o computador. Era dia de entregar o texto do stand-up para o produtor e não tinha achado um fecho interessante até agora.
O tema da micro-peça lhe parecia frouxo: “Odeio pessoas que odeiam”.
Meia hora discorrendo sobre aquilo terminaria ficando tremendamente falso. Pior: chatíssimo.
De mais a mais, existiam no Orkut milhares de comunidades que diziam odiar algo com o objetivo de ser engraçadinho.
Só que o produtor agora estavando querendo dar uma de humorista, se metendo em seu texto, era preciso redobrar a atenção, senão perdia o trabalho.
Foi pegar mais café na pia e olhou pela janela. No cruzamento da rua de seu prédio uma empresa de promoções distribuia folhetos no semáforo, os promotores todos trajados formalmente de palhaços. Pulavam, dançavam, faziam caretinhas com as bochechas pintadas para os motoristas entediados.
Resolveu colocar o texto do stand-up num pen-drive e ir até o escritório do produtor escrever.
Era mais prático, já que o sujeito metia tanto a mão nas idéias.
De mais a mais, se ele quisesse criar as situações e as falas que criasse. Ganharia o cachê de um jeito menos indolor.
Desceu o elevador com o adolescente espinhudo do 62. Na camiseta dele havia estampado um cartum de Allan Sieber.
Na portaria, o zelador do prédio saudou o Humorista com uma piada, como fazia todo dia ao vê-lo.
- O cara foi levar os exames no médico. O doutor leu os resultados. Aí falou: “tenho uma notícia boa e uma ruim, qual conto primeiro? O cara pediu pra ele contar a boa. “Você tem 24 horas de vida”, ele disse. “Mas e a ruim, porra?”, perguntou o homem, apavorado. O médico daí falou: “tentei avisar ontem, mas não te encontrei”.
Riram alto, o eco no corredor úmido de prédio reverberou. O servente que lustrava a porta do elevador, emendou mais duas de péssimo gosto sobre o comportamento sexual dos gaúchos.
- Vinha um gaúcho atrás do outro. Corriam atrás de um boi brabo no pampa. Aí o da frente caiu com as fuças no chão, bem dentro de uma vala. Fodeu-se todo. O que vinha atrás, com aquele sotaque forte da fronteira, ficou preocupado com o tombo do parceiro e disse assim: “dô-eu, tchê?” Aí o que tinha caído falou pra ele: “dô-eu, que já tô no chão mesmo”.
Mais risadaria, mais eco no corredor. Depois, cumprimentando os dois, o Humorista saiu porta afora para uma caminhada até o escritório.
Estava um dia consideravelmente frio para um verão pleno e escancarado, mas era comum em sua cidade temperaturas inusuais em estações do ano onde não deveria acontecer aquilo. Até parecia que o meio-ambiente estava fazendo piada com as pessoas. “Olha só, gente: um calor de 37 graus no inverno, um frio de 3 graus na primavera…hahahaha”.
Como saíra desprevenido de casa, sem uma jaquetinha sequer, resolveu dar uns passos atrás, ir até a garagem e buscar o carro.
Ao dar partida, reparou que o automóvel lhe pregara uma peça. Estava com o tanque quase vazio. Teve de parar no primeiro posto, apesar do preço do combustível ali ser uma verdadeira palhaçada de tão caro, e abastecer num valor quase 20% acima do que costumava pagar.
Quando entregou a chave à frentista dizendo o mantra: “pode encher com álcool”, ouviu dela:
- Tem certeza?
Ficou por alguns segundos confuso. Nunca haviam lhe dito aquilo em tantos e tantos anos parando em postos e solicitando reabastecimento.
- Como assim, tenho certeza? Claro que eu tenho…
A garota frentista respondeu, ironicamente:
- Olha, isso que o senhor me pediu e direção não combinam…Lei seca…cadeia… E me pede pra encher com álcool? Quem avisa, amiga é…
Escancarou a boca cheia de pontes numa risada histérica, ao mesmo tempo que levava a chave até o tanque.
Na FM do carro começava a crônica política do dia. O jornalista resolveu resumir seu pensamento - ao contrário de um texto tradicional, como fazia todas as manhãs – em aforismos de humor. Do gênero “quem tem (nome de um partido politico) tem medo”. As pequenas frases em si nem eram lá muito risíveis, mas o jornalista, logo depois que lia uma delas, caia numa arrastado e histriônico sorriso.
Ao sair do posto, o Humorista trocou de estação. Sintonizou numa rádio que transmitia uma pegadinha em forma de trote telefônico. Uma pobre mulher recebia o inesperado telefonema de uma pessoa que perguntava se sua casa era de tolerância.
Em sua funda ignorância, a senhora repetia diversas vezes que a sua casa era normal, que vivia ali uma família comum, que não havia nada de intolerância lá.
Como ele, milhares de pessoas com toda certeza estavam ouvindo aquilo e rindo em seus carros.
De fato, era impossível deixar de se ligar na interminável pegadinha.
Foi escutando a toada até o escritório. Passou pelo guarda-malabarista no centro da cidade, pelos meninos e meninas vestidos de Carlitos no semáforo da avenida principal, pelo mendigo-clown da entrada da Marginal.
Depois de mais de 20 minutos de trote infame, o marido pegou o telefone e disparou meia-dúzia de palavrões em cima do locutor.
Uma claque de risos entrou ruidosamente, o casal da casa de tolerância ganhou um curso de técnicas circenses do patrocinador do programa e tudo acabou bem.
No escritório vazio, o Humorista sentou-se diante do computador.
Aproveitou a ausência do produtor para remoer idéias antigas, vasculhar trechos inóspitos de sua imaginação feérica.
Nada de relevante vinha. Nenhuma bom set-up, nenhum final surpreendente, sequer uma situação hiperbolicamente bem elaborada.
Apelou para idéias non-sense, surreais, relembrou frases lapidares de outros colegas do passado.
Por fim, tentou pensar no país, nos políticos, na Economia, nos programas de tevê.
Tudo em volta era mais engraçado do que ele.
Num desespero silencioso, baixou os olhos e chorou.
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