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05-09-2008
Ursulino
Mais que urso, em termos de saúde, Ursulino era um touro.
Até os 82 anos nunca tivera um defluxo. E o primeiro resfriado que lhe ocorreu curou-o num só dia. Tomando banhos frios de cachoeira e chá com rum - duas garrafas inteiras do cubano.
Era assim com ele. Queria mostrar quem mandava.
Estava no comando de sua robusta saudabilidade e espezinhava os que se acovardavam, indo às consultas periódicas, fazendo ridículos exames de rotina.
“Fique longe dos homens de branco quem não quiser morrer antes da hora”, costumava filosofar bebendo vinho barato e mordendo um gorduroso salame italiano.
Quando fez 100 anos ganhou dos parentes uma estátua no jardim. Nela aparecia em forma de Atlas. Um contra-parente, metido a artista plástico, também pintou uma tela com o mar batendo numa rocha monstruosa e a batizou de “Ursulino, portento da natureza”.
Estava claro que ele deixara de ser um senhor de terceira idade fora dos padrões para ser motivo de vaidade e orgulho da família.
Qualquer primo, vizinho ou conhecido ao ser perguntado sobre Ursulino respondia com brilho na voz: “não é mais uma pessoa, é uma fortaleza”.
E a empregada doméstica, uma senhora paraibana corcunda muito feia, limitava-se a ficar repetindo: “Seu Ursulino? Hum, ô véi duro na queda do cão, meu fí!”.
Pelos 109 anos, Ursulino deu um susto em seus admiradores.
Teve uma dorzinha fina no braço e uma azia forte. Os netos julgaram que ele enfartava. O mais velho levou-o, sob protesto, a um pronto-socorro próximo.
Em uma hora, dezenas de curiosos do bairro se aglomeravam na sala de espera do PS.
Todos buscando novas sobre aquele ícone da vitalidade humana.
Quando estavam num canto praticamente interrogando a enfermeira de plantão, o próprio Ursulino saiu andando lá de dentro.
Tia Noca, nervosíssima, berrou lá da porta da frente:
- Linozinho! Tu, doente? Pode uma coisa dessas?
Ele deu de ombros, com expressão enfastiada. Usando o vozeirão que lhe caraterizava explicou ironicamente:
- Acharam que era coração. Examina daqui, alfineta dali, não encontraram foi nada. Só que ninguém me perguntava o que eu achava que era…
- E o que era, homem de Deus? Diz logo!
- Na hora que me deixaram abrir a boca, eu falei pro doutorzinho lá: “moço, eu comi dobradinha com toicinho. Fui de madrugada na geladeira, meti na boca, direto da panela, com muita pimenta e farinha. Se eu puder me aquietar num vaso, soltar uns três ou quatro traques daqueles bons, saio daqui já, já”.
- E eles?
- Deixaram eu ir. Queriam me levar na cadeira de roda, mas recusei. Passei quinze minutos obrando, obrando, obrando e sai bonzinho.
- Avalie! Chega tá corado, Linozinho.
- Peidar, ô santo rémedio, minha filha! Um homem que caga todo dia sabe o que é o paraíso!
Rumaram para o bar do Tomate com o objetivo de comemorar a bem aventurança de Ursulino.
Cerveja gelada, pinga e torresmo de barriga de porca para quem se achegasse.
O velho foi o último a deixar a bodega, ali pelas quatro e meia. Isso porque ficou de olho comprido para uma mocinha que a sobrinha trouxera da faculdade.
Queria porque queria cantar para a rapariga no velho violão Del Vecchio de casa.
Conseguiu. E o que Ursulino, o que diariamente ridicularizava a Morte, não conseguiria?
A cantoria acabou às sete da matina, quando o padeiro largou leite e ovos na soleira da porta.
Ursulino pediu omelete de bacon à empregada, engoliu-o com café preto e foi
deitar-se.
Acordou no meio da tarde para um banho completo.
Comportava-se como criança nessas ocasiões, cantando e dançando em meio à espuma. Foi numa dessas micagens, em cima do chão molhado do box, que acabou arriando os quartos no chão e quebrando as cadeiras.
Mandarem-se todos às pressas para o hospital.
Deu-se o de sempre: cirurgia, UTI, os cambaus.
Não houve jeito desta vez. Oito longos meses depois as complicações da operação levaram Ursulino para o ladinho de Nosso Senhor.
Coroas de flores, padres, pastores, rabinos, rabecão. Centenas de pessoas comprimindo-se na câmara onde velavam-no.
Calor do norte da África.
No momento em que fechavam o caixão, uma vizinha de porta, já septuagenária, começou a berrar em completo desespero:
- Ai, meu Jesus: morreu, morreu!! Ursulino morreu!!!
Daí a irmã de tia Noca, moça velha, sem papas na língua, esbravejou mais alto do lado oposto:
- Morreu! Morreu mesmo!!! Mas foi de erro médico!!! Erro médico, viu?
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