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13-09-2008
O dia em que a mulher do Waldick foi lá em casa
No alvorecer da minha infância, assevera dona Marirá - genitora deste plumitivo - um Puma GTE zerinho estacionou diante de nossa mansarda no bairro do Sumarezinho, em São Paulo.
Acompanhada de um amigo da família, o finado Dagildo (nome dado ao mancebo pela contração do “Da” de CandiDA e o “Gildo” de LeoviGILDO) adentrou em nosso lar ninguém menos que a “mulher do Waldick Soriano”.
Eram comuns tais visitas-relâmpago na pequena comunidade piauiense-maranhense de Sampa.
Podia ser desde de um primo doente do peito até uma personalidade do mundo do forró. Desde que a razão fosse uma troca de favores ou uma "consideração" a alguém.
Quando Dagildo anunciou a visita já subindo as escadas do sobrado, houve um certo estremecimento doméstico.
Entretanto, como era comum em minha mãe, com dois ou três movimentos rápidos ela deixava uma sala bagunçada pronta para receber a Rainha Elizabeth II em noite de distribuição de honrarias aos lordes.
E assim foi.
Puxando um vaso pra cá, centralizando uma cadeira pra lá, só restou à primeira-dama do brega alardear:
- Meu Deus, que casa mais ajeitadinha!
Num cantinho da sala impecável, brincando com meu helicóptero da USAF (que fazia “dungo-dungo-dungo” com as hélices e abria a portinha) fiquei só reparando na cena.
Dona Marirá não se recorda mais do nome da dita, porém lembra-se direitinhamente que a senhora estava desconsolada com o marido canastrão.
Homem delicado e sensível, Dagildo era sabedor das manhas e artimanhas de mamã na arte de manter um casamento (papai não era definitivamente flor que se cheirasse naqueles tempos, mas a união mantinha-se intacta). Por isso, levou “a mulher do Waldick” para tomar uns conselhos.
Feito uma psicanalista lavada e escorrida em Freud, mamãe quis saber o que levava a companheira de tão famoso astro a andar tão tristonha.
- Eu amo aquele danado demais. Demais! Mas o Waldick só pensa no público dele, dona. É só público, público, público – disse ela aos prantos, para meu estremecimento infantil.
Atenta na queixa, dona Marirá era só ouvidos. A mulher do homem continuou:
- A prova disso é ele, em todo santo show, jogar aquele chapelão pro povo. Eu me zango demais com aquilo. Custa uma fortuna e ele atira como se fosse confete!
Saindo da audição para a fala propriamente dita, minha mãe teria declarado mais ou menos o seguinte àquela ocasião:
- Mas o problema de seu casamento com o Waldick Soriano é o chapéu que ele joga no povo, minha filha?
- É!
- E se ele se jogasse, ele mesmo lá do palco, pra cima das qüengas? Não ia ser pior?
- Aí era a morte…
- Pois então? Enquanto é o chapéu está uma beleza, não está?
Limpando uma lágrima, a consorte de nosso mestre do kitsch musical deu toda razão a dona Marirá.
E, depois de comer um doce de casca de limão azedo, entrou na companhia de Dagildo em seu Puma GTE e voltou a seus afazeres de mulher de latin-lover cafona.
O casamento?
Bem, segundo Dona Marirá, esse parece ter durado por muitos e muitos anos.
Mesmo com o velho Soriano teimando em arremessar seus chapelões por centenas de platéias interiorzão afora.
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