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06-10-2008
O green-yellow card
As filas que chegavam até o consulado brasileiro em Nova Iorque, no 630 da Quinta Avenida, vinham de muito longe.
Havia gente se acotovelando desde o The Pond, na rua 59, já na fronteira com o Central Park.
A suíte 2720 do International Building tinha uma decoração espartana. Poucos móveis, numa parede o pavilhão nacional e, ao fundo, a foto oficial de Luís Inácio Lula da Silva sorrindo.
Cumpre dizer que o clima geral não fazia par com o bom humor presidencial.
Além dos 97 cidadãos norte-americanos espremidos entre o elevador e a porta do saguão, nos guichês do consulado apenas três funcionários davam expediente naquela manhã.
O corpo diplomático brasileiro em Nova Iorque estava visivelmente irritado, pois trabalhava normalmente só até duas horas da tarde.
Graças às altas demandas das últimas semanas, no entanto, estava sendo obrigado a estender seus préstimos até às 19 horas - diariamente.
O padrão de atendimento público é conhecido por todos, no mundo inteiro. Agora imaginem como andavam os ânimos em Mid-Manhattan naquele momento.
Já havia uma significativa ala de barnabés na dúvida entre fazer greve branca ou pedir licença-prêmio só retornando ao trabalho depois que o panorama da economia mundial voltasse a amainar.
Uma operação-tartaruga tomava corpo, de certa maneira.
Colocar apenas três pessoas para atender a toda aquela horda vinda de jurisdições tão díspares como as de Bermudas, Connecticut, Delaware, Nova Jersey, Nova York e Pennsylvania era a prova disso.
- Senha 67 – berrou um dos funcionários, por sinal, de péssimo humor.
No meio do empurra-empurra, um homem esguio, branco, usando um terno brilhoso e uma cartola estilizada levantou um papel com o número chamado.
Foi em direção ao guichê.
- Nome? – perguntou o funcionário sem tirar os olhos do monitor.
- Michael Joseph Jackson – respondeu o cidadão.
- Profissão?
- Cantor, compositor, dançarino e instrumentista.
- Naturalidade?
- Gary, Indiana.
- Data de Nascimento?
- 29 de agosto de 1958.
- Por que deseja visto de trabalho para o Brasil, mister Jackson?
- Meus país quebrou e a economia brasileira é bem mais robusta. No ramo de entretenimento, precisamos de moedas mais fortes que o dólar.
- Algum processo nos Estados Unidos?
- Sim, mas fui absolvido em todos.
O funcionário brasileiro carimbou o passaporte de Michael Jackson vigorosamente e sentenciou:
- Visto negado!
Depois urrou:
- Próximo! Senha 85!
Donald Trump saiu do meio da multidão, mostrou sua senha e anunciou, aliviado:
- Sou eu! Sou eu!
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