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15-10-2008
O bandalho
Na primeira vez que Caco, Silviola e Ernesto viram Mariozinho, e isso foi ainda no tempo da ditadura, ele já foi armando uma das suas brincadeiras sem graça. E em pleno ambiente corporativo.
Um dos donos da empresa passava ao lado. Então, sem nenhuma cerimônia, Mariozinho mandou:
- Muito prazer, Mário Baldacci, gerente de comunicação. E o senhor, quem é, o contínuo novo?
Doutor Camunha, homem ensimesmado e tímido, saiu bufando da sala com a palhaçada.
Mariozinho gargalhava, os dentes tortos surgindo arreganhadamente infames. E os outros colegas de Departamento mal sabendo o que fazer.
Uma vez, Silviola se separou da noiva com quem estava há mais de cinco anos.
Mariozinho espalhou para deus e o mundo que a causa do litígio fôra um fato insólito, que beirava o surreal.
Tudo inventado, naturalmente, por sua criativa mente.
Na versão de Mariozinho, Silviola descobrira que a noiva era transexual.
Mas, apaixonado, ele mantivera uma vida em comum, inclusive sexual, por todos aqueles anos.
Tudo seguia bem quando a mãe de Silviola resolveu fazer uma visita-surpresa ao filho.
Acabou pegando os dois meninos brincando na cama.
- …aí o Silviola teve que terminar com a Deise, que, na verdade, se chama Aurélio – explicava o fanfarrão aos colegas com a cara mais limpa do mundo.
- Cacete! É por isso que o Silviola anda tão arrasado… - reagiam uns.
- Também não é pra menos, o cara pensar que está com uma mina e, na real, estar com um mino – reagiam outros.
A verdade é que a brincadeira queimou o filme de Silviola por uns bons dois anos.
Para se recolocar no mercado, o pobre teve que ir de amigo em amigo, de mulher em mulher, de parente em parente, e explicar que aquilo não passava de uma invencionice maldosa promovida por um colega de trabalho.
Mas nem todos se convenciam imediatamente de que Deise não era Aurélio.
Foi um parto.
Ainda assim, Mariozinho não se emendava.
Um fim de tarde foram os quatro amigos tomar as cervejas de sempre no bar de sempre.
O boteco era tão pé-pra-fora que nem nome tinha. Para poder ser chamado de “sujinho”, teria que passar por umas quatro lavagens completas de esguicho, escovinha e muito sabão em pó.
E ainda possuía um agravante: ficava bem em frente ao prédio do DOPS – o temido à época Departamento de Ordem Política e Social.
Os parceiros, contudo, adoravam a temperatura do “suco de cevada” de lá e a conserva de batatinha inglesa que a mulher do dono preparava religiosamente.
Nesse dia sentaram-se bem próximo a três investigadores do DOPS - um mais mal encarado que o outro.
Os “hômi” mandavam suas biritas fechados em copas, nem entre eles parlamentavam.
Mariozinho mediu o grupo e disse aos colegas:
- Querem apostar como eu faço um investigador desses passar por besta?
Ernesto foi o primeiro a se inquietar com a proposta.
- Pô, bicho, não vai começar com essas tuas cagadas, logo com esses porras aí, isso pode dar o maior cocô, vai por mim…
- Que nada! – desdenhou Mariozinho – vocês é que são uns cagões.
- Fica na tua, meu chapa! – foi discordando Caco de Mariozinho - você não tá vendo a situação?
Silviola, ainda chateado com a esculhambação porque passara recentemente – não dizia palavra, só bebia e fumava seu Continental com cara de corno.
Acontece que Mariozinho quando teimava que tinha que zoar alguém não havia alma que o fizesse mudar de rumo.
Foi que foi até conseguir o seu intento.
Chamou o Ananias, garçom do pedaço, e solicitou:
- Tá vendo aquele polícia do DOPS mal encarado ali?
- Tô, seu Mário. É o Dutra.
- Pois vai lá e diz pra ele que tem um irmão do Carlos Marighella aqui nessa birosca querendo tirar satisfação com ele.
Ernesto interrompeu:
- Mário, ficou maluco, caralho?
Caco se alterou:
- Putz, tu só faz merda!
Silviola balançava a cabeça, deprimido.
Apesar dos protestos, lá se foi o Ananias dar o recado ao meganha.
Meio minuto depois, o investigador veio até a mesa de Mariozinho.
- Quem é o parente do Marighella que quer tirar satisfação comigo aqui? – perguntou em tom sorumbático.
Mariozinho soltou sua mais histriônica gargalhada e, ainda de dentadura arreganhada, respondeu:
- Sempre alerta, hein, oficial? Isso é que é amor à pátria! Mas fique sossegado que não sou nem de longe aparentado do temível terrorista…
O tenente Dutra literalmente ferveu. As bochechas ficaram tintas. Saiu dali feito um jato, passou batido pela mesa dos outros agentes indo até o banheiro lavar o rosto.
Voltou minutos depois direto a Mariozinho, que ainda ria desbragadamente do trote aplicado.
- Escuta uma coisa, cidadão.
- Sou todo ouvidos, oficial.
- O senhor me ofendeu. Pior, me ofendeu na frente dos meus colegas. Não admito que façam uma coisa dessas. Por isso, eu vou sair aqui do bar e ficar ali fora, na calçada. Quando o senhor sair, eu vou lhe matar. M-a-ta-r, entendeu?
E saiu para a rua, se encostando num poste diante do boteco de sempre.
Ernesto entrou em desespero.
- Olha aí! Não falei que ia dar merda! Puta que o pariu, o torturador vai te matar, bicho!!!
O próprio Mariozinho não estava mais aquela segurança toda.
Acinzentara-se. Ostentava um meio sorriso. Um ar de perplexidade formara-se logo após a fala de Dutra.
Por causa do descompasso daquele que sempre trazia o melhor da irreverência nos genes, Caco, que era o mais ponderado do quarteto, acabou se amofinando.
No entanto, como também era o mais diplomáticio, decidiu, num supetão, ir até a mesa dos “hômi”.
Era abrir um canal de comunicação ou a morte.
- Prazer, Carlos Henrique, Caco. Somos redatores aqui de uma empresa de relações públicas e…
- Você então é chegado do cara que fudeu o Dutra?
- Bom, a gente…
- Olha, vocês entraram numa enrascada. O Dutra é pinéu.
- Como assim?
- É doido. Já foi inclusive afastado do serviço militar por causa dessas animalidades dele. Mata gente do nada, horror, horror…
Eles falavam e o Dutra lá de pé, esperando o Mariozinho na rua. Caco gaguejava de nervoso.
- Ma-ma-mas…
- ….quando o Dutra encasqüeta é dureza. Olha lá ele de tocaia na calçada. Teu amigo tá funhanhado.
Caco voltou lívido à mesa. Os três remanescentes permaneciam em silêncio sepucral. As batatas inglesas intactas no pratinho.
- Os milicos disseram que o tal do Dutra é psicopata…
Silviola deu um salto e saiu porta fora sem dar até logo a ninguém.
Diante da dura realidade, o próprio autor da pantomima, pela primeira vez, demonstrou fraqueza (e não há nada pior do que um bandalho mostrar seu lado frágil).
Pediu apoio:
- E se um de vocês fosse lá falar com o cara, dizer que não foi minha intenção…
Ernesto e Caco tomaram um grande gole de Brahma e foram.
Voltaram com uma meia solução.
- O Dutra continua lá de prontidão, no poste. Depois de muito suor falou que só não te mata agora, se tu for no DOPS, amanhã bem cedo, pedir desculpas publicamente pra ele e pros amigos da Repartição – conclamou o trio, escabriado.
Dito e feito.
Manhãzinha seguinte, compenetrado, Mariozinho baixou no DOPS.
Foi direto e reto à mesa do Dutra. Em voz alta e bem definida, decretou o pedido oficial de escusas.
- Peço-lhe minhas sinceras desculpas, oficial Dutra, pela minha brincadeira de mau gosto.
- Tá desculpado, seu covarde de merda! – bradou orgulhoso o militar, para que todo mundo na Seção ouvisse e guardasse.
Mariozionho virou-se na direção da saída.
Deu alguns poucos passos, mas decidiu parar e voltar, como se tivesse esquecido de dizer algo.
Enfiou a mão debaixo de uma axila, fez um movimento com o ombro que provocou um som de flatulência e gritou mais alto ainda que o oficial:
- Pernacchiaaaaaa!!!!!
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