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26-05-2009
A metelança
Quatro e quinze da manhã. E aquele miado de gata.
Romeu levou abruptamente da cama. Passou a mão pelos olhos ramelentos, apurou os ouvidos.
Percebeu logo que era a vizinha de cima copulando.
Haviam se mudado para o novo apartamento a poucos dias. E, gradualmente, conheciam as manias dos outros condôminos.
O vellhinho do 34, que Norma apelidara maldosamente de “Efisema Ambulante”, sempre com um cigarro entre os dedos amarelecidos e uma tosse de cachorro estranhíssima.
A bebê de poucos meses do 52 - que chorava seguidamente da meia-noite às três da madrugada - e a mãe só repetindo: “disciplina nesse berço, disciplina, Mariana!!!”.
Ou o advogado de meia-idade que defecava ruidosamente pontualmente às 11 e 15 da noite, nem um minuto a menos, nem um minuto a mais.
Mas nada se comparava ao que Romeu ouvia agora.
Aquilo não era mais uma relação sexual, era um capítulo do Kama Sutra com som quadrifônico, movimento e em 3D.
Isso porque a dona tinha a estranha capacidade de foder em vários cômodos e muito rapidamente.
Ouvia ela berrar “HAAAAAAAA HUA HUA” quase em cima de sua cabeça – o que significava que metia no quarto. E, alguns segundos depois, o grito já virava um “haaaaaaa hua hua” baixinho, lá nos confins da lavanderia.
Isso tudo acompanhado de um arrastar fino de saltos palito.
Romeu pensava que talvez a vizinha fosse um misto de velocista com atriz pornô quando Norma interrompeu seus pensamentos.
- Coisa, hein?
Romeu tentou abstrair.
- Que coisa?
- Essa metelança, Romeu. O que poderia ser?
Metelança. Norma nunca usara essa expressão. Estaria excitada com o furdunço do 78?
- Parece que ela transa correndo, né? Uma hora está no quarto, outra no banheiro, depois parece que vai lá pros fundos do apartamento – constatou Romeu.
- Pois é, agora uma coisa me chama mais atenção do que isso.
- Quê?
- Esses gritos. Não pode ser de prazer uma coisa dessa.
- Vai ser é sexo anal.
- Sexo anal pra muita gente dá prazer, sabia, Romeu? Só que uma pessoa não grita desse jeito só por estar gozando.
Parecia até que a vizinha ouvia o diálogo no escuro. Bem nessa hora soltou um “HAAAAAAAA HUA HUA” gigante, dessa vez da cozinha.
- Olha aí – disse Norma – essa mulher deve ter algum problema de lubrificação. Sabe aquela doença que, quando vem a penetração, a pessoa sente dor?
- Exame de próstata?
- Não, Romeu, vaginismo, se não me engano. Dói quando faz relação.
- Mas então se dói porque ela corre do quarto pra lavanderia, da lavanderia pra sala?
- Vai ver arde.
- Olha, não sei não. Me parece que isso é uma trepada animal, isso sim.
Sem ouvir o que Romeu dissera, Norma emendou:
- Ou então ele bate nela. É isso!!! Essa mulher está sendo espancada!!
Romeu coçou a cabeça, levantou-se.
- Onde você vai?
- Mijar.
- Acho que você devia aproveitar o embalo e ligar pra Polícia, Romeu.
- Polícia?
Quando Norma encasquetava com uma ideia era impossível contornar.
- É, Polícia, sim senhor. Essa dona está apanhando. Escuta isso: são gritos de dor, de pavor.
A mulher berrou algo meio cifrado, um eco chegou no apartamento deles sob a forma de um “….ERDA!!!!!”. Romeu fez um cone com a mão no ouvido e comentou:
- O que foi que ela disse?
- Nossa, Romeu, o maníaco está fazendo a pobre coitada comer fezes.
- Você enlouqueceu, Norma? Isso é uma coisa de aprovação, você não percebe? Merda!!! Quer dizer: que delícia. O oposto…
- Eu ouvi direitinho ela dizendo “NÃO vou comer merda!” Um psicopata no nosso prédio fazendo horrores a uma mulher. E você não toma a atitude de ligar pra PM agora!!!
Romeu foi mais longe.
Vestiu-se, desceu até a calçada e foi fumando um cigarro até a esquina, onde havia uma farmácia 24 horas.
Um tempo depois voltou ao quarto. Vestiu novamente o pijama e deitou-se ao lado da mulher.
- E aí, que horas a Polícia chega? – inquiriu a esposa.
- Mas eu não chamei a Polícia – informou ele, secamente.
- Não? E foi aonde, esse tempo todo?
- Na farmácia.
- Farmácia?
- É.
- …
- Comprei um gel lubrificante e deixei na porta do apartamento dela. Se for problema de secura, da próxima vez ela faz a metelança sem gritar.
E dizendo isso, Romeu virou-se para o lado e foi para os braços de Morfeu.
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