18-06-2009
O peixorro

Uma das coisas que mais me fascina em David Lynch não são propriamente seus filmes delirantemente surreais. Também não fala muito comigo aquela sua mania de evangelizar a humanidade via meditação transcendental.

O que, de fato, me intriga nesse singular cineasta é a sua capacidade de vender ideias.

Fico imaginando Mr. Lynch chegando numa sala onde estão meia dúzia dos mais poderosos produtores de Hollywood. Cumprimentando-os delicadamente e, em seguida, retira algumas folhas de uma pasta. Com voz calma e pausada lê a sinopse de sua próxima realização:

“Bem, o filme começa na sala de um apartamento de classe média iluminada por um abajur. A TV está ligada, sem ninguém ali. De repente, entra um homem com uma cabeça de coelho enorme. Pega o controle remoto e muda de canal para um jogo de beisebol. A câmera abre e vemos a mulher dele. Ela também usa uma gigantesca cabeça de coelho e passa a calça do marido. Corta para o centro de lançamentos de foguetes da Nasa. Uma mulher corre atrás de um astronauta e…”

No final, depois de dizer “The End”, David Lynch assevera aos executivos que o ouviam atentantamente:

“O custo do filme é de 30 milhões de dólares, senhores”.

Alguns meses após a reunião, chega às salas de cinema do mundo inteiro o derradeiro delírio de Mr. Lynch.

É invejável esse dom.

Guardando as devidas proporções, tive sensação semelhante ao assistir ao comercial do peixe-cachorro – ou seria cachorro-peixe da Volkswagen?

Apesar da estética portenha – que, vamos e venhamos, já está virando carne de vaca entre nosotros - trata-se de uma ideia quase lynchiana para os atuais padrões de aprovação da propaganda nacional.

Enquanto criativo, não me vejo atualmente dizendo numa reunião:

- O filme começa numa praia com um cachorro que também é peixe correndo. Então o dono dele…

Para quem viveu o período criativo da propaganda antes do “o sonho acabou” dos 2000, sabe que filmes como o do peixorro não seriam assim tão espetaculosos para aquele período de glórias da comunicação comercial.

Mas, para 2009, ele é um marco.

Deveria, inclusive, vir com link para quem quisesse acessar a reunião de aprovação do script com o cliente.

Aliás, fica aqui uma sugestão para Cannes 2010: o prêmio “David Lynch” de cliente menos careta na aprovação.

Quem sabe o nível de inventividade voltasse a reinar no “off-line” a exemplo de “Twin Peaks” e “Blue Velvet”.

 
 
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