09-04-2001
O caseiro do presidente em: ?Desajeito do Cão?.

Ibiúna, 9 de abril de 2001.

Seu Fernando:

A coisa aquietô.

Os ciganos sem terra se calaro, daqui da varanda não se vê uma almaviva. Os milicos pegaro os jipim verde, as avionetas e picaro a mula pros quarté.

E o sinhô, que de doidável só tem a fisionomia, se largô de novo pra cá. Foi só o Jorná Nacioná esquecê a chacrinha e pronto: vortaro as churrascada a mó de fazê garcejo pra seus comparsas. Na úrtima ajuntação, me lasquei todim. Comprei:

Dois bois esquartejados

Um porco baé

Uma leitoa

Dois bodes pai-de-chiqueiro

Doze capões

Seis guinés

Nove quilos de carvão.

Uma muntuêra de farinha de rosca

Quatro caixas de tubaína

36 caixas de cerveja

Oito caixas de uísque

12 caixas de vinho

Um tonel de cachaça

Uma matula de limão galego

Sá grosso

Sá fino

10 toalhas de mesa

12 braçadas de fulô (essa foi dona Ruth quem pediu)

Sem contá a grója pros meninos da venda trazerem o carregamento e o dinheiro pras amigas da Nena vire servir os cabra.

Pois bão, seu menino, cumprimo com a fazeção que o sinhô pediu. Tratemo os estranja feito rei. Inté grupo de pagodança viero, com pandeiro, caixa, tambô e umas nêga-dançarina que a Nena crassificô de prostitutriz. .

Mas quéde o pagamento dessas conta, cristo-jesus?

Voz Celença passou a festa todinha se abraçano mais os home, margulhano na piscina, prometendo o diabo e mais um tiquinho a eles. E eu num desjuízo, pra lhe alembrá que diquiri os pertences da festança assinando a cardeneta em meu nome!

O sinhô veio com a disfarçação de sempre: “É já, Alencarino, já lhe dou o dinheiro”. “Vou lhe dá agorinha, deixa eu só abraçá o meu senadô.”

Me lasquei, que eu já conheço quando me lasco.

Não é mais cigano sem terra, nem milico policial, que vem me aperreá. Agora é o véio da venda, pra riba e pra baixo, atrás de mim com um facãozão de capá porco maior que o Cujo!

Sendo anssim, seu Fernando, o motivo dessas mal-traçada é pedir as conta. Cansemo de escrafunchar e queremo desendoidar. O sinhô foi madrasto com nóis o tempo todo. E isso tem desculpa não.

Nena, Cléoso, Juberto, as meninas, Dagildo, Domiciano e Borges tomém tão se arribano mais eu. Resorvemo fazê um negóço junto e póprio: vamo adividir despesa, comprá um pedacico de terra aqui em Sariguama e montá uma videolocadora, que agricultura – graças ao sinhô – tem futuro de jeito maneira.

O instabelecimento já tem inté nome: “Duvi-de-o-dó”.

A Nena e as meninas vão cuidá do barcão. O Cléoso e o Juberto ficaro encarregado de escoiê as fitas, caso que vivem nas matinês de cinema e conhecem o riscado. Meu três agregados – que agora vão ser meus sócios – e eu vamo fazê o que o sinhô faz com o país: batê perna pelo mundo pra trazê freguêiz pra loja.

É isso, antão, seu Fernando. Que Deus ilumine suas disidéias.

E recomendação à nhã Ruth.

Aceite o adeus do seu caseiro,

Alencarino, seu criado.

P.S.: Só um úrtimo conselho, chefim: venda o sitiozim pro seu vizinho, o japonês, que o sinhô diministra com um desajeito do cão.

 
 
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