05-05-2001
O caseiro do presidente muda de domicílio.
Buritis, maio de 2001
Seu Fernando:
O negóço da videolocadora “Duvi-deo-dó” deu pra traiz.
Perdemo inté os butão da carça a mó de pagá os fornecedô de indevedê. Fumo iscurraçado de Biúna.
Daí tivemo que metê a mão na inconciênça e aceitá o convite de caseiro da popriedade de Voz Celença em Buritis. A cangalha é mais pesada, o saláro menó, tem mais cigano sem-terra, mas num tiã otra saída.
O sinhô já sabe disso tudim, di có e sarteado. Quis lascá cum nóis pela indisobediênça, tá na cara. Só arrepito toda essa históra pra cumeçá um relatóro que queria passá ao patrãozim. Pois bão. Durante a viage pra nossa nova tapera – que fica nuã lonjura do Cujo – eu mais a Nena, as menina, Cléoso, Juberto e os agregado ouvimo um bucado de bisservação sobre vossa pessoa. O sinhô sabe, esse povo num sabe que nóis é patrimônho vosso, e lhe mete a ronca sem dó nem piedade.
No ôimbus que viemo tiã povo dos mais adiversos tipo. Tiã minero, baiano, pólista, quérioca, potiguá, tudo tudim. El's era diferente entre el's. Mas tiã uã coisa que todos era conforme: o patrãozim tá fazeno bestage atraiz de bestage.
O motorista era faladô. Gritô lá da frente que Voz Celença num qué mexê na corrupição. Que o sinhô qué a corrupição bunitinha lá no canto dela, sem sê amulestada. Uã véia cega preguntô ansssim: “Por quá razão num qué mexê no que tá errado?”
Bão, é mió eu nem lhe dizê as resposta, senão num vai ter chá de losna com picão que lhe cure a enxacueca. Só lhe digo uã cousa: o povo tá miseráve, mas num tá besta. Cada cousa que o sinhô, seu Fernando, deixa de fazê eles anota num papé pardo e bota de ladim. Inté o dia que vão inchá nas alpercata e… Deus o livre e guarde, sô!
Ah, esculhambáro a Petobraz foi muito! Que ela esmerdeia as várzea, que a afundação duã tar patraforma apagô os bagre do má tudim. Metero o pau tamém no jeito como o sinhô trata os cigano sem-terra. (Nessa hora fiquei ca purga atraiz da orêia – será que fui jegue de me metê naquela briga del´s com Voz Celença?)
Ói, foi tanto agravo à vossa pessoa que pensemo em descê do ôimbus em Treiz Coração e pedir emprego de bóia-fria. Foi a Nena quem convenceu nóis de tocá em frente. Disse que num dava um joá podre pelo patrãozim, mas que inda butava uns vintém em nhã Ruth – por piedade cristã.
Toquemo entonce pra Buritis. Afiná de contas, o sinhô disse que era promoção nóis sair de Biúna – com uã mão na frente e otra no buzanfã – e vir trabaiá aqui. Que o lugar tiã mais ricurso, mais vaca, mais pranta. Mas num gostemo da mudança de jeito manera.
Em primeiro lugá, só pra limpá o cocho das criação é um dia inteirim. Tá vê o Senado Nacioná: lama, barro, merda e um fedô de coisa podre. Adispois, o que mais tem aqui num é bizerro, é jornalista. Sumana passada, o Cléoso achou um danado dentro do poço sigurano um gravadô. Qué é que nóis faiz cum el's? Chamamo o coroné de novamente? Ou respondemo as pregunta?
Um abraço de seu novo caseiro da popriedade de Buritis,
Alencarino.
P.S.: Desta veiz, queremo trabaiá de cartera sinada e rigistrada em Cartóro.
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