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05-06-2001
A filha psicóloga do caseiro.
Ibiúna, junho de 2001
Senhor Cardoso:
O senhor não deve se lembrar de mim. É que meu pai, Alencarino, quando se refere às filhas nas cartas que envia ao patrão, escreve: “as meninas”. Nomeia os filhos homens Cléoso e Juberto, nomeia até os agregados Dagildo, Domiciano e Borges, mas as filhas mulheres? E às vezes até a esposa? Quase nunca as chama pelo nome.
Perdôo meu pai por essa faceta machista, sei que isso se deve ao estado de penúria em que se encontra mergulhado.
Só que, independentemente da pobreza, e apesar de Vossa Excelência, meu pai conseguiu me dar educação. Mesmo recebendo salários atrasados, deixou um pouquinho de recursos para os filhos. Mas nem todos puderam aproveitar tal devotamento. Meus irmãos, por exemplo, tiveram de ajudá-lo diretamente na lida. Cléoso é um segundo Alencarino, dedicado à terra. Juberto quer ser cantor de rap , tem até uma banda, mas também é obrigado a manejar o enxadão.
Eu fiz 1º e 2º graus na escola pública de Ibiúna. Sempre fui boa aluna. Ajudava na roça, na arrumação da casa e, à noite, estudava.Terminei prestando vestibular e entrei na faculdade de psicologia. Este ano estou me doutorando com a tese “Esquizofrenia no Poder? De Jânio à FHC”. E o motivo desta carta é convidá-lo para estar presente à minha defesa de tese.
É claro, já posso imaginar que o senhor não vem. Intelectuais egocêntricos não prestigiam trabalhos acadêmicos que não sejam de seus protegidos. Muito menos os que demonstram que sua forma de administrar é esquizóide. Sim, o modus operandi de seu governo é esquizofrênico, senhor Cardoso.Uma hora é abundância de energia, noutra apagão. Num determinado momento é estabilidade, no outro já é inflação.
Para usar um termo técnico, o seu governo sofre de distúrbio bipolar. Vai oscilando de X para Y e dali para Z, desde que sua imagem se mantenha como a de um Narciso belo e preservado.
Falando em narcisismo, parte de minhas pesquisas analisam a fisionomia psíquica de nossos presidentes através dos deuses da mitologia greco-romana. O senhor é um caso bastante atípico. Pensa que é Zeus, age como Hades do Inferno e quer que o tratem como uma Afrodite. Não é à toa que o país está uma verdadeira Roma, de Nero.
O senhor carece de psicoterapia urgente, senhor Cardoso. No mínimo, três sessões por semana, de preferência, em divã.
Apesar de não ser meu paciente, seu comportamento em público permite um diagnóstico bastante preciso. Sua dependência ao FMI e ao Banco Mundial, está claro, é resquício de uma relação edipiana mal resolvida. Sua mania de fazer discursos defendendo o sistema neoliberal só pode ter tido origem numa fase oral estropiada. E a vontade inconsciente de destruir o país está ligada ao desejo de se vingar dos coleguinhas que lhe batiam no jardim de infância. Por essas e por outras é que nem Freud, nem Jung, nem Lacan juntos explicam o seu governo.
Atenciosamente,
Fatinha
P.S.: Estou clinicando em Ibiúna. Não fui com meus pais para sua fazenda de Buritis. Mas ontem falei com os dois por telefone. Meu pai lhe pede encarecidamente que envie o salário referente ao mês de maio.
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