02-07-2001
Apagão em Buritis.

Buritis, julho de 2001

Seu Fernando:

Foi logo adespois da janta de terça que se assucedeu a desgracêra. Távamo eu, Nena, Dagildo, Domiciano e Borges sentadim na varanda de casa, pitâno um cigarrim, cariciano a viola e tomano uma água de pinho. Pois não cortáro a luz da popriedade!

U'a popriedade de prisidente da Rimpúbrica,  ca's lâmpa tudo preta, ô coisa triste nesse Brazí, seu menino!

Foi aí que me alembrei: foi de tanto moê as cana no motô eléltrico! Pra dá pras vaquinha, que o sinhô gosta das bezerra nos trinque.

Por isso é que passemo – e muito - dos quilovate apalavrado.

Pagão em Buritis, seu Fernando, quem diria? 

A sintuação tá horríve. Horríve e negra. A fazendinha de Voz Celença, já faiz duas noite, tá de trupicá em morcego tamanha treva.

Por farta do que fazê comecemo então a proseá de cócra no breu.

E o cunversê, cráro, foi todim sobre vossa pessoa.

A Nena foi quem primeiro falô. Ela disse anssim:

Cunheço o Fernando faz ano. E nunca pensei, aqui co's meu miolo mole, que fosse se ajuntá tanto poblema na diministração dele. Só tá fartano ele criá u'a lei pra tê terremoto, vendavá e vurcão no Brazí.

A Nena, o sinhô sabe, não tem titubeio, fala má de quarqué um, quanto mais do sinhô que ela conhece dos tempo – de cumunista.

Eu fui lhe adefendê, mas os treiz gregado se ajuntaro mais a muié e eu fiquei de café-cum-leite na história.

Metero a ronca em vosso guverno (que pr'eles é disguverno). Pegaro a criticá o pagão, os imposto, a caristia, a currução.

Pra num ficá por baixo pedi a eles que dessem entonce arguma idéia, u'a luz, pro sinhô. Afinár, como Voz Celença mesmo fala nas televisão, num dianta criticá sem apontá sulução.

Pois anote aí o que cada um mandou dizê à Voz Celença:

Nena: “Largue a prisidença, vá estudá o tar do Carlos Marques nas Lemanha e só vorte adispois de tê aprendido tudo-tudim”.

Dagildo: “Passe a prisidença pro Aéço Névi. Aí acaba logo tudo e nóis começa o Brazí do zero”.

Domiciano: “Pegue tudos real que tivé na rua, nos banco e na mão do povo. Pinte de verde e diga pros gringo que é dóla. Se el's num acreditare, venda o que sobrô do Brazí, pegue o dinheiro e acerte a dívida lá cum eles. Pronto, seu prisidente: vai tê mais país nenhum pro sinhô se apreocupá, nem pra lhe deixá papudo de nervoso”.

Borges: “Dê uma pisa de casca de côco nesse Antóim Carlos, seu moço! Esse véi tá doido pra levá uns coque no escutadô de berimbau!”

Eu: “Me pague o meiz de maio, seu Fernando. Sem luz e sem saláro é ruim”.

Sastisfação,

Alencarino

 
 
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