05-08-2001
Mală e Grigóro em Buritis.
Buritis, agosto de 2001
Seu Fernando:
Aqui vai (quais) tudo na santa paz de Deus que nós merece e é muito. Morrêro treiz bode pai-de-chiqueiro, matêmo nove galo preto por órde de seu secretáro-gerá (a mó de fazer despacho aí no Pranarto) e nascero duas ternera da vaquinha Zélia.
Os bode falecêro por causo que Voz Celença num mandou o dinheiro da vacina, os galo foi de peixeira na goela mesmo e as ternera já tão pra cair o embigo.
Em Buritis o negóço tá pra cigano sem-terra nenhum butá defeito. O sinhô só anda por essas banda em dia de São Nunca. Tamém num pranta nadica de nada. Desse jeito logo el's vão aprecebê que a popriedade é desprodutiva, pegam a pulá a cerca e cabou-se o que era doce.
E agora entonce que a Pulíça entrô nas greves o que vai tê de cigano se aboletano em vossa porteira! Adespois num diga que o Alencarino véi num lhe botou a mão na consciênça.
Anliás, seu Fernando, eu acho que quem vai terminá invadino a fazenda do sinhô vão ser os hômi da Pulíça. O saláro desses meganha tá pió do que a micharia que nóis paga pro Dagildo, pro Borges e o Domiciano. Já, já el's tão aí mascarado, de fuzí na mão, do lado dos guarda. Cruz credo! Quem amofinou-se agora com o sinhô foi a Nena. Adespois do pagão, ficô anssim, bicuda, nem qué ouví falá em seu nome. Tamém num pode mais ver as novela, a mó de economizá letrecidade. A rãiva dela tá dano pra cortá de faca, seu menino. Diz que vai pará de rezá terço pra Voz Celença. Só faiz oração agora pro doidim do Paulo Henrique, que lesado, num pode ficá sem a ajuda de Nosso Sinhô Jesus Cristim. Malã passou o sábodo aqui mais o Grigóro. Descero do alescóptro no terreiro.
Ofereci cachaça, café, mas o Malã só bebe vim francês. Trouxe até uma garrafa no emborná.
Os dois conversaro foi muito na veira da piscina. Num ouvi direito o que el's parlamentava. Mas era coisa compricada, cheia de nó pelas costa. O Grigóro tava ezartado que só o Cujo.
Eita véi treiteiro, moço! A papada inchava feito a de sapo no brejo. Queria porque queria convencê o Malã de candidatá a num-sei-quê do Brazí.
Malã qué de jeito nenhum. Tomava uma lapada do vim francês, dizia nome feio, escarrava. No domingo apeáro no alescóptro e se tocaro praí, cuspino fogo. Isso num vai cabá bem, seu Fernando.
Inda mais agora, que a Nena lhe mardiçoô.
Com o abraço do seu caseiro (saudoso da chacrinha de Biúnas), Alencarino.
P.S.: Mande o segurança trazê vela. O lampião tamém tá careceno de um bujãozim de gás.
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