02-09-2001
Juberto, o Podre.

Buritis, setembro de 2001

Fernando, seu burguês traidor:

E aí, beleza?

Seguinte: vi meu velho, minha velha e a mana enviando essas cartas aí e, pá, resolvi mandar um recado também.

A Fatinha escreveu uns tempos atrás procê dizendo que eu tava a fins de largar o enxadão e montar uma banda de rap . Em parte, tava certa. Ficar aqui amassando barro é uma bosta, tá ligado, presidente da elite?

Só que ela errou no ritmo.

Eu perdôo, ela é meio viajandona, vive estudando que nem louca psicologia. Pra falar a real, até que tentei ser rapper . Mas em Buritis não dá. É a mesma coisa que cantar ópera na MTV.

Daí resolvi ser punk , cara.

Punk todo mundo entende logo o que é.

Lá em Ibiúna, na chacrinha, comecei a ouvir Sex Pistols, Ramones, Olho Seco e vivia cantando: “Papai Noel, velho batuta”. E outras, tá ligado?

Era um jeito de esquecer que a gente tava ali, no meio daquele nada, servindo bacano e com o pescocinho até aqui de dívida. Enquanto isso, cês dando festa na casa de campo, bebendo champanha com aqueles ianques do Banco Mundial, falô?

Um dia peguei a viola do velho e logo, com três acordes, tava compondo. De tanto ver esse lance de político lá na propriedade, fiz a primeira música da minha vida. Chamei de Chácara Anarquista . O refrão era uma porrada em você e em todos esses bundões aí de Brasília:

“Moooorte!

Moooorte!

Quero ver o presidente enforcado

Nas tripas do último deputaaaado!

Ô, Ô, Ô!!!!”

Se meu pai souber que sou punk , tô funhanhado, sei disso aí. O véio me manda pro Colégio Adventista na hora.

Os meus piercings tão escondidos no paiol, debaixo de um saco de salitre.

Mas você, neoliberal de última hora, eu quero que saiba de tudo.

Meu pai é um tremendo mané, que ainda acredita nas suas lorotas. Arriscou o rabo várias vezes no meio de milico e sem-terra pra livrar a sua cara.

Mas eu tô sabendo o que cês tão afins de fazer com o país. Cês querem que isso aqui vire um puta de um McDonald's gigante. Com neguinho tudo bonzinho, vestido de Bozo, comendo rango podre e fazendo cara de quem tá achando bom.

Só que eu não sou o Cléoso, meu mano cuzão, cara.

Eu quero mudança aí, ó.

Quero que cês acertem as contas com o movimento punk. Em breve vamos transformar a praça dos Três Poderes – três poderes, esse nome me dá alergia – numa nova Gênova. E, se a sua polícia criminosa vier pra cima de nós, já tamos com engradados e mais engradados de bolinhas de gude pra jogar nas patas dos cavalos.

Cada tiro que cês mandarem vai ser respondido com uma coturnada.

Não vai ter perdão.

Prepare-se pra tremer com a voz da dinamite, lacaio do FMI! Nós vamos responder no mesmo tom à hipocrisia de um regime que arrocha, oprime, mata.

Pois só há um caminho para a emancipação da raça humana: o da reação à altura do crime perpetrado pelos burgueses como você e sua laia.

Agora dá licença, que o pai tá mandando eu ir aspirar a piscina.

Juberto

 
 
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