02-10-2001
A caseira do presidente e o recado ao presidente dos EUA.

Buritis, outubro de 2001

Nandim:

Que Deus lhe abençoe, meu fí, que eu nunca vi tanta desgrama na vida dum prisidente! A situanção já tava fazeno nóis engüiar. Fôro cair o diabo das torre, danou-se de veiz. É como eu sempre digo: os gringos bufos e nóis morrem de obradeira.

Aqui no Buritis é uma economia da gota serena. Economia de água, de luz, gás, telefone. Tamos economizano inté esgoto, Fernando. Nunca mais comemo uma mãozinha-de-vaca; é só pinicado, pinicado, pinicado.

Das veiz eu me pregunto: que é que eu fui sair lá do inferno da pedra do Maranhão, vim pra Sum Paulo e me amigá mais o Alencarino?

Tava era doida, doida, doida.

Mais doido só tu, meu fí. Como é que um prisidente dum país lascado como o nosso vai se oferecê pra ajudá esses gringo rico? Com tanta gente aqui vendeno as prega-mestra, pricisando de dicumê? Façísso não que agrava a Deus. Umêno disfarce, hômi.

Eu chega fico horrorizada quano chega esses cabra do estranja, esses do Banco Universal. É tu, o Arminho, o Pêdo Malan feito abestado na televisão, os treiz correno atraiz dos tubarão êita viaje horríve! Tu te esquecesse do Marques? Lá em Biúnas, quando tu era dolescente mais a Ruth e o Serra, era tudo pro Marques. Nunca vi uma criatura com tanto cartaiz. “O Marques não disse isso.” “ O Marques não faria uma coisa dessas.” “O Marques pensava diferente.” E agora, menino?

Ninguém mais fala no pobre. A Ruth tirou até aquela fotografia dele da sala e arriou lá na mucuta. Tá lá, com aquela barba de doido dele, os calango passano por riba da mordura sem a menó cirimonha. Ô ingratidão!

Agora o negóço é só Buche.

Buche, Buche, Buche. Uma ladainha que mais parece a das cantadeira de incelença de minha terra. Que Buche é esse, Nandim? É o que faz buchada?

Deve de ser. Porque quano ocês pega a falá dele, o ambiente fede vê quano eu perpraro panelada e sarrabulho.

Alencarino não iscreve esse meiz porque tá de quengo inchado. O Juberto, com essa história de ser punque, acabô foi expurso da escola por incesso de anarquia. Não qué mais arespeitá otoridade de ninguém. O Alencarino entoce pegô uma palmatória e lascô doze bolo na mão do menino.

Foi aí que se deu a desgraceira. O Juberto se alterô e largô uma sudenga no pé-do-ouvido de meu marido que como tu sabe é pai dele.

Em veiz de adevorvê, Alencarino apodreceu em vida. Saiu devagarzim, com as orêia zunino, e foi se deitá na rede. Tá lá faiz dia, avalie. Morto, morto, morto de tristeza.

Se ele tivesse adevorvido, dado uma pisa boa nos quartos do Juberto. Mas feiz foi se entrevá. Sei não, Fernando, mas pra mim isso é, em partes, curpa tua. Sim sinhô, curpa tua. Esses menino tão ficano tudo cangaceiro, tudo errado. E isso é de revorta. Tem escola que preste pra eles? Tem emprego pra eles? Tem adivertimento pra eles? Tem é o roscofe do bispo, seu menino!

Será que teu cumpádi Buche vai resorvê essas questão?

Sei não.

Maiz, como tu fala com o hômi toda hora no telefone, dê um recado meu a ele:

arreganhá o povo de bomba num é solução.

 
 
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