01-10-2002
A filha psicóloga do caseiro - II.

Buritis, outubro de 2002

Senhor Fernando:

Quem lhe envia esse e-mail é a filha de Alencarino, a Fatinha. Estou bastante atarefada com a finalização de minha tese para a faculdade de psicologia “Da neurose nos trabalhadores do campo ou profilaxia da síndrome do caseiro esquizofrênico”.

Mesmo assim, e na qualidade de profissional da saúde mental, faço questão de lhe dar minha opinião profissional sobre sua iminente saída do governo.

Faço questão de ressaltar que estou lhe escrevendo na qualidade de psicóloga e não como ex-amiga da família.

Assim sendo, gostaria inicialmente de me solidarizar com Vossa Excelência nesse momento difícil.

Sei o quanto deve ser horrível, depois de anos viajando pelo mundo de primeira classe e sendo tratado – com o perdão da má palavra – como bambambã, ter que agora de “largar a boquinha”.

Posso imaginar também o quanto deve ser doloroso pedir um café ao garçom do palácio e receber uma xícara com a asa quebrada e o café completamente frio.

Pelo pouco que convivi com sua família na chácara de Ibiúna, e depois na fazenda de Buritis, pude perceber que sua personalidade é do tipo obsessivo-egocêntrica.

E nada mais tenebroso para um tipo desses do que ser tratado como um reles reserva do Olaria em jogo de terceira divisão.

O pior de tudo é que, muito provavelmente, o senhor não aceitará tal situação de modo sereno. Posso vê-lo – especialmente no mês de dezembro – bastante excitado, jogando aparelhos telefônicos na parede, chutando a mobília do Planalto e rasgando o tapete vermelho (furado) de seu avião presidencial.

Mantenha a calma, professor Fernando (Notou o “professor”? O senhor precisava se acostumar logo a ser um acadêmico de novo…). Saiba que a via-crúcis será longa.

Sem querer me meter na área política, mas trate de arrumar um excelente advogado. Melhor, vários advogados.

Sem dúvida, todas as pessoas que Vossa Excelência desempregou vão querer vê-lo – novamente desculpando-me pelo não-emprego da norma culta – na tonga da mironga do kabuletê.

São muitos processos. E, para isso, não basta tomar maracujina, como o senhor recomendou que os mercados o fizessem. Talvez fosse melhor procurar um psiquiatra – já que eu não posso prescrever medicamentos tarjados – e pedir alguns comprimidos de Prozac e Lexotan.

Na esperança de que, como diria Freud, o senhor se realize plenamente no amor e no trabalho, cordialmente,

Fatinha.

 
 
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