05-02-2001
O relatório do caseiro do presidente.

Ibiúna, 5 de fevereiro de 2001

Seu Fernando: Despois de um tempo borrecido co'o sinhô, arresorvi lhe mandá um relatóro das coisas que se assucedero aqui na chacra em janeiro. Como fiz minha parte, faça a sua. Me pague.

PRIMERA SUMANA

Preparemo a ração pros pato, pras galinha, pra vaquinha. Conforme pedido de nhã Ruth arrumemo o caramanchão dirrubado pelos ciganos sem-terra. É a terceira veiz que nóis disentorta esse pau. E, cada vez que aprumemo o diabo, são deiz real de material. Em anssim sendo, Voz Celença me deve mais 30 real, além dos trasados.

Cléoso fez a limpeza na piscina a mó de recebê os senador, os mericano, os banqueiro ingleiz, os japonês e o véio Marinho.

Dagildo, Domiciano e Borges num viero trabaiá. Inventaro agora de fazê greve. Tão dizeno: “Ou aumenta o saláro ou a chacra dele (do sinhô) vai criá mato até pra exportá”. Lasca!

SUMANA SEGUNDA

Segunda-feira, preparemo a ração pros pato, pras galinha, pra vaquinha.

No dia seguinte, deu u'a chuva aqui de matá sapo fogado, seu menino. Três pato entraro no rodamoinho. As galinha, que num sabe nadá, também desencarnaro. O caramanchão arriô de novo no chão. Desintortemo: mais deiz real. Entrou água na guinição do seu jipim, a sauna dispencou por riba do currá. E a vaca, que tava amojada, bortô. Ali por quinta, veio a estiage. Anssim que o sol firmou-se, uma tropa de formiga-cortadeira se botou pra riba do milhará. E atrás delas uma nuve de gafanhoto do cão. Comero tudo, tudo, tudo. Não sobrou espiga nem pra fazê pamonha pra nhã Ruth.

Formemo uma frente de trabáio, mas fiquemo estrompado de tanto esforço. Quano certemo os trens, assucedeu o fogo. O demente do Dagildo, bêbo, jogou uma bituca acesa por riba da paióça que o sinhô construiu a mó de abrigá as tropas de milico. As lavaredas tomaro conta de quais tudo. O Juberto sumiu no mei do fogo. A Nena tá que é choro e catarro. Isso só pode ser Deus lhe fazendo adevorvê o que seus cumparsa roubaro, seu Fernando. Pense nisso.

TERCERA SUMANA

Preparemo a ração pro pato restante e pra vaquinha.

Logo despois, ouvi os ciganos sem-terra gritano e uma zoada de motor. Arribei a vista e vi um lecóptro. Conforme ele baixou-se, reparei que um home papudo lá dentro era o sinhô. Me dissero despois que Voz Celença veio ver os estragos na chacra. Mas por que não desceu pra tomá uma água-de-pinho mais nóis?

Medo dos ciganos?

Da próxima veiz venha a pés. Quem não deve não teme.

DERRADERA SUMANA

Preparemo a ração pra vaquinha. O pato morreu. Saudade dos cumparsa dele. Dagildo, Domiciano e Borges ainda tão de greve. Juberto pareceu. Tinha se bandeado pro lado dos ciganos. Travessei a cerca, fui lá na muntuêra del's e tirei o sé-vergonho pelas orêia. Botei mais o Cléoso pra limpá a piscina. O sinhô tá guvernano ruim que é uma beleza. Mas quano arguém quisé mudá de banda aqui, tem que preguntá pra mim se pode. Sou feio, guinorante e vesgo, mas mudéstia à parte: diministro o sitiozim mió que Voz Celença diministra o Brazí.

Um abraço do Alencarino.

 
 
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