02-03-2001
O caseiro do presidente e os transgênicos.

Ibiúna, 2 de março de 2001.

Seu Fernando:

Bovê teve aqui.

Chegou ele, mais uns comparsa sem-terra, no raiá do dia.

Pularo por riba da cerca e começaro rancá a prantação de milho de nhã Ruth.

Quando ouvi a latomia del's por adentro dos mato, panhei a garruchinha e meti fogo.

Bovê gritou. Entendi que eles tavam mijando patraiz e partimo pruma conversação.

Preguntei: “Ô Francês, porque é que ocêis vão entrano na chacra de Voz Celença, rancano as pranta, as espiga?”

O tar do Bovê, que tem uma bigodera lascada, expricô-se.

Falô que nóis tava botano nos pé-de-milho um negoço dum transgênico.

E como aqui é chacra de presidente el's queria fazê um protestamento, que era pro mundo sabê que nóis tava torto e errado.

Eu disse a ele: “Ói, o transgênico que nóis usa aqui é bosta de galinha”.

Mas aí, lá no fundo do meu juízo, eu me alembrei duma coisa. O sinhô, seu Fernando, tiã mandado uns saco de aniage pra cá e pedido pr'eu jogá por riba dos pé de pranta tudo. Se alembra? E eu só num joguei porque era veneno e Voz Celença não tiã arremetido o dinheiro pra nóis diquirí os capacete de proteção, se alembrou de novo?

Pois bão, seu menino, fumo eu, o Bovê e os pariceiro dele no moxarifado da chacra vê o que tava dentro dos saco de aniage.

Quano o Francês olhou pra dentro da sacaria, virou o cão. Pulava feito o cramulhão, gritano naquela língua demente dele. Fui entendê meia hora adispois que o que o sinhô tiã mandado era o tar do veneno transgênico.

Peor: sem me dizê o que era aquilo.

Pra lhe adefendê ficou impossíve, moço. O jeito foi chamá a tropa toda pra ranchá mais nóis. Comêro, bebêro, rotáro e, quando maginei que iam simbora, o Bovê gritou lá pros dele: “La vache, la vache”.

Eu pensei que tavam chamano a comida da Nena de lavage. Já ia pegano a garruchinha, que ingratidão a gente arresponde anssim. Mas o que o Francês tava quereno dizê é que tiã argum pobrema co'a vossa vaquinha Zélia. Quano dei fé, já tavam tudo entrano no currá.

Parparo a pobre, ouviro coração, purmão, puxaro língua, o diabo.

Dispois, um cigano sem-terra veio, e disse pra mim “essa vaca tá louca, seu Alencarino”.

Fiquei desentendido. Indaguei: “Mas como louca, se eu inda num vi ela comeno merda nem rasgano dinheiro?”

Mesmo anssim, seu Fernando, levaro a vaquinha daqui. Jogaro num caminhão e tão carregano aí pra porta do seu Palácio, a mó de protestamento. A bichinha foi se tremeno todinha, coisa de partir coração de porco-do-mato.

E saiba que a curpa é sua. Fica nessa bestage de copiá estrangeiro em tudo. Taí. Eu lhe disse pra num dá ração Bonzo pra vaca, que ela ia pegá uma mulésta. Voz Celença teimou, disse que nas Europa davam era isso, que a bicha ia amojá mais ligeiro. Agora güente.

Com um abraço preocupado, Alencarino.

P.S.: Quando mandá esses veneno pra cá, favor avisá. Passar vergonha na frente de brasileiro, vai. Mas na frente de francês é lasca.

 
 
Veja também:

Crônicas
O Caseiro do Presidente
Aboboral
Limeriques e Casteliques
Letras
Privadas do Mundo
Nestor & Laika
E-mails dos Leitores

Castelorama - Home page

Fale com Castelo

 
 

Crônicas  O Caseiro do Presidente  Aboboral  Limeriques e Casteliques  Letras  Privadas do Mundo  Fale com Castelo