mama mundi

A
mãe do mundo que gerou Gagárin gerou também Mestre
Vitalino, o primeiro homem a sair como um feto para fora da atmosfera
e o artesão que extrai formas vivas do barro da terra. Essa
imagem, sugerida na música que dá nome ao novo disco
de Chico César, Mama Mundi, diz muito da experiência
das últimas gerações que viveram a passagem fulminante
dos nichos regionais ao sentimento planetário. Ela é
bem marcada nesse paraibano de Catoté do Rocha cujo pai, seu
Francisco (que entreouvimos cantando na “Dança do Papangu”),
praticou os reisados nordestinos desde sempre, por tradição
familiar, enquanto o menino, levado pela onda dos tempos, se desgarrou
e se cosmopolitizou, ganhando trânsito pelo Brasil e fora dele.
Como outros músicos brasileiros que passaram do sertão
ao mundo, Chico César é um étnico literalmente
descolado, nativo de um espaço sem porteira, dançando
de propósito uma dança que “imbalança”
entre Okinawa e Aquidauana.
O disco se compõe de músicas expressamente dançantes,
como a já citada “Dança do Papangu”, o forró
“Nego Forro”, o coco ‘Aquidauana”, o samba-enredo
“Sonho de Curumim”, ao lado de canções líricas,
como a luminosa declaração amorosa “4h e 15 ou
l0 p/ 3”, a cortante “Tambor”, tendida para o b!ues,
o assumido romantismo de massas de “Pensar em Vocé”,
a misteriosamente linda “Talvez Você”, a toada com
sabor cabo-verdiano (também chamada “morna”) “Barco”,
e recriação sutil de “Sou Rebelde” (sucesso
de Lilian pós-Leno nos anos 70).
Em Mama Mundi a dança é várias vezes, além
de apelo rítmico primeiro, motivo de meditação
sobre a vida social e o destino humano. Em alguns casos a desaceleração
rítmica deixa isso mais evidente, como em “Folclore”,
xote-reggae que fala de um batuque maranhense - o lelê (“fui
no lelê pra dançar lelê iá, dançava
eu querendo me acalmar / pra entender, ler e escrever / mentalizar,
dizer os mistérios do lugar”). O mergulho no universo
interno à dança popular maranhense desperta o sentimento
presente das carências do país e a canção
termina, certamente não por acaso, com um rasante e surpreendente
“discurso” visceral sem palavras.
“A Força que Nunca Seca”, parceria com Vanessa
da Mata, já gravada por Maria Bethânia, não deixa
de ser também um poema cantado sobre e dança-de-trabalho
com que a mulher pobre leva a lata d’água na cabeça,
mantendo o delicado “equilíbrio cego” que faz a
lata, quase sem esforço visível, “ficar reta”,
parada em seu movimento pela “estrada morta”, levada pela
“força que nunca seca”. Destaque-se aí a
participação (sutil) do músico africano Basuru
Jobarteh e a percussão de Marcos Suzano e Naná Vasconcelos.
“Dança”, que já fazia parte do CD ‘Aos
Vivos”(que consagrou Chico César junto com a canção
“Mama África”), volta agora, regravada, em Mama
Mundi com boas razões. É uma canção sobre
o caldo de cultura geral em que fermentam ao mesmo tempo as comunidades
rurais e as tribos urbanas, com referências à América
(“dança sobre as roças mortas de aipim”),
à África (“dança a moça triste do
Benin”), à Europa (“anjos nos céus de Berlim”),
e à Ásia misturada ao mundo São Paulo (“Osasco
/ Osaka / rosa / bomba / maca / ossos do office-curumim”). É
esse mesmo sentimento de aldeia globalizada que anima, por sua vez,
o
samba-enredo “Sonho de Curumim”, que fecha o disco em
ritmo de “guerra / carnaval das nações”
e “tróia no xingu”.
Na sintonia fina de letra e melodia, Chico César continua com
os achados, trava-línguas e trocadilhos lúdicos com
que faz as palavras dançarem conforme a música. A “Dança
do Papangu” (referência à personagem brincalhona
e zombeteira dos reisados) se propõe a empolgar humoradamente,
num verdadeiro festival de “uus”, sem “tchan”
nem “U2”, sem “tchururu” nem “tchurururu”,
tanto a Lady Diolinda do MST quanto a Lady Zu do soul e discothèque,
derivando no final para um clima funk. Os chamegos clássicos
do baião e a gemedeira em “ui” e “ai”
(“quem tá dentro não sai”) comparecem no
fluxo silábico do forró em “Nego Forro”,
onde o violão de nylon de Chico César e o violão
de aço de Mário Manga compõem juntos nos entremeios
um empolgante e descarnado forró-de-viola.
O mote de “Aquidauana” é uma espécie de
adivinha multicultural, repicando ditongos aparentados de palavras
indígenas e orientais: “o que há / e o que não
há / em Okayama e Okinawa / pro povo de Aquidauana / eu vou
ter de perguntar”. O jogo de palavras dá lugar a um longo
e saboroso repente, ritmado por Naná Vasconcelos, brincando
com o enigma das diferenças nos usos, costumes, modos e jeitos
dos lugares. A faixa abre com sons de rua em Istambul, gravação
direta feita por ocasião de uma das inúmeras tournées
recentes de Chico César por esse mundo de Mama. Vale frisar,
aqui, que a produção do CD (de Mário Manga, assistida
por Chico César e Swami Junior) não satura tecnicamente
os materiais sonoros nem cresce sobre as canções como
um rolo compressor armado literalmente do recurso anabolizante dos
compressores, ultimamente hipervalorizados. Prevalece a respiração
adequada a um disco que tem também muito de yin. No caso, a
voz do “muezim” turco, ouvida no começo, retorna
depois por um momento e, bem a propósito, pairando sutilmente
sobre o coco de “Aquidauana” como um aboio onírico.
Falando em sonho, os arranjos de Nelson Ayres para as canções
lentas acompanham primorosamente tudo que há nelas de transparência
e leveza. É o caso de “Barco”, em que os harpejos
e frases do violão contracenam com as cordas, fundidas aos
sons eletrônicos programados por Sacha Ambak. Ou de “Sou
Rebelde” e, mais ainda, “Talvez Você” (parceria
com Vicente Barreto), em que as frases descendentes do violão,
junto com “glissandi” acústicos que se confundem
belamente com “glissandi” eletrônicos, sustentados
por cordas etéreas, ora alongadas ora recortadas, criam um
clima de suspensão sutil em que se fundem algo como vento vago,
lembrança fluida, silêncio latente, desejo flutuante.
E falando em desejo flutuante, a última palavra vai para a
amada desejada em “4h15 ou 10 p/ 3”, menina-senhora na
luz do horizonte, para a qual tudo se entrega ao som das gaitas-de-fole
do mundo. A salvação, em Mama Mundi, se houver, está
escrita no nome: é mulher.
José Miguel Wisnik - março/2000
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4h15
ou 10 p/ 3 |
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mama
mundi |
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dança
do papangu |
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barco |
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tambor
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aquidauana |
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pensar em você |
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sou rebelde |
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a força que nunca seca |
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dança |
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talvez você |
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folclore |
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nego forro |
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sonho
de curumim |
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músicas
letras
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o
que se falou
"...
bem servido de arranjadores, chico césar conta ainda com a nata
da percussão brasileira no cd..... Além de marcos suzano,
que participa em quase todas as faixas, o músico tem o reforço
de naná vasconcelos em "a força que nunca seca",
já gravada divinamente por maria bethânia, e em "aquidauana",
esta última um delicioso coco sampleado. como bom herdeiro de
luiz gonzaga e de jackson do pandeiro, chico não poderia deixar
de gravar um forró no disco. "nego forro" tem tudo
para estourar nas casas de forró paulistanas, frequentadas hoje
pela classe média alta da cidade..."
tom cardoso – folha de são paulo (ilustrada) – 13/03/2000
"...
mama mundi é um disco fortíssimo, profundo, com subtextos
(literários e musicais) a explorar por muito tempo. o impacto
dele é comparável ao que provocaram os discos de ruptura,
no fim dos anos 60, de caetano veloso e gilberto gil. é quase
um disco de tese (quase porque sua beleza é mais evidente do
que seu fundamento ideológico): chico césar está
apresentando uma solução estética possível
para a questão da pós-modernidade. trabalhando com opostos,
conciliando contradições, fez um disco fulgurante, esclarecedor:
talvez não seja definitivo,pois ele tem mais inquietações
com as quais nos provocará. que seja em breve."
o estado de são paulo - 18/03/2000
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