cantáteis
- cantos elegíacos de amozade
livro
lancado no brasil pela editora
garamond e na espanha pela edicions
positivas
saiu
também como audiobook pela livro
falante.

Cantáteis, nas palavras do autor, é “um canto
de amor e amizade a uma mulher”, e foi escrito impulsionado
“por esse sentimento híbrido (amozade) e que muitas vezes
julgamos formado por partes que se negam: o amor e a amizade”.
A musa, mais além da mulher real que existiu na vida do poeta,
é “uma representação de um tipo de mulher
de São Paulo. Urbana, letrada, combativa, independente, freqüentadora
dos círculos intelectuais alternativos, das rodas artísticas”.
Se São Paulo, como disse outro poeta, é como o mundo
todo, Cantáteis é uma experiência de linguagem
que ultrapassa as fronteiras dos idiomas, das culturas, do nacional,
do popular, do erudito, dos gêneros, das identidades, da língua.
Ao mesclar elementos da sua própria experiência, da vida
cotidiana, com referências eruditas, da filosofia à política,
e da cultura popular, do cinema, do pop, da comunicação
de massas e do brega, entre outras, Cantáteis dialoga com uma
rica vertente da literatura e da poesia contemporâneas. Mais
além, na própria estrutura, por sua proposta cênica,
musical (encontra-se em parte musicado) e midiática, o poema
se insere no registro multimídia, característica marcante
da criação poética a partir do século
XX.
CANTÁTEIS PELO AUTOR
Escrevi
"Cantáteis - Cantos Elegíacos de Amozade"
em 1993. Não num só fôlego, como seria mais heróico
de contar. Mas em muitos e seguidos mergulhos no texto, no assunto.
Escrevi em um bloco de notas, à mão, em São Paulo.
Andando pelas ruas. De ônibus, a pé, de metrô,
de táxi. Eu, estrangeiro no lugar e no momento, escrevi esse
texto aos solavancos vagando pela cidade, mais pela zona oeste. À
vezes vagando pelo meu quarto num minúsculo apartamento que
dividia com um colega nordestino na avenida Heitor Penteado.
Escrevi "Cantáteis" como um canto de amor e amizade
a uma mulher, uma musa paulistana. Escrevi movido por esse sentimento
híbrido (amozade) e que, equivocadamente, muitas vezes julgamos
formado por partes que se negam: o amor e a amizade. Ela chama-se
Tata Fernandes, está nomeada no poema. O tempo e o afastamento
do ambiente passional mostra que a musa, mais que pessoa em si, é
uma representação de um tipo de mulher de São
Paulo. Urbana, letrada, combativa, independente, freqüentadora
dos círculos intelectuais alternativos, das rodas artísticas.
Seja isso resultado de reivindicação e conquista pessoal
ou berço. Uma espécie de herdeira de Pagu ou Anita Malfati
ou Lina Bo Bardi ou Tarsila do Amaral. Uma contemporânea de
Suzana Salles, Lala Dehzenleim e Soninha Francine.
Esse distanciamento também me faz ler "Cantáteis",
e talvez seja essa a leitura mais fecunda hoje, como um canto de afeto
abismado à cidade de São Paulo. Suas surpresas, sua
teia, o fascínio inevitável que exerce sem compaixão
por quem aqui chega. Sua eroticidade e seu tanatos. Um canto de amor
a São Paulo mulher, hermafrodita, grávida de si mesma
e das pessoas que recebe. Elas também, a cada segundo, mais
grávidas do que eram e de um devir contínuo em que a
cidade as coloca. Nos coloca.
Escrevi "Cantáteis" estimulado pela existência
e consistência de poemas longos como "Os Cantos" de
Erza Pound, "Morte e Vida Severina" de João Cabral
de Melo Neto, "Altazor" de Vicente Huidobro. Ou ainda "O
Guesa", de Souzândrade e "A Divina Comédia",
de Dante Alighieri. Sei que o fato de esses poemas existirem e pesarem
decididamente na balança da literatura universal ou nacional
deveria me silenciar em definitivo. Mas deu-se o contrário.
Cometi "Cantáteis". Atribuo hoje à falta de
juízo que acomete os apaixonados. Era como eu me encontrava.
E me perdia. E me encontro. Por isso publico.
Dez anos depois do texto escrito, estou colocando melodia com o intuito
de ouvi-lo e vê-lo transformado em cantata. A mim, a musicalidade
do poema sugere o contraponto criado pelo encontro da cultura embrenhada
nos brasis distantes e distintos com a fornalha policultural de uma
das maiores cidades do mundo, cuja principal característica
é a diversidade.
Uma sonoridade que vai do modalismo do aboio nordestino ao modalismo
(!) da música eletrônica, usando a música popular
brasileira para construir pontes entre erudito e popular, rural e
urbano, ancestral e contemporâneo. Mas aí já é
outra história. E outra espera.