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CHICO CÉSAR LANÇA SEU PRIMEIRO LIVRO DE POESIAS - “CANTÁTEIS – CANTOS ELEGÍACOS DE AMOZADE”, PELA EDITORA GARAMOND
Um cordel pós-moderno que revela, tanto para o público que acompanha o trabalho de Chico César como para aqueles que se interessam por poesia, um poeta original, erudito e afinado com a sensibilidade contemporânea. Um poeta capaz de dialogar, com vigor e originalidade, com os cantos do sertão e da Divina Comédia, com o pop, com o modernismo latino-americano, com a poesia brasileira e, é claro, com a música popular.
Cantáteis, nas palavras do autor, é “um canto de amor e amizade a uma mulher”, e foi escrito impulsionado “por esse sentimento híbrido (amozade) e que muitas vezes julgamos formado por partes que se negam: o amor e a amizade”. A musa, mais além da mulher real que existiu na vida do poeta, é “uma representação de um tipo de mulher de São Paulo. Urbana, letrada, combativa, independente, freqüentadora dos círculos intelectuais alternativos, das rodas artísticas”. Se São Paulo, como disse outro poeta, é como o mundo todo, Cantáteis é uma experiência de linguagem que ultrapassa as fronteiras dos idiomas, das culturas, do nacional, do popular, do erudito, dos gêneros, das identidades, da língua.
Ao mesclar elementos da sua própria experiência, da vida cotidiana, com referências eruditas, da filosofia à política, e da cultura popular, do cinema, do pop, da comunicação de massas e do brega, entre outras, Cantáteis dialoga com uma rica vertente da literatura e da poesia contemporâneas. Mais além, na própria estrutura, por sua proposta cênica, musical (encontra-se em parte musicado) e midiática, o poema se insere no registro multimídia, característica marcante da criação poética a partir do século XX.
Chico César nasceu em Catolé do Rocha, na Paraíba, em 1964. Aos 16 anos, foi para João Pessoa, onde se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, enquanto participava do grupo Jaguaribe Carne, que fazia poesia de vanguarda. Aos 21, mudou-se para São Paulo. Trabalhando como jornalista, aperfeiçou-se no violão, multiplicou as composições e formou seu público. Hoje tem uma carreira artística de repercussão internacional.
21 x 21 cm / 112 páginas / 35 xilogravuras / R$26,00
PREFÁCIO
Chico César, hoje, já tem seu lugar na história da música popular brasileira. Suas canções são para tocar no rádio e nas salas de concertos, e são para todos os públicos, da sua paraibana Catolé do Rocha às grandes metrópoles. Poesia cantada, música falada, no trabalho deste artista brasileiro-planetário confluem a herança dos trovadores e menestréis e a modernidade do pop, do reggae, da música eletrônica. Sua MPB não tem exotismo. É “música do mundo”, no sentido de um mundo caracterizado cada vez mais pela translação, pela troca de informação e pela dissolução de fronteiras entre culturas, gêneros e estilos.
A originalidade, a força e a qualidade de sua produção como compositor seriam suficientes para incluir Chico César entre os grandes poetas da MPB, cuja lista é bastante longa e prescinde de exemplos. No entanto, o formato da música popular, o registro fonográfico ou a difusão pelos meios de comunicação impõem limites tanto à forma da composição poética como à sua apreensão pelo público. A sonoridade, a estrutura, a rima, as figuras de estilo, enfim, as condições que indicam aquilo que chamamos de linguagem poética, ou poesia, embora presentes na música popular, não se esgotam nela. Daí este livro.
Cantáteis: cantos elegíacos de amozade foi realizado no contexto de vivências, leituras e contatos de Chico César na São Paulo dos anos 80-90, quando amadureceu seu trabalho musical, ao mesmo tempo em que trabalhava como jornalista, estudava música e participava de atividades culturais, artísticas e intelectuais. Foi neste ambiente de criação e aprendizado que Chico encontrou Tata Fernandes, a musa deste poema que, “mais que pessoa em si”, com o tempo acabou se revelando, segundo o poeta, como “representação de um tipo de mulher de São Paulo”. Por isso estes cantos elegíacos de amozade, celebrando o amor e a amizade, constituem também, nas palavras do autor, “um canto de afeto abismado à cidade de São Paulo”.
Ao mesclar elementos da sua própria experiência, da vida cotidiana, com referências eruditas, da filosofia à política, e da cultura popular, do cinema, do pop, da comunicação de massas e do brega, entre outras, Cantáteis dialoga com uma rica vertente da literatura e da poesia contemporâneas. Mais além, na própria estrutura, por sua proposta cênica, musical (encontra-se em parte musicado) e midiática, o poema se insere no registro multimídia, característica marcante da criação poética a partir do século XX.
Essa afinação com a produção literária e poética da atualidade revela que Chico César é não só um leitor atento, como um estudioso e experimentador das diferentes linguagens. A pesquisa e a experimentação estão presentes no seu trabalho desde o início da carreira: aos dezesseis anos, quando se mudou para João Pessoa, conheceu os irmãos Paulo Ró e Pedro Osmar, que formavam o grupo Jaguaribe Carne, voltado para experimentação estética em diferentes modos de expressão.
A partir desse encontro, Chico continuou dialogando com diversas vertentes da poesia e com obras de poetas como Ezra Pound, João Cabral de Melo Neto, Vicente Huidobro, Souzândrade, Dante Alighieri, entre muitos outros, incluindo a produção dos anos 70-80. Esse diálogo, a convivência com artistas de diferentes estilos, e influências tão diversas como a música aleatória, a poesia concreta, o cinema novo, a poesia pornô e o dodecafonismo estão presentes nesta obra. Cantáteis reflete de certa forma a experiência de trânsito do autor entre as leituras, os círculos artísticos e culturais da metrópole e a herança trazida da Paraíba.
São Paulo, como disse outro poeta da MPB, é como o mundo todo. Daí que Cantáteis é uma experiência de linguagem que ultrapassa as fronteiras das culturas, do popular, do erudito, dos gêneros, das identidades, da própria língua. É uma obra que tem que ver com a condição mundializada, trânsfuga e transcultural que caracteriza nossas realidades. Na voz de Chico César poeta, como na do Chico cantor e compositor, pulsam como matéria significante nossos cotidianos e nossas realidades. Esta característica satisfaz um critério importantíssimo para se avaliar uma obra literária ou poética nos dias atuais: tocar a carne viva do contemporâneo.
Por tudo isto e pela sua própria qualidade, segundo os parâmetros da produção no qual está inserida, estamos muito honrados em trazer esta obra a público. Não podemos deixar de mencionar o trabalho realizado neste livro pelo artista plástico João Sánchez. Utilizando a técnica tradicional da gravura para criar o projeto gráfico e as ilustrações, Sánchez reinventou visualmente o universo poético da obra. O resultado é uma obra bela, ao mesmo tempo popular e arrojada, que vale a pena ser lida, refletida, comentada, debatida e referida tanto por aqueles que se interessam por poesia quanto por todos aqueles que gostam de Chico César, de música popular brasileira e, é claro, de bons livros.
Os Editores
Cantáteis pelo Autor
Escrevi "Cantáteis - Cantos Elegíacos de Amozade" em 1993. Não num só fôlego, como seria mais heróico de contar. Mas em muitos e seguidos mergulhos no texto, no assunto. Escrevi em um bloco de notas, à mão, em São Paulo. Andando pelas ruas. De ônibus, a pé, de metrô, de táxi. Eu, estrangeiro no lugar e no momento, escrevi esse texto aos solavancos vagando pela cidade, mais pela zona oeste. À vezes vagando pelo meu quarto num minúsculo apartamento que dividia com um colega nordestino na avenida Heitor Penteado.
Escrevi "Cantáteis" como um canto de amor e amizade a uma mulher, uma musa paulistana. Escrevi movido por esse sentimento híbrido (amozade) e que, equivocadamente, muitas vezes julgamos formado por partes que se negam: o amor e a amizade. Ela chama-se Tata Fernandes, está nomeada no poema. O tempo e o afastamento do ambiente passional mostra que a musa, mais que pessoa em si, é uma representação de um tipo de mulher de São Paulo. Urbana, letrada, combativa, independente, freqüentadora dos círculos intelectuais alternativos, das rodas artísticas. Seja isso resultado de reivindicação e conquista pessoal ou berço. Uma espécie de herdeira de Pagu ou Anita Malfati ou Lina Bo Bardi ou Tarsila do Amaral. Uma contemporânea de Suzana Salles, Lala Dehzenleim e Soninha Francine.
Esse distanciamento também me faz ler "Cantáteis", e talvez seja essa a leitura mais fecunda hoje, como um canto de afeto abismado à cidade de São Paulo. Suas surpresas, sua teia, o fascínio inevitável que exerce sem compaixão por quem aqui chega. Sua eroticidade e seu tanatos. Um canto de amor a São Paulo mulher, hermafrodita, grávida de si mesma e das pessoas que recebe. Elas também, a cada segundo, mais grávidas do que eram e de um devir contínuo em que a cidade as coloca. Nos coloca.
Escrevi "Cantáteis" estimulado pela existência e consistência de poemas longos como "Os Cantos" de Erza Pound, "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto, "Altazor" de Vicente Huidobro. Ou ainda "O Guesa", de Souzândrade e "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. Sei que o fato de esses poemas existirem e pesarem decididamente na balança da literatura universal ou nacional deveria me silenciar em definitivo. Mas deu-se o contrário. Cometi "Cantáteis". Atribuo hoje à falta de juízo que acomete os apaixonados. Era como eu me encontrava. E me perdia. E me encontro. Por isso publico.
Dez anos depois do texto escrito, estou colocando melodia com o intuito de ouvi-lo e vê-lo transformado em cantata. A mim, a musicalidade do poema sugere o contraponto criado pelo encontro da cultura embrenhada nos brasis distantes e distintos com a fornalha policultural de uma das maiores cidades do mundo, cuja principal característica é a diversidade.
Uma sonoridade que vai do modalismo do aboio nordestino ao modalismo (!) da música eletrônica, usando a música popular brasileira para construir pontes entre erudito e popular, rural e urbano, ancestral e contemporâneo. Mas aí já é outra história. E outra espera.
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