SOBRE A PRODUÇÃO
Meu nome é Robert Neville…
Will Smith, estrela de filmes como Eu, Robô,
Independence Day e Homens de Preto, está
habituado à ficção científica e tem grande afinidade com o
romance atemporal de Richard Matheson, Eu Sou a Lenda.
“Nele há tantos gêneros: terror, ficção científica, e esse
personagem maravilhoso”, diz o ator. E continua: “A
psicologia de ser o último homem sobre a face da Terra
sempre me intrigou. As distâncias física, emocional e
espiritual que Robert Neville precisa percorrer apenas para
sobreviver oferecem uma bela oportunidade para contar uma
história universal sobre a natureza humana”.
Francis Lawrence, diretor do novo thriller de ficção
científica e ação, com base no conto de Matheson,
acrescenta: “A idéia de um homem sobreviver isolado em um
ambiente urbano moderno era fascinante para mim, uma coisa
que eu quis explorar no filme. Eu Sou a Lenda
é a perfeita história de um homem contra o mundo, razão pela
qual continua a cativar a imaginação das pessoas mais de
meio século depois de ter sido escrito”.
Complexo e provocante, o romance de Matheson, de 1954,
amplamente reconhecido como pioneiro do gênero terror-ficção
científica contemporâneo, influenciou gerações, inspirou
incontáveis seguidores e gerou duas adaptações
cinematográficas anteriores: Mortos Que Matam, de
1964, com Vincent Price, e A Última Esperança da Terra,
em 1971, com Charlton Heston.
O roteirista e produtor Akiva Goldsman, ganhador do Oscar®
com o roteiro de Uma Mente Brilhante e fã declarado
do autor do livro, fala do prazer que foi a oportunidade de
reinventar Eu Sou a Lenda para a tela do cinema.
“Richard Matheson é um deus para nós, fãs da ficção
científica. Existe uma tradição, na ficção científica séria,
de buscar as raízes profundas do personagem para explorar
temas fortes – a idéia de usar a ficção científica como
alegoria. O filme deriva mesmo dessa ética”, comenta.
Goldsman trabalhou a partir da adaptação inicial do romance
original de Matheson, feita por Mark Protosevich e que foi
um dos roteiros mais cobiçados dos últimos tempos. “Este
projeto era minha paixão há uma década, e foi animador vê-lo
finalmente concretizado, ainda mais com talentos desse nível
dos dois lados da câmera”, relata Protosevich.
Eu Sou a Lenda conta uma história quase
totalmente centrada em um homem que vive uma existência
solitária. Os realizadores sabiam que o papel exigiria muito
de quem o representasse, e precisaria ser um ator de alto
calibre. Assim, quando ouviram falar que Will Smith estava
interessado no papel, o principal elemento do projeto se
encaixou com perfeição. Smith, com o produtor James Lassiter,
seu sócio na Overbrook Entertainment, cuidavam da elaboração
do projeto ano após ano. Ele encarou o papel de Robert
Neville – um personagem que ocupa a tela praticamente
sozinho na maior parte do filme – como um desafio e, ao
mesmo tempo, uma oportunidade.
“Como escritor, acredito muito na capacidade da palavra
escrita para descrever e criar um personagem. Mas, em última
análise, igualmente importante é a capacidade de transmitir
o que não é dito. Will é excelente ator; teve um desempenho
extraordinário, no qual muitos pensamentos e emoções são
passados pela expressão e pelo comportamento”, ressalta
Goldsman.
Smith precisou recorrer a outras formas de expressão para
retratar a extensão emocional da jornada de Neville. “O
processo foi diferente para mim, pois era puro
comportamento. É um exercício incrível não poder falar e,
mesmo assim, ter que se comunicar”, diz. “Ter que imaginar
como se comunicar sem palavras – para mim, é o núcleo
central do que significa representar. Quando você fica
calado por um momento, começa a descobrir muita coisa sobre
seu personagem e sobre si mesmo. É algo fascinante a ser
explorado, tanto do ponto de vista artístico qaunto
psicológico”.
Ao fazer seu primeiro filme com Smith, Francis Lawrence
encontrou uma base sólida para o desenrolar do lado
emocional da história e o núcleo da aventura. “O mais
fantástico em Will é ele ser caloroso e carismático”,
assinala o diretor. “Ele interpreta o papel com tantas
facetas que te prende em todos os momentos. Você simpatiza
com ele, sente medo por ele, ri e chora com ele. E todas
estas nuances aparecem imediatamente na atuação dele. O que
há de mais importante neste papel é o fato de transmitir
tudo por que está passando, tanto fisica quanto
emocionalmente, muitas vezes sem qualquer diálogo”.
Talvez o maior elogio para Smith tenha vindo de quem criou o
personagem Robert Neville. “Creio que Will Smith é a pessoa
perfeita para retratar Robert Neville”, declara o autor
Richard Matheson. “Acho que vi todos os filmes que ele fez,
e sempre é convincente em qualquer papel. Nesta história,
seu personagem é fundamental e, portanto, ele é
fundamental”.
Sou um sobrevivente na cidade de Nova York… Posso
oferecer comida.
Posso oferecer abrigo. Posso oferecer segurança.
No cerne de Eu Sou a Lenda está a luta de um
homem para sobreviver diante de dificuldades aparentemente
instransponíveis: sozinho e cercado pelos Infectados – seres
monstruosos que matam sem razão. A situação fica ainda pior
por ele saber que provocou tudo aquilo. A origem da epidemia
que exterminou a civilização e deixou Neville isolado em
perigo constante surgiu do que, no começo, parecia um avanço
da medicina moderna: um vírus sintético desenvolvido para
combater uma das doenças mais fatais da história, o câncer.
Porém, o sucesso inicial do retrovírus logo atingiu uma
repercussão inimaginável.
Neville, virologista militar que trabalhava em Manhattan,
chefiava o projeto governamental para encontrar uma vacina
que combatesse a epidemia. Mas, apesar de seus esforços, o
vírus espalhou-se no ar, e a cidade, em seguida, teve suas
saídas fechadas, sendo que apenas os não-infectados foram
autorizados a deixá-la. No pânico resultante dessa medida,
Neville assistiu às mortes trágicas de sua mulher Zoë (Salli
Richardson) e da filha Marley, representada por Willow
Smith, de sete anos, que estréia como atriz ao lado de seu
pai na vida real.
Os Infectados que não sucumbiram ao vírus tiveram talvez um
destino pior: seu metabolismo devastado transformou-os em
criaturas que vagam na escuridão dos vastos subterrâneos da
cidade, emergindo das sombras, movidos por uma fome primal,
sem igual.
No rescaldo da catástrofe, Neville também é arrastado, porém
pela necessidade de encontrar a cura para tanta aflição.
Imune ao vírus, por algum motivo, ele sabe que tem duas
armas à disposição: seu conhecimento científico e o próprio
sangue. “Neville sabe que esses seres estão infectados com
um vírus que é uma mutação daquele criado em laboratório”,
explica Smith. “Agora, ele se encontra na posição de ser o
único sobrevivente depois de ser aquele que, na sua cabeça,
não conseguiu salvar a humanidade”, completa.
A experiência de Neville como cientista militar define
também a maneira que escolhe para viver na cidade
abandonada. Sua abordagem é altamente organizada, desde o
exaustivo condicionamento físico até o estabelecimento de um
alarme diário para marcar o momento exato do pôr-do-sol.
“Neville é um homem muito disciplinado. É o que o mantém tão
lúcido quanto possível em uma situação como essa. Suas
opções são extremas, mas se aquela rotina começar a falhar,
é bem possível que ele caia também”, comenta Lawrence.
Tendo a companhia apenas de seu cão Sam, Neville luta para
se manter um passo à frente dos Infectados. Durante o dia,
ele e Sam subsistem vasculhando o que encontram e que possa
servir para o abastecimento, trabalhando no laboratório e
veiculando mensagens diárias no rádio, na esperança de
encontrar outros sobreviventes. À noite, fecham-se atrás de
barricadas, em uma casa de pedras reforçada, monitorando os
Infectados que saem pelas ruas da cidade para caçar e
pilhar, farejando qualquer presa.
Enquanto Neville marca o tempo com diversas atividades e
obrigações, também sente certa liberdade. Podendo dirigir
pelas ruas com seu carro Shelby, jogar golfe em cima de um
avião de caça, enfeitar sua entulhada casa de pedra com
incontáveis tesouros, ou catalogar a comida, o combustível e
os medicamentos que existem na cidade em mapas intrincados,
Neville reina soberano sobre os muitos recursos da cidade.
No surrealismo dos locais mais representativos de Nova York,
que um dia foram centros de comércio, arte e entretenimento,
agora se tornaram o playground, o território de caça
e o jardim particulares de Neville.
“Se você for a última pessoa em Nova York pode encontrar
diversão, ainda que solitária”, diz Lawrence. “Vemos esses
elementos que parecem tão importantes para o mundo em que
vivemos, mas após a epidemia, o mundo que conhecemos se
esvai; coisas nas quais gastamos tanto tempo, energia e
bilhões de dólares para construir, ali estão, se decompondo.
São absolutamente inúteis”.
“Neville tem acesso a praticamente qualquer coisa. Há um
estoque de medicamentos; ele sabe onde está a comida em
conserva, onde é o depósito de combustível. Usa a cidade
inteira como se fosse sua casa. E nada se compara a ter um
clube de golfe em cima de um avião”, diz Smith.
Mas nem tudo é diversão. Vagar por ruas abandonadas,
pendurar-se de cabeça para baixo a seis metros de altura,
manobrar um Ford Mustang em alta velocidade, subir em
veículos enferrujados e lutar contra dublês vestidos para
trabalhar no cinema serve para se ver os Infectados como
apenas uma amostra do que Smith conseguiu colocar nas
palpitantes cenas de ação do filme.
Para coreografar tais seqüências, os realizadores chamaram o
experiente coordenador de dublês Vic Armstrong e sua equipe.
A carreira de Armstrong, que já soma 40 anos, inclui, mais
recentemente, filmes de ação como Missão Impossível 3,
A Guerra dos Mundos e 007 ― Um Novo Dia
Para Morrer.
Sabendo que Smith fica à vontade para injetar vigor físico
em suas atuações – seja moldando as características de um
personagem ou participando de cenas de ação importantes –,
os realizadores acataram as opiniões do ator sobre o
trabalho dos dublês. Meses antes da filmagem, Smith iniciou
um programa de nutrição e condicionamento físico que lhe
proporcionaram uma forma física seca e equilibrada.
Trabalhando há longo tempo com o preparador físico Darrell
Foster, que anos antes o transformara para o papel de “Ali”,
e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar®, Smith perdeu nove
quilos com uma dieta tão rigorosa quanto a de Neville. “Nós
o submetemos a provas terríveis: treinamento em altitude
para privação de oxigênio, calor, frio, umidade, baixa
ingestão de calorias e muitas outras situações adversas.
Isso o ajudou a elaborar aspectos mentais do personagem, ao
mesmo tempo em que os aspectos físicos”, descreve Foster.
Em contraposição, o treinamento com o consultor militar e de
armas Sam Glen para lidar com o rifle de Neville,
especialmente modificado, foi mais fácil para o ator, que já
usara armas em filmes anteriores.
Se alguém estiver ouvindo, por favor, você não está
sozinho.
Smith passa a maior parte do tempo na tela, ao lado do
companheiro constante de Neville, um cão de nome Sam,
representado no filme, principalmente, por um pastor alemão
de três anos de idade chamado Abbey. O chefe do adestramento
do animal, Steve Berens, cuja participação em fimes inclui
Click e O Máskara, entendeu que era alta a
expectativa, no sentido de passar diversas emoções ao seu
encargo. A confiança na capacidade inata de Abbey
combinou-se com um treinamento específico, que deu forma à
abordagem do adestrador para obter um desempenho impactante
de seu ator canino.
“Tudo reside na maneira como se prepara o animal”, explica
Berens. “Você os treina, um dia após o outro, de forma que,
quando eles forem para o set fazer determinada tomada,
entendam aquela situação e se comprometam com ela; eles são
parte do jogo. Nós sabemos que isso é trabalho, mas a idéia
é torná-lo divertido. Se você faz tudo corretamente, com
amor e uma visão positiva, eles vão gostar. Trata-se de
criar um clima de camaradagem com seu cão, e depois passá-lo
para o ator. E Will estava ótimo com Abbey. Eles tinham
mesmo uma ligação”.
Tudo muda na existência de Neville quando seu boletim diário
é finalmente ouvido por outros sobreviventes: uma mulher,
Anna, representada por Alice Braga, e uma criança, Ethan,
vivida por Charlie Tahan. Os dois aparecem inesperadamente,
logo depois de Neville cair em uma armadilha preparada pelos
Infectados. “Creio que no momento em que ouviu a mensagem de
Neville, Anna passou a acreditar que havia esperança, que
havia gente no mundo lá fora”, conta a atriz brasileira
Alice Braga. “Aquele homem estava vivo, e Anna toma a
decisão de salvá-lo, mesmo com os Infectados por perto. A
crença no desconhecido é o que dá início a sua jornada de
esperança no filme. Eles precisam estar em contato para
serem mais fortes juntos”.
Os realizadores convidaram Braga por seu desempenho no filme
indicado para o Oscar® Cidade de Deus. “Ficamos muito
impressionados com a atuação dela em Cidade de Deus.
Alice tem uma beleza natural e uma compaixão inata, que é
evidente. Tem um brilho quase palpável; passa uma sensação
de bem-estar, o que é importante, pois Anna representa a
esperança no filme. Ela traz para Neville um motivo pelo
qual lutar, e eu acho que Anna tem essas qualidades de
maneira muito autêntica no seu caráter”, elogia Goldsman.
Durante vários meses, Neville buscou desesperadamente
encontrar seres humanos sobreviventes, mas no momento em que
encontra os dois primeiros que ele vê em vários anos, o
conflito entre a necessidade de contato humano e o temor
dele torna-se claro demais. “No começo, não tem certeza de
que eles estão ali de fato”, revela Smith. “Na noite
anterior, ele tivera uma terrível alucinação, por isso a
incerteza quanto ao que vê. No íntimo, é o seu maior desejo,
mas no exato momento em que ele está livre para fazer esse
contato, há uma gigantesca rejeição. A dicotomia é um estado
psicológico esplêndido para ser explorado por um ator”.
Alice Braga obteve recursos consideráveis para o papel de
Anna ao pesquisar sobre os sobreviventes do Katrina e do
Holocausto. “Como as pessoas vão em frente e continuam
vivendo depois de uma coisa dessas?”, indaga. “Quanto mais
eu leio, mais entendo que se trata de ter esperança. Minha
personagem acredita e ainda tem esperança dentro de si,
mesmo depois de tudo o que viu. Aprendi muito sobre a vida
com essa pesquisa para Anna”, acrescenta.
Neville é cativado de imediato pela fé profunda de Anna,
mesmo quando enfrentam a amarga rejeição de um poder maior.
“Anna sempre luta para ir em frente”, ressalta Braga. “Sua
vontade de continuar viva e a esperança de uma coisa a mais
a norteiam, principalmente em relação a Ethan, o menino.
Quando ela o encontra, apenas de olhar para a casa dele,
percebe que ele só quer sobreviver, então decide confiar
nele e acreditar que é uma pessoa com quem pode conviver
nesse louco mundo”.
Aos oito anos, Charlie Tahan recebeu o desafio de ser
escalado para o papel de Ethan, jovem sobrevivente que viaja
com Anna. “Ethan é calado, pois sua verdadeira família se
foi, e ele viu muita coisa ruim”, conta Tahan. “As ruas
estão vazias; ninguém em volta, a não ser aquelas criaturas.
No começo, ele não confia muito em Neville. Não sabe ao
certo se ele é mau, ou um dos Infectados. Neville sabe que
Ethan não confia nele, e procura provocar o riso. Mesmo
quando não estávamos no set, Will me fazia rir muito”,
completa o jovem ator, que achou o trabalho com Smith e
Braga “a maior experiência da minha vida”.
Encontrar Anna e Ethan, e ouvir seu incrível relato de
sobrevivência dão a Neville uma ponta de esperança. “É o
clássico duelo entre a fé e a ciência. Anna vem de um
ambiente notadamente judaico-cristão, mas a idéia de
espiritualidade é universal. Todos os que perdem entes
queridos se questionam a respeito e passam por diversos
estágios de falta de fé, medo e raiva de Deus, todos esses
sentimentos. E, tendo em vista as perdas por que Neville
passou, e as circunstâncias de sua vida, ele tem toda razão
de perguntar que deus é esse que permite tanto sofrimento”,
sugere Smith.
Estarei no Porto de South Street todos os dias, ao
meio-dia,
quando o sol estiver mais alto no céu...
O catalisador das circunstâncias na vida de Neville é um
vírus artificial, nascido de um processo revolucionário de
cura do câncer, que passou por uma mutação e se tornou um
microorganismo infeccioso impossível de se deter. Isto fez
com que os realizadores saíssem em uma expedição de pesquisa
no ambiente científico que cerca o estudo complexo dos vírus
e da virologia. Sua pesquisa começou com grupos de estudos
dirigidos por professores de primeira linha e culminou com
uma visita aos Centros de Controle de Epidemias, os CDC. Os
CDC asseguraram a Smith, Lawrence e os produtores a rara
oportunidade de conhecer os cientistas que trabalham nos
laboratórios de Biossegurança Nível 3, que contêm algumas
das substâncias contagiosas mais letais e virulentas do
mundo. Foi lá que eles começaram a entender que a
possibilidade de um retrovírus se espalhar sem controle não
é mais apenas alimento das histórias de ficção científica,
mas algo perfeitamente plausível.
“Existe a conscientização de que alguns vírus são uma
possibilidade, no alto da ‘cadeia alimentar’. É humilhante e
apavorante ver como o impacto de um vírus mutante pode ser
durável e profundo”, pondera Goldsman.
Os realizadores tiveram acesso aos maiores virologistas do
país, desde os microbiologistas que trabalham nos
laboratórios com alto nível de risco biológico até os
“caçadores de vírus”, que se aventuram por pontos críticos
em todo o mundo à procura de respostas para a próxima
epidemia potencialmente letal. “Foi fascinante,” assinala
Lawrence. “Pudemos saber em primeira mão o que pensa um
virologista e como ele vê o mundo dos vírus”.
Desde a adesão de Neville aos protocolos de segurança, até
as plantas dos laboratórios espelhando o que existe nos
verdadeiros CDC, os realizadores puderam reunir um rico
conjunto de informações para o filme. Smith,
particularmente, apreciou a oportunidade de aplicar tanta
pesquisa prática na construção de seu personagem. “Gosto de
fazer pesquisa. É difícil interpretar um personagem como
Neville, em termos emocionais, quando não se entende a
ciência que motiva suas ações”, observa o ator.
Os especialistas dos CDC forneceram ainda inestimáveis
pontos de vista sobre os componentes e a ética da evacuação
em massa e das quarentenas. Além disso, a prefeitura de Nova
York, o governo do estado e os órgãos do governo federal
cederam seus conhecimentos aos realizadores para orquestrar
algumas das seqüências mais dramáticas e explosivas,
incluindo aquelas do caos nas ruas, bem como as cenas em que
Neville fica completamente sozinho na cidade outrora
fervilhante.
O cenário da cidade de Nova York de 2012 é uma pálida sombra
da metrópole que conhecemos hoje. Os realizadores quiseram
evitar os conceitos batidos da ficção científica da
iluminação urbana com lâmpadas queimadas e, em vez disso,
criaram uma paisagem abandonada – prédios em quarentena,
lojas saqueadas, avisos de risco biológico e um
engarrafamento de carros vazios, todos tomados por um
emaranhado de mato e vida selvagem que renascia. Francis
Lawrence concebeu a deserta aridez da Manhattan que virou
literalmente uma selva urbana, retomada pela natureza.
A desenhista de produção Naomi Shohan, que trabalhou
anteriormente com Lawrence em Constantine, ajudou a
formar o conceito desse paradisíaco recanto da cidade. “O
resultado visual da epidemia, no início, é uma cidade
entulhada do lixo das ações de resposta de emergência,
militares e médicas, e o caos na população desorientada”,
descreve Shohan. “O aspecto não difere muito do da
devastação da guerra. Depois, a passagem do tempo nos
permitiu transformar a paisagem e dar um toque de poesia,
que fornecia um contraponto para a situação desesperada de
Neville. Às vezes, parecia uma cidade transformada pela
implosão da infra-estrutura e pela natureza contida até
então”.
Em conjunto com o departamento de arte, Shohan fez extensa
pesquisa para aproximar o resultado final dos diversos
cenários que a cidade teria exibido, incluindo o corte
súbito de água e energia, e o crescimento da vegetação e do
número de animais e insetos. “Rupturas nos canos de água
abririam buracos nas ruas, tragando partes dos prédios.
Incêndios decorrentes da eletricidade e do gás tomariam
outras partes, e a natureza indomável teria reclamado seu
lugar de volta. De repente, em vez de ruas cheias de lixo
médico e militar, os grandes desfiladeiros da cidade de Nova
York começariam a se parecer com algumas visões românticas
do Velho Oeste, tiradas das pinturas do século XIX. Chegamos
a um tipo de atemporalidade; a dureza e aridez da cidade
grande, abismal por natureza, tornaram-se uma paisagem
sensual”, diz ela.
Em conformidade com essa visão, Lawrence comenta: “Eu queria
uma abordagem naturalista para este filme. Queria filmar
aqui, nas ruas de Nova York, à luz do dia e em lugares
reais. Isso dá informação para os atores e para nossas
opções de tomadas”.
O diretor convidou o diretor de fotografia e vencedor do
Oscar® Andrew Lesnie (trilogia O Senhor dos Anéis)
para recriar a simplicidade da emoção que imaginou para
Nevillle e seu mundo. “Tentamos de fato centrar o foco da
câmera para captar os sentimentos de Neville, fossem eles de
solidão, de alegria ou sombrios. Andrew ajudou muito,
fazendo da câmera um veículo para o valor emocional de cada
cena”, destaca Lawrence.
Ao mesmo tempo em que fazia uma jornada interior, a câmera
precisava registrar ação de alto calibre na vida ameaçada de
Neville, o que, em alguns casos, seria aumentado com efeitos
visuais. Filmando em horários pouco convencionais, nos
finais de semana, para fugir das multidões que são a marca
registrada da cidade, a unidade de ação, teve, mesmo assim,
madrugadores que interromperam suas caminhadas para tirar
fotos do espetáculo com seus celulares. Uma das seqüências
mais notáveis foi a da corrida de Neville no Mustang Shelby
envenenado, desviando-se de veículos abandonados e
obstáculos que entulhavam as ruas da cidade, que foi rodada
durante um mês nos finais de semana, em locações por toda a
cidade.
Foi um imenso desafio logístico fazer a maior parte de um
filme no qual o personagem principal vive uma existência
solitária em uma das cidades mais densamente povoadas do
mundo. Mesmo assim, os realizadores insistiram na fidelidade
às locações. “Você não pode falsificar Nova York”, garante o
produtor executivo Michael Tadross, que mora na cidade. “A
cidade tem um pano de fundo exclusivo e tivemos a sorte de
filmar em lugares onde nunca antes alguém tinha filmado”.
Em ligação com órgãos do governo de todos os níveis,
incluindo a Secretaria de Comunicação do prefeito Michael
Bloomberg, Tadross e o gerente de locação Paul Kramer
tiveram papel destacado para garantir presença em alguns dos
locais mais movimentados e significativos. Foi permitido à
equipe de produção acesso inédito a alguns cartões postais
da cidade. Além disso, houve permissão – por breves períodos
e fora do horário comercial – para fechar quarteirões
inteiros, a fim de se obter o efeito de uma região sem
qualquer pessoa, a não ser Robert Neville. Até mesmo a
tomada externa mais curta exigia que a área passasse por uma
transformação, que incluía enchê-la de carros abandonados,
fachadas de prédios com rachaduras, plantas artificiais,
mato crescendo na pavimentação esburacada com uma camada de
musgo completando a pátina de decadência.
“Nada foi pequeno neste filme. Cada vez que saíamos à rua,
era coisa grande por conta do cenário pós-apocalíptico.
Nunca podíamos utilizar o ambiente tal como ele era. O mundo
que criamos era totalmente diferente da cidade que nos
acostumamos a ver. Era um desafio, em cada lugar a que
íamos”, lembra Kramer.
A lista das locações em Nova York para Eu Sou a Lenda
abrangeu bairros ecléticos, em três dos cinco distritos da
cidade, englobando o Terminal Central, o Edifício Flatiron,
os parques de Madison Square e Washington Square, as ruas da
moda de TriBeca, o distrito Meatpacking, Columbus Circle e
Chinatown.
Filmar no decorrer de vários finais de semana em meio ao
comércio de luxo da Quinta Avenida comprovou ser uma das
locações mais difíceis. A suspensão completa do tráfego de
veículos e pedestres desde a Madison e a Sexta Avenida, que
margeiam a Quinta Avenida, até as ruas 57 e 49, envolveu
centenas de assistentes de produção, guardas de trânsito e
policiais locais.
Para Smith, isolar locais tão movimentados foi inspirador.
“Você se dá conta de nunca ter visto na vida uma foto de
Nova York deserta. É uma imagem poderosa. Quando esvaziamos
aquela parte da Quinta Avenida, ficou claro que estávamos
fazendo algo sem precedentes”, enfatiza.
Lawrence concorda, e ressalta: “A Quinta Avenida foi uma
experiência e tanto. O lado bom foi que todos ficaram em
silêncio enquanto rodávamos. Acompanhando no monitor de
vídeo, fiquei preso ao diálogo e à visão de Will caminhando
numa Quinta Avenida vazia. Então, assim que gritei ‘Corta’,
elevou-se o rumor dos aplausos de milhares de pessoas que se
juntaram do outro lado da rua, em vários quarteirões.
Ninguém tirou fotos nem fez qualquer ruído durante as
tomadas. Passamos o dia inteiro ali, e foi inacreditável o
quanto o povo da cidade foi respeitoso naquele dia. Somos
muito gratos”.
A consideração dos muitos observadores foi recompensada
quando, em um dia de frio intenso e fortes ventos, Smith
brindou-os, e à equipe, cantando de improviso “Summertime”.
“…E não se enganem, meus amigos americanos, estamos em
guerra pela nossa sobrevivência. E assim, com grande
tristeza, mas com determinação ainda maior, decidi assinar
esta noite uma norma, colocando a cidade de Nova York em
quarentena. Que Deus esteja conosco…”
Mensagem radiofônica do presidente dos Estados Unidos
Em contraste gritante com o vazio da Manhattan pós-epidemia,
milhares de atores e extras encheram as ruas para evocar o
pânico e o caos da quarentena inicial e a evacuação da
cidade. Os três meses de preparação foram gastos tirando
licenças em dezenas de órgãos públicos, e manipulando um
emaranhado de instruções para coordenar a logística que
envolveu diversas companhias de aviação para um set de
filmagem cercado de água.
A maioria das cenas se passa em um píer na base da Ponte do
Brooklyn. Porém, apesar de esta locação privilegiada
oferecer a Lawrence um deslumbrante fundo com a silhueta de
Nova York, não havia um píer real. Com a colaboração de uma
dezena de órgãos municipais, estaduais e federais, desde a
Aviação do Departamento de Polícia de Nova York até o Corpo
de Engenheiros do Exército e o Departamento de Preservação
Ambiental, a produção construiu um deque flutuante, ancorado
no fundo do rio com uma passagem para a costa, criando assim
um píer de fato.
O departamento de iluminação da produção começou um
processo, que durou uma semana, de passar cabos e cordas na
Ponte do Brooklyn no deque flutuante e nas ruas em volta com
dezenas de lâmpadas para iluminar o trecho normalmente
escuro das ruas abaixo da auto-estrada FDR.
Vários dias antes da filmagem, começou a chegar equipamento
militar obtido pelo consultor militar e de armas Sam Glen,
que mostrou ser indispensável para a produção. Trabalhar em
estreito contato com as Forças Armadas dos Estados Unidos
foi fundamental para se rodar esta seqüência.
Filmada em seis noites, próximo ao Porto de South Street, a
intrincada seqüência de ação englobou dezenas de ítens do
equipamento militar de terra e ar, incluindo helicópteros
Black Hawk da Guarda Nacional de Nova York e Dolphin H-65 da
Guarda Costeira, e veículos de assalto Stryker blindados (a
mais recente aquisição do arsenal dos Estados Unidos).
Barcos de pequeno e grande porte, fornecidos em conjunto
pelo Exército e a Guarda Costeira dos Estados Unidos, todos
tomaram parte na cena e garantiram a segurança de milhares
de atores, figurantes, realizadores e equipe presentes no
litoral. Mais de 150 militares foram postos à disposição –
tanto diante das câmeras quanto atrás delas – para fazer
funcionar o equipamento usado na seqüência do filme.
“Todos concordaram que foi importante usar tropas de verdade
nas cenas, tanto por seu conhecimento quanto pela
autenticidade”, diz Glen. “A famosa 69a Divisão
de Infantaria de Nova York, ligada ao Ministério da Defesa,
teve a gentileza de nos permitir usar suas tropas em
horários de folga como figurantes. Eles são treinados na
prevenção de tumulto urbano, o que acrescentou uma dose de
realismo àquilo tudo”.
Enquanto Lawrence esteve comprometido com o lado prático do
filme, na medida do possível, a informática de CGI (Common
Gateway Interface) foi necessária para aumentar tanto a
visão extensiva da cidade abandonada, quanto dos Intectados
que a tomaram. O supervisor de efeitos visuais vencedor do
Oscar® Janek Sirrs (trilogia Matrix) ficou
encarregado de criar os Infectados, que são conchas
carnívoras com origem no que um dia foram seres humanos.
Sirrs e sua equipe deram vida a essas criaturas por meio da
criação digital de personagens e da tecnologia de captura do
movimento. Atores dublês usaram roupas especiais equipadas
com marcadores que permitiam que seus movimentos fossem
duplicados no computador. CGI e maquiagem de efeitos
especiais foram incorporados para completar o efeito, que
resultou em criaturas totalmente sem pelos, com pele
semitransparente, permitindo a visão da primeira camada de
músculos. Os Infectados são chefiados pelo Macho Alfa,
retratado pelo ator Dash Mihok.
A Kingsbridge Armory, antigo arsenal da Guarda Nacional do
Bronx, forneceu o cenário cavernoso para diversos efeitos
visuais, porém mais notadamente para uma Times Square
irreconhecível sob um mar de capim. A produção também ocupou
o interior de 30 mil metros quadrados do Marcy Avenue Armory,
no setor Williamsburg do Brooklyn. A instalação abrigou os
quatro cenários que representavam o refúgio fortificado de
Neville, uma casa de pedra de quatro andares cuja fachada
foi filmada no parque de Washington Square.
O bunker de Neville, onde ele, Anna e Ethan se
escondiam atrás de barricadas para se proteger dos
Infectados, foi concebido e desenhado por Naomi Shohan. O
desenho foi posteriormente enriquecido pelos efeitos
especiais do supervisor Conrad Brink, que acrescentou canos
hidráulicos e canhões de ar pressurizados para que a
construção sacudisse literalmente até os alicerces quando
houvesse explosões em volta.
Apesar de toda a ação febril e dos efeitos visuais
inovadores mostrados na produção de Eu Sou a Lenda,
Goldsman ainda assim considera como o aspecto mais forte e
chamativo do filme a jornada interior do personagem
principal. “É realmente uma história de perda, sobre o que
acontece quando se perde aqueles que amamos. Partimos do
pressuposto de que, simplesmente, quando você passa por uma
perda catastrófica, o mundo fica em silêncio. E para
expressar essa dramaticidade, criamos um mundo em silêncio.
Também é uma história de renascimento, e do que é preciso
fazer para se curar. Pode ser ficção científica, mas é uma
história com a qual qualquer um de nós pode se identificar”,
diz ele.
Will Smith reforça a natureza de dualidade do filme, tanto
um thriller épico de ficção científica como a jornada
emocional de um ser humano. “Tem várias camadas, e você vai
desvendando uma a uma”, diz. “É interessante quando se chega
na quarta ou quinta camadas, que são um pouco mais oblíquas,
e as pessoas podem tirar suas próprias conclusões. Este
filme é uma experiência que, esperamos, seja catártica para
o público. É claro que queremos que seja estimulante, mas
que também faça pensar e levante questões. Esta é a linha
que quisemos seguir neste filme”, conclui.
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