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Caderno Cultura

 

Eu sou a lenda - com Will Smith

SOBRE A PRODUÇÃO

Meu nome é Robert Neville…

 

Will Smith, estrela de filmes como Eu, Robô, Independence Day e Homens de Preto, está habituado à ficção científica e tem grande afinidade com o romance atemporal de Richard Matheson, Eu Sou a Lenda. “Nele há tantos gêneros: terror, ficção científica, e esse personagem maravilhoso”, diz o ator. E continua: “A psicologia de ser o último homem sobre a face da Terra sempre me intrigou. As distâncias física, emocional e espiritual que Robert Neville precisa percorrer apenas para sobreviver oferecem uma bela oportunidade para contar uma história universal sobre a natureza humana”.

Francis Lawrence, diretor do novo thriller de ficção científica e ação, com base no conto de Matheson, acrescenta: “A idéia de um homem sobreviver isolado em um ambiente urbano moderno era fascinante para mim, uma coisa que eu quis explorar no filme. Eu Sou a Lenda é a perfeita história de um homem contra o mundo, razão pela qual continua a cativar a imaginação das pessoas mais de meio século depois de ter sido escrito”.

Complexo e provocante, o romance de Matheson, de 1954, amplamente reconhecido como pioneiro do gênero terror-ficção científica contemporâneo, influenciou gerações, inspirou incontáveis seguidores e gerou duas adaptações cinematográficas anteriores: Mortos Que Matam, de 1964, com Vincent Price, e A Última Esperança da Terra, em 1971, com Charlton Heston.

O roteirista e produtor Akiva Goldsman, ganhador do Oscar® com o roteiro de Uma Mente Brilhante e fã declarado do autor do livro, fala do prazer que foi a oportunidade de reinventar Eu Sou a Lenda para a tela do cinema. “Richard Matheson é um deus para nós, fãs da ficção científica. Existe uma tradição, na ficção científica séria, de buscar as raízes profundas do personagem para explorar temas fortes – a idéia de usar a ficção científica como alegoria. O filme deriva mesmo dessa ética”, comenta.

Goldsman trabalhou a partir da adaptação inicial do romance original de Matheson, feita por Mark Protosevich e que foi um dos roteiros mais cobiçados dos últimos tempos. “Este projeto era minha paixão há uma década, e foi animador vê-lo finalmente concretizado, ainda mais com talentos desse nível dos dois lados da câmera”, relata Protosevich.

Eu Sou a Lenda conta uma história quase totalmente centrada em um homem que vive uma existência solitária. Os realizadores sabiam que o papel exigiria muito de quem o representasse, e precisaria ser um ator de alto calibre. Assim, quando ouviram falar que Will Smith estava interessado no papel, o principal elemento do projeto se encaixou com perfeição. Smith, com o produtor James Lassiter, seu sócio na Overbrook Entertainment, cuidavam da elaboração do projeto ano após ano. Ele encarou o papel de Robert Neville – um personagem que ocupa a tela praticamente sozinho na maior parte do filme – como um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade.

 “Como escritor, acredito muito na capacidade da palavra escrita para descrever e criar um personagem. Mas, em última análise, igualmente importante é a capacidade de transmitir o que não é dito. Will é excelente ator; teve um desempenho extraordinário, no qual muitos pensamentos e emoções são passados pela expressão e pelo comportamento”, ressalta Goldsman.

Smith precisou recorrer a outras formas de expressão para retratar a extensão emocional da jornada de Neville. “O processo foi diferente para mim, pois era puro comportamento. É um exercício incrível não poder falar e, mesmo assim, ter que se comunicar”, diz. “Ter que imaginar como se comunicar sem palavras – para mim, é o núcleo central do que significa representar. Quando você fica calado por um momento, começa a descobrir muita coisa sobre seu personagem e sobre si mesmo. É algo fascinante a ser explorado, tanto do ponto de vista artístico qaunto psicológico”.

Ao fazer seu primeiro filme com Smith, Francis Lawrence encontrou uma base sólida para o desenrolar do lado emocional da história e o núcleo da aventura. “O mais fantástico em Will é ele ser caloroso e carismático”, assinala o diretor. “Ele interpreta o papel com tantas facetas que te prende em todos os momentos. Você simpatiza com ele, sente medo por ele, ri e chora com ele. E todas estas nuances aparecem imediatamente na atuação dele. O que há de mais importante neste papel é o fato de transmitir tudo por que está passando, tanto fisica quanto emocionalmente, muitas vezes sem qualquer diálogo”.

Talvez o maior elogio para Smith tenha vindo de quem criou o personagem Robert Neville. “Creio que Will Smith é a pessoa perfeita para retratar Robert Neville”, declara o autor Richard Matheson. “Acho que vi todos os filmes que ele fez, e sempre é convincente em qualquer papel. Nesta história, seu personagem é fundamental e, portanto, ele é fundamental”.

 

Sou um sobrevivente na cidade de Nova York… Posso oferecer comida.

Posso oferecer abrigo. Posso oferecer segurança.

 

No cerne de Eu Sou a Lenda está a luta de um homem para sobreviver diante de dificuldades aparentemente instransponíveis: sozinho e cercado pelos Infectados – seres monstruosos que matam sem razão. A situação fica ainda pior por ele saber que provocou tudo aquilo. A origem da epidemia que exterminou a civilização e deixou Neville isolado em perigo constante surgiu do que, no começo, parecia um avanço da medicina moderna: um vírus sintético desenvolvido para combater uma das doenças mais fatais da história, o câncer. Porém, o sucesso inicial do retrovírus logo atingiu uma repercussão inimaginável.

Neville, virologista militar que trabalhava em Manhattan, chefiava o projeto governamental para encontrar uma vacina que combatesse a epidemia. Mas, apesar de seus esforços, o vírus espalhou-se no ar, e a cidade, em seguida, teve suas saídas fechadas, sendo que apenas os não-infectados foram autorizados a deixá-la. No pânico resultante dessa medida, Neville assistiu às mortes trágicas de sua mulher Zoë (Salli Richardson) e da filha Marley, representada por Willow Smith, de sete anos, que estréia como atriz ao lado de seu pai na vida real.

Os Infectados que não sucumbiram ao vírus tiveram talvez um destino pior: seu metabolismo devastado transformou-os em criaturas que vagam na escuridão dos vastos subterrâneos da cidade, emergindo das sombras, movidos por uma fome primal, sem igual.

No rescaldo da catástrofe, Neville também é arrastado, porém pela necessidade de encontrar a cura para tanta aflição. Imune ao vírus, por algum motivo, ele sabe que tem duas armas à disposição: seu conhecimento científico e o próprio sangue. “Neville sabe que esses seres estão infectados com um vírus que é uma mutação daquele criado em laboratório”, explica Smith. “Agora, ele se encontra na posição de ser o único sobrevivente depois de ser aquele que, na sua cabeça, não conseguiu salvar a humanidade”, completa.

A experiência de Neville como cientista militar define também a maneira que escolhe para viver na cidade abandonada. Sua abordagem é altamente organizada, desde o exaustivo condicionamento físico até o estabelecimento de um alarme diário para marcar o momento exato do pôr-do-sol. “Neville é um homem muito disciplinado. É o que o mantém tão lúcido quanto possível em uma situação como essa. Suas opções são extremas, mas se aquela rotina começar a falhar, é bem possível que ele caia também”, comenta Lawrence.

Tendo a companhia apenas de seu cão Sam, Neville luta para se manter um passo à frente dos Infectados. Durante o dia, ele e Sam subsistem vasculhando o que encontram e que possa servir para o abastecimento, trabalhando no laboratório e veiculando mensagens diárias no rádio, na esperança de encontrar outros sobreviventes. À noite, fecham-se atrás de barricadas, em uma casa de pedras reforçada, monitorando os Infectados que saem pelas ruas da cidade para caçar e pilhar, farejando qualquer presa.

Enquanto Neville marca o tempo com diversas atividades e obrigações, também sente certa liberdade. Podendo dirigir pelas ruas com seu carro Shelby, jogar golfe em cima de um avião de caça, enfeitar sua entulhada casa de pedra com incontáveis tesouros, ou catalogar a comida, o combustível e os medicamentos que existem na cidade em mapas intrincados, Neville reina soberano sobre os muitos recursos da cidade.

No surrealismo dos locais mais representativos de Nova York, que um dia foram centros de comércio, arte e entretenimento, agora se tornaram o playground, o território de caça e o jardim particulares de Neville.

“Se você for a última pessoa em Nova York pode encontrar diversão, ainda que solitária”, diz Lawrence. “Vemos esses elementos que parecem tão importantes para o mundo em que vivemos, mas após a epidemia, o mundo que conhecemos se esvai; coisas nas quais gastamos tanto tempo, energia e bilhões de dólares para construir, ali estão, se decompondo. São absolutamente inúteis”.

“Neville tem acesso a praticamente qualquer coisa. Há um estoque de medicamentos; ele sabe onde está a comida em conserva, onde é o depósito de combustível. Usa a cidade inteira como se fosse sua casa. E nada se compara a ter um clube de golfe em cima de um avião”, diz Smith.

Mas nem tudo é diversão. Vagar por ruas abandonadas, pendurar-se de cabeça para baixo a seis metros de altura, manobrar um Ford Mustang em alta velocidade, subir em veículos enferrujados e lutar contra dublês vestidos para trabalhar no cinema serve para se ver os Infectados como apenas uma amostra do que Smith conseguiu colocar nas palpitantes cenas de ação do filme.

Para coreografar tais seqüências, os realizadores chamaram o experiente coordenador de dublês Vic Armstrong e sua equipe. A carreira de Armstrong, que já soma 40 anos, inclui, mais recentemente, filmes de ação como Missão Impossível 3, A Guerra dos Mundos e 007Um Novo Dia Para Morrer.

Sabendo que Smith fica à vontade para injetar vigor físico em suas atuações – seja moldando as características de um personagem ou participando de cenas de ação importantes –, os realizadores acataram as opiniões do ator sobre o trabalho dos dublês. Meses antes da filmagem, Smith iniciou um programa de nutrição e condicionamento físico que lhe proporcionaram uma forma física seca e equilibrada. Trabalhando há longo tempo com o preparador físico Darrell Foster, que anos antes o transformara para o papel de “Ali”, e que lhe rendeu uma indicação ao Oscar®, Smith perdeu nove quilos com uma dieta tão rigorosa quanto a de Neville. “Nós o submetemos a provas terríveis: treinamento em altitude para privação de oxigênio, calor, frio, umidade, baixa ingestão de calorias e muitas outras situações adversas. Isso o ajudou a elaborar aspectos mentais do personagem, ao mesmo tempo em que os aspectos físicos”, descreve Foster.

Em contraposição, o treinamento com o consultor militar e de armas Sam Glen para lidar com o rifle de Neville, especialmente modificado, foi mais fácil para o ator, que já usara armas em filmes anteriores.

 

Se alguém estiver ouvindo, por favor, você não está sozinho.

 

Smith passa a maior parte do tempo na tela, ao lado do companheiro constante de Neville, um cão de nome Sam, representado no filme, principalmente, por um pastor alemão de três anos de idade chamado Abbey. O chefe do adestramento do animal, Steve Berens, cuja participação em fimes inclui Click e O Máskara, entendeu que era alta a expectativa, no sentido de passar diversas emoções ao seu encargo. A confiança na capacidade inata de Abbey combinou-se com um treinamento específico, que deu forma à abordagem do adestrador para obter um desempenho impactante de seu ator canino.

“Tudo reside na maneira como se prepara o animal”, explica Berens. “Você os treina, um dia após o outro, de forma que, quando eles forem para o set fazer determinada tomada, entendam aquela situação e se comprometam com ela; eles são parte do jogo. Nós sabemos que isso é trabalho, mas a idéia é torná-lo divertido. Se você faz tudo corretamente, com amor e uma visão positiva, eles vão gostar. Trata-se de criar um clima de camaradagem com seu cão, e depois passá-lo para o ator. E Will estava ótimo com Abbey. Eles tinham mesmo uma ligação”.

Tudo muda na existência de Neville quando seu boletim diário é finalmente ouvido por outros sobreviventes: uma mulher, Anna, representada por Alice Braga, e uma criança, Ethan, vivida por Charlie Tahan. Os dois aparecem inesperadamente, logo depois de Neville cair em uma armadilha preparada pelos Infectados. “Creio que no momento em que ouviu a mensagem de Neville, Anna passou a acreditar que havia esperança, que havia gente no mundo lá fora”, conta a atriz brasileira Alice Braga. “Aquele homem estava vivo, e Anna toma a decisão de salvá-lo, mesmo com os Infectados por perto. A crença no desconhecido é o que dá início a sua jornada de esperança no filme. Eles precisam estar em contato para serem mais fortes juntos”.

Os realizadores convidaram Braga por seu desempenho no filme indicado para o Oscar® Cidade de Deus. “Ficamos muito impressionados com a atuação dela em Cidade de Deus. Alice tem uma beleza natural e uma compaixão inata, que é evidente. Tem um brilho quase palpável; passa uma sensação de bem-estar, o que é importante, pois Anna representa a esperança no filme. Ela traz para Neville um motivo pelo qual lutar, e eu acho que Anna tem essas qualidades de maneira muito autêntica no seu caráter”, elogia Goldsman.

Durante vários meses, Neville buscou desesperadamente encontrar seres humanos sobreviventes, mas no momento em que encontra os dois primeiros que ele vê em vários anos, o conflito entre a necessidade de contato humano e o temor dele torna-se claro demais. “No começo, não tem certeza de que eles estão ali de fato”, revela Smith. “Na noite anterior, ele tivera uma terrível alucinação, por isso a incerteza quanto ao que vê. No íntimo, é o seu maior desejo, mas no exato momento em que ele está livre para fazer esse contato, há uma gigantesca rejeição. A dicotomia é um estado psicológico esplêndido para ser explorado por um ator”.

Alice Braga obteve recursos consideráveis para o papel de Anna ao pesquisar sobre os sobreviventes do Katrina e do Holocausto. “Como as pessoas vão em frente e continuam vivendo depois de uma coisa dessas?”, indaga. “Quanto mais eu leio, mais entendo que se trata de ter esperança. Minha personagem acredita e ainda tem esperança dentro de si, mesmo depois de tudo o que viu. Aprendi muito sobre a vida com essa pesquisa para Anna”, acrescenta.

Neville é cativado de imediato pela fé profunda de Anna, mesmo quando enfrentam a amarga rejeição de um poder maior. “Anna sempre luta para ir em frente”, ressalta Braga. “Sua vontade de continuar viva e a esperança de uma coisa a mais a norteiam, principalmente em relação a Ethan, o menino. Quando ela o encontra, apenas de olhar para a casa dele, percebe que ele só quer sobreviver, então decide confiar nele e acreditar que é uma pessoa com quem pode conviver nesse louco mundo”.

Aos oito anos, Charlie Tahan recebeu o desafio de ser escalado para o papel de Ethan, jovem sobrevivente que viaja com Anna. “Ethan é calado, pois sua verdadeira família se foi, e ele viu muita coisa ruim”, conta Tahan. “As ruas estão vazias; ninguém em volta, a não ser aquelas criaturas. No começo, ele não confia muito em Neville. Não sabe ao certo se ele é mau, ou um dos Infectados. Neville sabe que Ethan não confia nele, e procura provocar o riso. Mesmo quando não estávamos no set, Will me fazia rir muito”, completa o jovem ator, que achou o trabalho com Smith e Braga “a maior experiência da minha vida”.

Encontrar Anna e Ethan, e ouvir seu incrível relato de sobrevivência dão a Neville uma ponta de esperança. “É o clássico duelo entre a fé e a ciência. Anna vem de um ambiente notadamente judaico-cristão, mas a idéia de espiritualidade é universal. Todos os que perdem entes queridos se questionam a respeito e passam por diversos estágios de falta de fé, medo e raiva de Deus, todos esses sentimentos. E, tendo em vista as perdas por que Neville passou, e as circunstâncias de sua vida, ele tem toda razão de perguntar que deus é esse que permite tanto sofrimento”, sugere Smith.

 

Estarei no Porto de South Street todos os dias, ao meio-dia,

quando o sol estiver mais alto no céu...

 

O catalisador das circunstâncias na vida de Neville é um vírus artificial, nascido de um processo revolucionário de cura do câncer, que passou por uma mutação e se tornou um microorganismo infeccioso impossível de se deter. Isto fez com que os realizadores saíssem em uma expedição de pesquisa no ambiente científico que cerca o estudo complexo dos vírus e da virologia. Sua pesquisa começou com grupos de estudos dirigidos por professores de primeira linha e culminou com uma visita aos Centros de Controle de Epidemias, os CDC. Os CDC asseguraram a Smith, Lawrence e os produtores a rara oportunidade de conhecer os cientistas que trabalham nos laboratórios de Biossegurança Nível 3, que contêm algumas das substâncias contagiosas mais letais e virulentas do mundo. Foi lá que eles começaram a entender que a possibilidade de um retrovírus se espalhar sem controle não é mais apenas alimento das histórias de ficção científica, mas algo perfeitamente plausível.

 “Existe a conscientização de que alguns vírus são uma possibilidade, no alto da ‘cadeia alimentar’. É humilhante e apavorante ver como o impacto de um vírus mutante pode ser durável e profundo”, pondera Goldsman.

Os realizadores tiveram acesso aos maiores virologistas do país, desde os microbiologistas que trabalham nos laboratórios com alto nível de risco biológico até os “caçadores de vírus”, que se aventuram por pontos críticos em todo o mundo à procura de respostas para a próxima epidemia potencialmente letal. “Foi fascinante,” assinala Lawrence. “Pudemos saber em primeira mão o que pensa um virologista e como ele vê o mundo dos vírus”.

Desde a adesão de Neville aos protocolos de segurança, até as plantas dos laboratórios espelhando o que existe nos verdadeiros CDC, os realizadores puderam reunir um rico conjunto de informações para o filme. Smith, particularmente, apreciou a oportunidade de aplicar tanta pesquisa prática na construção de seu personagem. “Gosto de fazer pesquisa. É difícil interpretar um personagem como Neville, em termos emocionais, quando não se entende a ciência que motiva suas ações”, observa o ator.

Os especialistas dos CDC forneceram ainda inestimáveis pontos de vista sobre os componentes e a ética da evacuação em massa e das quarentenas. Além disso, a prefeitura de Nova York, o governo do estado e os órgãos do governo federal cederam seus conhecimentos aos realizadores para orquestrar algumas das seqüências mais dramáticas e explosivas, incluindo aquelas do caos nas ruas, bem como as cenas em que Neville fica completamente sozinho na cidade outrora fervilhante.

O cenário da cidade de Nova York de 2012 é uma pálida sombra da metrópole que conhecemos hoje. Os realizadores quiseram evitar os conceitos batidos da ficção científica da iluminação urbana com lâmpadas queimadas e, em vez disso, criaram uma paisagem abandonada – prédios em quarentena, lojas saqueadas, avisos de risco biológico e um engarrafamento de carros vazios, todos tomados por um emaranhado de mato e vida selvagem que renascia. Francis Lawrence concebeu a deserta aridez da Manhattan que virou literalmente uma selva urbana, retomada pela natureza.

A desenhista de produção Naomi Shohan, que trabalhou anteriormente com Lawrence em Constantine, ajudou a formar o conceito desse paradisíaco recanto da cidade. “O resultado visual da epidemia, no início, é uma cidade entulhada do lixo das ações de resposta de emergência, militares e médicas, e o caos na população desorientada”, descreve Shohan. “O aspecto não difere muito do da devastação da guerra. Depois, a passagem do tempo nos permitiu transformar a paisagem e dar um toque de poesia, que fornecia um contraponto para a situação desesperada de Neville. Às vezes, parecia uma cidade transformada pela implosão da infra-estrutura e pela natureza contida até então”.

Em conjunto com o departamento de arte, Shohan fez extensa pesquisa para aproximar o resultado final dos diversos cenários que a cidade teria exibido, incluindo o corte súbito de água e energia, e o crescimento da vegetação e do número de animais e insetos. “Rupturas nos canos de água abririam buracos nas ruas, tragando partes dos prédios. Incêndios decorrentes da eletricidade e do gás tomariam outras partes, e a natureza indomável teria reclamado seu lugar de volta. De repente, em vez de ruas cheias de lixo médico e militar, os grandes desfiladeiros da cidade de Nova York começariam a se parecer com algumas visões românticas do Velho Oeste, tiradas das pinturas do século XIX. Chegamos a um tipo de atemporalidade; a dureza e aridez da cidade grande, abismal por natureza, tornaram-se uma paisagem sensual”, diz ela.

Em conformidade com essa visão, Lawrence comenta: “Eu queria uma abordagem naturalista para este filme. Queria filmar aqui, nas ruas de Nova York, à luz do dia e em lugares reais. Isso dá informação para os atores e para nossas opções de tomadas”.

O diretor convidou o diretor de fotografia e vencedor do Oscar® Andrew Lesnie (trilogia O Senhor dos Anéis) para recriar a simplicidade da emoção que imaginou para Nevillle e seu mundo. “Tentamos de fato centrar o foco da câmera para captar os sentimentos de Neville, fossem eles de solidão, de alegria ou sombrios. Andrew ajudou muito, fazendo da câmera um veículo para o valor emocional de cada cena”, destaca Lawrence.

Ao mesmo tempo em que fazia uma jornada interior, a câmera precisava registrar ação de alto calibre na vida ameaçada de Neville, o que, em alguns casos, seria aumentado com efeitos visuais. Filmando em horários pouco convencionais, nos finais de semana, para fugir das multidões que são a marca registrada da cidade, a unidade de ação, teve, mesmo assim, madrugadores que interromperam suas caminhadas para tirar fotos do espetáculo com seus celulares. Uma das seqüências mais notáveis foi a da corrida de Neville no Mustang Shelby envenenado, desviando-se de veículos abandonados e obstáculos que entulhavam as ruas da cidade, que foi rodada durante um mês nos finais de semana, em locações por toda a cidade.

Foi um imenso desafio logístico fazer a maior parte de um filme no qual o personagem principal vive uma existência solitária em uma das cidades mais densamente povoadas do mundo. Mesmo assim, os realizadores insistiram na fidelidade às locações. “Você não pode falsificar Nova York”, garante o produtor executivo Michael Tadross, que mora na cidade. “A cidade tem um pano de fundo exclusivo e tivemos a sorte de filmar em lugares onde nunca antes alguém tinha filmado”.

Em ligação com órgãos do governo de todos os níveis, incluindo a Secretaria de Comunicação do prefeito Michael Bloomberg, Tadross e o gerente de locação Paul Kramer tiveram papel destacado para garantir presença em alguns dos locais mais movimentados e significativos. Foi permitido à equipe de produção acesso inédito a alguns cartões postais da cidade. Além disso, houve permissão – por breves períodos e fora do horário comercial – para fechar quarteirões inteiros, a fim de se obter o efeito de uma região sem qualquer pessoa, a não ser Robert Neville. Até mesmo a tomada externa mais curta exigia que a área passasse por uma transformação, que incluía enchê-la de carros abandonados, fachadas de prédios com rachaduras, plantas artificiais, mato crescendo na pavimentação esburacada com uma camada de musgo completando a pátina de decadência.

“Nada foi pequeno neste filme. Cada vez que saíamos à rua, era coisa grande por conta do cenário pós-apocalíptico. Nunca podíamos utilizar o ambiente tal como ele era. O mundo que criamos era totalmente diferente da cidade que nos acostumamos a ver. Era um desafio, em cada lugar a que íamos”, lembra Kramer.

A lista das locações em Nova York para Eu Sou a Lenda abrangeu bairros ecléticos, em três dos cinco distritos da cidade, englobando o Terminal Central, o Edifício Flatiron, os parques de Madison Square e Washington Square, as ruas da moda de TriBeca, o distrito Meatpacking, Columbus Circle e Chinatown.

Filmar no decorrer de vários finais de semana em meio ao comércio de luxo da Quinta Avenida comprovou ser uma das locações mais difíceis. A suspensão completa do tráfego de veículos e pedestres desde a Madison e a Sexta Avenida, que margeiam a Quinta Avenida, até as ruas 57 e 49, envolveu centenas de assistentes de produção, guardas de trânsito e policiais locais.

Para Smith, isolar locais tão movimentados foi inspirador. “Você se dá conta de nunca ter visto na vida uma foto de Nova York deserta. É uma imagem poderosa. Quando esvaziamos aquela parte da Quinta Avenida, ficou claro que estávamos fazendo algo sem precedentes”, enfatiza.

Lawrence concorda, e ressalta: “A Quinta Avenida foi uma experiência e tanto. O lado bom foi que todos ficaram em silêncio enquanto rodávamos. Acompanhando no monitor de vídeo, fiquei preso ao diálogo e à visão de Will caminhando numa Quinta Avenida vazia. Então, assim que gritei ‘Corta’, elevou-se o rumor dos aplausos de milhares de pessoas que se juntaram do outro lado da rua, em vários quarteirões. Ninguém tirou fotos nem fez qualquer ruído durante as tomadas. Passamos o dia inteiro ali, e foi inacreditável o quanto o povo da cidade foi respeitoso naquele dia. Somos muito gratos”.

A consideração dos muitos observadores foi recompensada quando, em um dia de frio intenso e fortes ventos, Smith brindou-os, e à equipe, cantando de improviso “Summertime”.

 

“…E não se enganem, meus amigos americanos, estamos em guerra pela nossa sobrevivência. E assim, com grande tristeza, mas com determinação ainda maior, decidi assinar esta noite uma norma, colocando a cidade de Nova York em quarentena. Que Deus esteja conosco…”

Mensagem radiofônica do presidente dos Estados Unidos

 

Em contraste gritante com o vazio da Manhattan pós-epidemia, milhares de atores e extras encheram as ruas para evocar o pânico e o caos da quarentena inicial e a evacuação da cidade. Os três meses de preparação foram gastos tirando licenças em dezenas de órgãos públicos, e manipulando um emaranhado de instruções para coordenar a logística que envolveu diversas companhias de aviação para um set de filmagem cercado de água.

A maioria das cenas se passa em um píer na base da Ponte do Brooklyn. Porém, apesar de esta locação privilegiada oferecer a Lawrence um deslumbrante fundo com a silhueta de Nova York, não havia um píer real. Com a colaboração de uma dezena de órgãos municipais, estaduais e federais, desde a Aviação do Departamento de Polícia de Nova York até o Corpo de Engenheiros do Exército e o Departamento de Preservação Ambiental, a produção construiu um deque flutuante, ancorado no fundo do rio com uma passagem para a costa, criando assim um píer de fato.

O departamento de iluminação da produção começou um processo, que durou uma semana, de passar cabos e cordas na Ponte do Brooklyn no deque flutuante e nas ruas em volta com dezenas de lâmpadas para iluminar o trecho normalmente escuro das ruas abaixo da auto-estrada FDR.

Vários dias antes da filmagem, começou a chegar equipamento militar obtido pelo consultor militar e de armas Sam Glen, que mostrou ser indispensável para a produção. Trabalhar em estreito contato com as Forças Armadas dos Estados Unidos foi fundamental para se rodar esta seqüência.

Filmada em seis noites, próximo ao Porto de South Street, a intrincada seqüência de ação englobou dezenas de ítens do equipamento militar de terra e ar, incluindo helicópteros Black Hawk da Guarda Nacional de Nova York e Dolphin H-65 da Guarda Costeira, e veículos de assalto Stryker blindados (a mais recente aquisição do arsenal dos Estados Unidos). Barcos de pequeno e grande porte, fornecidos em conjunto pelo Exército e a Guarda Costeira dos Estados Unidos, todos tomaram parte na cena e garantiram a segurança de milhares de atores, figurantes, realizadores e equipe presentes no litoral. Mais de 150 militares foram postos à disposição – tanto diante das câmeras quanto atrás delas – para fazer funcionar o equipamento usado na seqüência do filme.

“Todos concordaram que foi importante usar tropas de verdade nas cenas, tanto por seu conhecimento quanto pela autenticidade”, diz Glen. “A famosa 69a Divisão de Infantaria de Nova York, ligada ao Ministério da Defesa, teve a gentileza de nos permitir usar suas tropas em horários de folga como figurantes. Eles são treinados na prevenção de tumulto urbano, o que acrescentou uma dose de realismo àquilo tudo”.

Enquanto Lawrence esteve comprometido com o lado prático do filme, na medida do possível, a informática de CGI (Common Gateway Interface) foi necessária para aumentar tanto a visão extensiva da cidade abandonada, quanto dos Intectados que a tomaram. O supervisor de efeitos visuais vencedor do Oscar® Janek Sirrs (trilogia Matrix) ficou encarregado de criar os Infectados, que são conchas carnívoras com origem no que um dia foram seres humanos. Sirrs e sua equipe deram vida a essas criaturas por meio da criação digital de personagens e da tecnologia de captura do movimento. Atores dublês usaram roupas especiais equipadas com marcadores que permitiam que seus movimentos fossem duplicados no computador. CGI e maquiagem de efeitos especiais foram incorporados para completar o efeito, que resultou em criaturas totalmente sem pelos, com pele semitransparente, permitindo a visão da primeira camada de músculos. Os Infectados são chefiados pelo Macho Alfa, retratado pelo ator Dash Mihok.

A Kingsbridge Armory, antigo arsenal da Guarda Nacional do Bronx, forneceu o cenário cavernoso para diversos efeitos visuais, porém mais notadamente para uma Times Square irreconhecível sob um mar de capim. A produção também ocupou o interior de 30 mil metros quadrados do Marcy Avenue Armory, no setor Williamsburg do Brooklyn. A instalação abrigou os quatro cenários que representavam o refúgio fortificado de Neville, uma casa de pedra de quatro andares cuja fachada foi filmada no parque de Washington Square.

O bunker de Neville, onde ele, Anna e Ethan se escondiam atrás de barricadas para se proteger dos Infectados, foi concebido e desenhado por Naomi Shohan. O desenho foi posteriormente enriquecido pelos efeitos especiais do supervisor Conrad Brink, que acrescentou canos hidráulicos e canhões de ar pressurizados para que a construção sacudisse literalmente até os alicerces quando houvesse explosões em volta.

Apesar de toda a ação febril e dos efeitos visuais inovadores mostrados na produção de Eu Sou a Lenda, Goldsman ainda assim considera como o aspecto mais forte e chamativo do filme a jornada interior do personagem principal. “É realmente uma história de perda, sobre o que acontece quando se perde aqueles que amamos. Partimos do pressuposto de que, simplesmente, quando você passa por uma perda catastrófica, o mundo fica em silêncio. E para expressar essa dramaticidade, criamos um mundo em silêncio. Também é uma história de renascimento, e do que é preciso fazer para se curar. Pode ser ficção científica, mas é uma história com a qual qualquer um de nós pode se identificar”, diz ele.

Will Smith reforça a natureza de dualidade do filme, tanto um thriller épico de ficção científica como a jornada emocional de um ser humano. “Tem várias camadas, e você vai desvendando uma a uma”, diz. “É interessante quando se chega na quarta ou quinta camadas, que são um pouco mais oblíquas, e as pessoas podem tirar suas próprias conclusões. Este filme é uma experiência que, esperamos, seja catártica para o público. É claro que queremos que seja estimulante, mas que também faça pensar e levante questões. Esta é a linha que quisemos seguir neste filme”, conclui.

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