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Sentimento em festa

Eles chegam devagarzinho, envolvem, invadem descaradamente, tomam conta, se apoderam do momento, desorganizam nossa vida, até conquistar a alma. Mas são os sentimentos que nos apontam caminhos com alegria, certezas mais profundas e intensidade renovada.
O primeiro a chegar é o mais tímido e frágil. Mágico também. Disfarça-se pequenino para entrar por frestas, penetrar pelos poros, surgindo poderoso e ultra-rápido - até mesmo no átimo de intervalo de uma troca de olhares.
Uma vez instalado, nos alimenta da sua força. A noção de que existe nos embala as horas de sono, trabalho, lazer ou tédio. O Amor nos sorri de seu canto, seguro de sua capacidade de melhorar tudo ao redor. Há quem tenha medo dele, de seu nome, até mesmo de reconhecê-lo como tal. Eu não. Talvez por que nas poucas vezes em que o encontrei tenha me tratado como uma rainha.
A Paixão é outra que chega sem avisar. E sem a menor cerimônia ou sutileza. Exuberante e avassaladora, nos presenteia com baús de prazer, derramando baldes de sensações tão contraditórias quanto intensas.
Irmão gêmeo da Paixão, o Ciúme a acompanha como siamês. É seu lado sombrio e nada tem de bonito ou agradável. Contagia qualquer ambiente, pessoa ou sentimento com sugestões nefastas e descabidas. Um monstro voraz que se alimenta de alegrias e luz.
Para que não nos alcance, não basta querer evitá-lo, mas aprender a ouvir somente o que nos sussurra a alma. E a trilhar o labirinto dos sentimentos com os olhos vendados, guiados apenas pelas mãos firmes da confiança. Um exercício dificílimo, mas extremamente útil.
A Ternura é um dos meus sentimentos favoritos. Suave e discreta, alegre e firme, é infalível para aliviar aflições de qualquer espécie. Chega acompanhada de um séquito das mais variadas belezas. É imprevisível e versátil e quando nos alcança, o efeito é imediato e reparador.
Tantos sentimentos e tão ricos, cada um a sua maneira fazem-me lamentar os que os bloqueiam em nome da razão - tão eficiente, asséptica e entediaste.
Prefiro sentir e lidar com cada um deles à medida que se apresentam, me envolvem ou mesmo barram meu caminho. Acostumei-me a contornar seus humores e ceder aos caprichos de um e outro. E, eventualmente também a levar a pior.
Apenas um deles ainda me confunde e paralisa. Espécie de camaleão, mistura à profundidade do Amor, o impulso suicida da Paixão, a firmeza da Ternura e o pessimismo do Ciúme. Esse, definitivamente, ainda não consegui driblar.
Ao Amor ofereço o coração, à Paixão a loucura. À Ternura, meus pensamentos mais delicados e ao Ciúme a indiferença mais solene.
Mas a Saudade, quando me possui rouba-me tudo, deixando-me perplexa e vazia.
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