| Caderno D |
Chico da Ponte
Da Equipe de Colaboradores
O João era conhecido de poucos. Não freqüentava
a coluna do Jaburu, nunca foi a um jantar do Rotary, mas fazia
parte da paisagem da rua Catarina Etsuko perto do cartório
do Cassita.
Ficava à janela de manhã, olhando os passantes,
às vezes arriscava um papo com algum dos seus poucos conhecidos
e poucos sabiam que não tinha uma perna. Quando não
usava a prótese, descansava o que restou do membro inferior
num banquinho com almofada do lado de dentro e passava o tempo
apreciando o movimento da rua.
Passo por ali todos os dias, na minha caminhada para o Correio
e costumava cumprimentá-lo:
Bom dia, seu João!
E lá vinha a resposta pronta:
Bom dia, seu Nelson!
Confundia meu nome com o do meu falecido pai, mas nunca o corrigi,
pois sabia que o cumprimento me era endereçado.
O prédio onde ficava o João emoldurando a janela
sofreu reformas e por um tempo também não vi mais
meu amigo meio desconhecido.
Agora, a semana passada, eis que ressurgiu, só que em prédios
vizinho, com uma janela igual. Até brinquei com ele.
Mudou de janela, João?
Deu-me um sorriso alegre e assim passou o momento. Sábado,
9, ele teve algum problema cardíaco e morreu aos 92 anos.
A janela vai continuar lá, mas sem a graça que só
ele poderia dar e a rua vai perder uma paisagem emoldurada por
um João quase ninguém, mas que me deixou saudades.