| Caderno D |
Frei Lourenço M. Papin
Da Equipe de Colaboradores
Ao findar o velho ano e no começo do novo, recebi diversos
convites de formatura. Valorizo muito os juramentos
dos formados e formandas neles contidos, porque são sempre
sérios e comprometedores, ainda que nem sempre levados
a sério. Num desses convites de um jovem formado numa Faculdade
de Tecnologia, o juramento assim rezava: Consciente da responsabilidade
que me é confiada, prometo, no exercício de tecnólogo,
consagrar o melhor do meu espírito e o máximo de
minhas energias ao desenvolvimento da tecnologia, para promover
o bem-estar e a evolução da sociedade, a preservação
da natureza, o progresso e a grandeza da pátria.
Caro jovem, a tecnologia é maravilhosa, deslumbrante e
fascinante; é uma das mais admiráveis expressões
do saber humano, um dos fatores determinantes do atual estágio
da civilização humana. Preocupado e mesmo angustiado,
eu me pergunto: que será da tecnologia se ela não
tiver uma alma, ou seja, uma mística, uma espiritualidade?
Fazendo-me essa pergunta, veio-me à mente dois filmes que
se tornaram famosos: O homem no planeta dos macacos
e 2001, odisséia no espaço. No primeiro
é a humanidade que se destrói pelo uso indevido
da tecnologia bélica mais refinada. No segundo é
a tecnologia da informática que escapa do controle do homem:
aquele computador, tão sofisticado que se afeiçoara
ao seu operador, se descontrola e deixa à deriva a maravilhosa
espaçonave que dirigia. Na sua linguagem de ficção,
esses dois filmes soam como um alerta para que a tecnologia, em
qualquer de suas modalidades, não corra o risco de tornar-se
desumana em prejuízo do próprio homem.
Para que isso não aconteça, a tecnologia deve ter
uma mística ou espiritualidade. Uma primeira característica
dessa mística é, sem dúvida, um sadio e dinâmico
humanismo que vise, antes de tudo, promover o bem-estar
e a evolução da sociedade e a preservação
da natureza. Bem estar e bem comum são sinônimos.
Bem comum é o conjunto de condições concretas
que permitam a todos atingir níveis de vida compatíveis
com a dignidade humana, sem qualquer discriminação
cultural, religiosa, econômica ou política. Na nossa
atual conjuntura nacional, o bem comum está minado sobretudo
pela marginalização generalizada que é fruto
da injusta distribuição de renda e que cresce na
medida em que as grandes decisões políticas são
tomadas em função de interesses pessoais e de classes
e não em função de todo povo. Segundo a Fundação
Getúlio Vargas (FGV) 50 milhões de brasileiros vivem
em condição sub-humana, em condição
de miséria e fome. É exigência da justiça
social que todo cidadão se empenhe na luta pelo bem comum,
num esforço conjunto para uma urgente superação
dessa espantosa marginalização.
Uma segunda característica dessa mística é
a solidariedade que é mais sublime expressão do
amor humano que, aliás, anda tão banalizado e desvirtuado.
Tecnologia, como qualquer área do saber humano, é
vazia e fria se não estiver revestida da solidariedade
que brota da fraternidade. Somos todos irmãos, filhos do
mesmo Pai! Somente a globalização da solidariedade
e da fraternidade poderá gerar o bem estar, o bem comum
da sociedade e livrar a humanidade dos terríveis pesadelos
sociais que pesam sobre ela.
Obrigado pelo seu convite, jovem tecnólogo. Seja profundamente
humano, fraterno e solidário no exercício de sua
profissão. Lute por um mundo de paz e justiça. Mesmo
entre os percalços e ante as pedras do caminho, acredite,
com confiança e humildade, que esse mundo pode ser melhor
porque você existe!