| Crônica |
Pascoalino S. Azords
Depois
de escrever por mais de setenta anos, Jorge Luis Borges acabou
consagrado pelo grande público graças a um texto
que na verdade não é de sua autoria. O escritor
argentino já estava morto quando um poema a ele atribuído
começou a aparecer gravado em pratos decorativos na feirinha
de antiguidades de San Telmo, na Plaza Dorrego, em Buenos Aires.
Tratava-se de Instantes, um caso raro de versos que
agradam pessoas de todas as classes e todas as idades principalmente
aqueles que já chegaram a essa que, hipocritamente, se
auto proclama a melhor idade. Se pudesse novamente viver
a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria
mais tolo do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria
a sério....
A difusão para todas as línguas do planeta desse
poema creditado a Borges não se deve, exclusivamente, a
uma feirinha dominical. A coisa só pegou mesmo quando caiu
na Internet. Através do computador o texto pode chegar
aos lugares mais distantes, e o que é pior, inteiro, já
que uma mensagem eletrônica não se quebra fácil
como um prato. Além da robustez e da ligeireza, nesse caso
o computador oferecia mais uma vantagem ao livrar milhões
de inocentes da experiência de sentir na pele a famosa hospitalidade
argentina.
Eu era um desses que nunca iam a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas.
Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Quando esses versos
já tinham chegado aos quatro cantos do mundo, só
restou a Maria Kodama apelar à justiça argentina
para que os direitos autorais do texto apócrifo não
fossem depositados na sua conta de viúva.
Maria Kodama, como se sabe, foi desposada por Borges quando este
contava mais de 85 anos de idade. Para ser exato, o casamento
foi celebrado 50 dias antes dele morrer na Suíça,
interrompendo um promissor aprendizado de japonês. A iniciativa
da viúva de procurar a suprema corte argentina talvez tenha
menos de escrúpulos do que de prudência. Caso amanhã
apareça um herdeiro do verdadeiro autor de Instantes,
Maria Kodama não estará lhe devendo nem um mísero
muchas gracias.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço
no início da primavera e continuaria assim até o
fim do outono. Daria mais voltas de carrossel, contemplaria mais
alvoradas e brincaria com mais crianças, se tivesse outra
vez a vida pela frente. Mas já está tarde. Tenho
85 anos e sei que estou morrendo!. Talvez essa seja a derradeira
ironia na biografia de Borges: depois de escrever 15 livros de
poesia, 11 de contos e outros 15 de ensaios e palestras, cair
no gosto popular justamente por uma página que não
é sua. Felizmente ele já não vive para ver
que o Borges preferido pelo grande público é esse,
o falso. Ou quem sabe? lhe agradaria saber que um
Borges, mesmo falso, faz sucesso.
Em 1955, com a queda de Perón, o escritor foi nomeado diretor
da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Ali, cercado por 800 mil
volumes e completamente cego, Borges experimentou a suprema ironia
da sua vida. Quem zombava dele não era ainda um poema de
autoria ou gosto duvidoso nem tampouco uma mulher 40 anos mais
jovem com a qual por 50 dias ele teve o direito de se deitar.
Borges, aos 55 anos de idade, estava sendo gozado por nada menos
que Deus. Ninguém rebaixe a lágrima ou se
afoite/A condenar a prova da mestria/De Deus que, com magnífica
ironia/Deu-me os livros e ao mesmo tempo a noite.
Em 1975, dona Leonor a mãe do escritor morreu
aos 99 anos de idade. Maria Kodama pegou o vácuo e passou
a freqüentar o apartamento da calle Maipu. Epifania Uveda,
a governanta que serviu aos Borges durante quatro décadas,
trazia coca-cola e bolachas para a moça. O escritor confiava
cegamente na governanta e esta lhe garantia que Maria Kodama não
era feia nem bonita.
O resto da história todo mundo sabe: a nissei levou o bruxo
para o altar e a governanta teve que se mudar para uma das favelas
porteñas levando de lembrança um par de sapatos
do seu ex-patrão. O que, aliás, daria um belo conto
de Jorge Luis Borges autêntico ou falsificado.