• Caderno D
Os sofrimentos
não são inúteis

Frei Lourenço M. Papin
Da Equipe de Colaboradores



“Eu completo na minha carne o que falta ao Cristo sofrer pelo seu corpo que é a Igreja”, escrevia São Paulo aos colossenses (Cl 1, 24). Com essas palavras o apóstolo quer nos ensinar que a paixão do Cristo, como obra salvífica e redentora, continua na história através daqueles que sofrem por amor, sem deixar de buscar a superação ou diminuição do sofrimento. A visão cristã do sofrimento exclui qualquer conotação estóica (ser indiferente diante do sofrimento) ou masoquista (buscar o sofrimento ou nele se comprazer).
O Evangelho é um anúncio de salvação — salus — palavra que significa saúde no seu mais abrangente sentido: físico, psíquico, moral e espiritual. “Eu vim para que todos tenham vida e tenham vida em abundância”. (Jo 10, 10). Cristo acolheu todos os tipos de doentes que a Ele acorriam, opondo-se assim ao preconceito então vigente de doença como castigo de Deus.
Os sofrimentos e a morte da cruz não foram prazerosamente procurados pelo Cristo, mas aconteceram como conseqüência de sua pregação e atitudes que questionavam todo o sistema sócio-religioso das elites judáicas. É profundamente humana sua oração no Monte das Oliveiras, assim descrita pelo médico São Lucas: “Pai, se possível afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça a minha mas a tua vontade! Apareceu-lhe um anjo que o confortava. E cheio de angústia, orava com mais insistência ainda, e o seu suor tornou-se semelhante a espessas gotas de sangue que caiam por terra”. (Lc 22, 42-44) Conscientemente assumidos por Ele, num infinito ato de amor oblativo, sofrimentos e cruz trouxeram as sementes da redenção da humanidade.
O Cristianismo é autêntico na medida em que promove e defende a vida e a saúde e corrobora as iniciativas eticamente aceitáveis, inclusive a clonagem terapêutica, para debelar as doenças e os sofrimentos.
Não obstante as estupendas conquistas da medicina, da biogenética, da biotecnologia, etc., ninguém se iluda pensando que a imensa gama dos sofrimentos, como num toque mágico, será totalmente suprimida da face da terra. Eles fazem parte da contingência e limitação humana e, na realística visão bíblica, são decorrência de um transtorno moral no início da humanidade, chamado de pecado original.
O admirável é que, na perspectiva da Fé cristã explicitada por São Paulo, os sofrimentos não são inúteis mas adquirem valor de purificação espiritual e de salvação pessoal, comunitária e social. Unidos ao Cristo nos tornamos, em certo modo, co-redentores da humanidade. Nessa perspectiva da Fé não só descobrimos a mais sublime mística e espiritualidade do sofrimento, como aprendemos a mais respeitar, amar e valorizar os irmãos que sofrem. Eles solidariamente prolongam a Paixão do Cristo que continua remindo e salvando a humanidade.