• Caderno D
A inocente televisão e a vilã internet

TELEVISÃO — Elza Dias Pacheco, pedagoga da USP, afirma que a TV não prejudica as crianças e que a internet é exatamente o grande perigo



Gabriela Goulart
Da Agência Jornal do Brasil

Muito já se falou e outro tanto ainda se especula sobre até que ponto a programação da TV influencia a formação da personalidade das crianças. A sexualização precoce, o estímulo à violência, o culto ao fútil glamour da era das apresentadoras louras — tudo isso sempre foi associado ao poder de fogo da televisão. Aos 73 anos, com mestrado em Psicologia Educacional e doutorado em Psicologia Social, a pedagoga paulista Elza Dias Pacheco segue na contramão, trombando com as teorias usualmente repetidas. “Os pais subestimam as crianças e superestimam a TV”, afirma ela, que é professora do curso de doutorado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Liberal, diferente? “É que sou teórica e prática”, justifica Elza, que também é criadora e coordenadora-geral do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação da USP. Lá, desenvolveu duas grandes pesquisas sobre o assunto: Televisão, criança e imaginário: contribuições para a integração escola-universidade-sociedade (realizada entre 1994 e 1997, com 700 crianças em idades entre 7 e 11 anos, estudantes de nove escolas públicas de São Paulo) e Desenho animado na TV: mitos, símbolos e metáforas (realizada entre 1998 e 2000, com 330 crianças entre 7 e 11 anos, abordadas em cinco parques públicos de diferentes regiões de São Paulo). Na entrevista a seguir, ela desmistifica a TV como bicho-papão, exalta a capacidade crítica da criança, joga nos ombros dos pais a responsabilidade pela formação dos filhos e alerta para a solidão que a internet impõe às crianças.
— Qual o tempo médio que uma criança passa em frente à TV?
— Quarenta horas semanais. Praticamente todo o tempo que ela tem disponível.
— Por que tanto tempo?
— Porque, com a urbanização e o crescimento da violência, a rua foi proibida. A criança se recolheu e os pais têm que subsidiar isso com alguma coisa. Aí entra a televisão.
— A internet vem ameaçando a hegemonia da TV na rotina da criança?
— Vem, sim. E muito mais perigosamente.
— Por quê?
— Porque a internet representa o fim da interatividade, já que a criança fica muito solitária. Basta observar para ver que, quando assiste à TV, a criança não está totalmente sozinha: ela zapeia, tem sempre um brinquedinho ou um pedaço de papel ao lado. Na internet, não. Ela não tira os olhos do computador.
— O que a criança assiste na televisão?
— Desenho, novela e, por último, os shows de variedades e os programas infantis com desenhos e brincadeiras.
— Novela?
— Sim. É que, na novela, há várias referências que reproduzem o cotidiano da criança.
— O desenho animado tem algum tipo de influência negativa na moldagem da personalidade da criança?
— Não. Veja o caso de clássicos como Tom & Jerry. O enredo é curtíssimo e sempre o mesmo. A criança nunca vai se identificar com Tom, que é grande e mau. Ela é o rato, pequenino. É a criança fugindo da maldade, mas, ao mesmo tempo, desafiando-a. Se você puser o pai ou a mãe em cena, eles são como o Tom. Logo, o desenho também é uma típica reprodução do cotidiano.
— O que é bom na programação infantil atual?
— O que a criança assiste mesmo. Nem os shows de variedades me preocupam mais. Antes de fazer uma de nossas pesquisas, achava que as crianças iam querer ser glamourosas como a Xuxa, a Angélica. Mas atestamos que as apresentadoras vêm em último lugar na preferência das crianças que assistem aos shows.
— Xuxa anunciou recentemente que quer se dedicar apenas a programas infantis. A senhora faz alguma restrição a esse tipo de atração?
— Não. O conteúdo é desenho e brincadeiras e não acho que as atitudes das apresentadoras influenciem o comportamento das crianças de 5 a 11 anos, faixa etária que analisamos nas pesquisas. A partir dos 12, quando começa a adolescência, pode ser, porque tem a sandalinha da Xuxa, a roupinha etc. Mas, em muitos casos, a criança não quer se parecer com a Xuxa, ela gostaria de ter a Xuxa como mãe. Também não vejo problema nisso, desde que a mãe, embora trabalhe o dia inteiro, deixe de se preocupar só com a roupa da criança para o colégio no dia seguinte e se preocupe também em perguntar o que ela assistiu na TV.
— Então não se deve proibir a criança de ver TV?
— Não. Os pais têm é que conversar com ela, observar e ter uma leitura crítica sobre determinados assuntos. Não vou proibir a criança de ver o Jornal Nacional, por exemplo. Ela tem que saber que hoje o mundo está violento. Tem que aprender a se defender. Se ponho a criança numa redoma, não a estou ajudando a enfrentar a vida. O que os pais não podem é deixar a criança assistir à TV durante as 40 horas semanais que detectamos em nossas pesquisas.
— É mais preocupante o volume de horas que a criança passa diante da TV do que a programação?
— Claro. Senão, a criança fica obnubilada, só pensando nisso. Ela tem que ter diversidade nas coisas que faz. E os pais têm o dever de desenvolver a personalidade sadia da criança, do ponto de vista emocional, social e não só intelectual.
— Os pais superestimam o poder que a TV tem sobre os filhos?
— A criança não é boba, é crítica. Os pais subestimam a criança e superestimam o poder da mídia, principalmente da TV. Veja o caso dos filmes. Hoje só tem filme violento na TV. Se você observar, vai ver que a criança bem formada, que teve carinho, vai esconder a cara no colo dos pais em algumas cenas.
— Mas nem toda criança é bem formada e a TV entra em todas as casas.
— Aí, isso vai para a escola. Em 1996, o MEC determinou que a linguagem televisiva fosse trabalhada nas escolas. É bom deixar claro que a escola não é a responsável pela formação da criança, mas tem que continuar o trabalho. Hoje, se os pais não sabem o que a criança vê na TV, imagina o professor.
— A senhora se refere à TV como se ela fosse um objeto de brincadeira no cotidiano das crianças. É isso?
— Sei que mídia é coisa séria. Mas não considero que a TV deva ser educativa. Deve ser informativa e de entretenimento. É mais importante a criança saber, via televisão, sobre a situação em Israel e na Palestina e sobre os jogos da Copa do Mundo do que aprender como se deve comer, lavar a mão etc. Essa função começa no lar e continua na escola.
— Os pais devem ver TV com os filhos?
— Dentro das possibilidades, sim. E é possível. O que não quer dizer a família comendo e vendo televisão ao mesmo tempo. Isso quebra o relacionamento. É muito cômodo e fácil os pais dizerem que não têm tempo para acompanhar o que os filhos vêem na TV. Então, tenham um filho em vez de dois.
— E a discussão sobre a influência da TV na sexualização precoce da criança, a partir de cenas de sexo em novelas e filmes?
— Os pais têm que fazer leitura crítica disso. Se a mãe perguntar à criança o que ela viu na TV, vai perceber que ela não conta exatamente como aconteceu. Só que, na maioria das casas, pai e mãe se beijam escondido dos filhos. E se fazem isso, é porque acham que é feio. Quem faz o ato maldoso somos nós, os adultos.
— Mas alguns programas de TV não estimulariam o amadurecimento sexual precoce?
— Pode ser que sim, pode ser que não. O problema não é Carla Perez dançar na boquinha da garrafa. Se os pais não querem, por que compram a roupa igual, o CD e ainda aplaudem quando a criança imita?
— O seu posicionamento isenta a TV, não?
— Sim, muito. Culpo o sistema de exploração em que vivemos. A rua é que é violenta.