| Caderno D |
Muito já se falou e outro
tanto ainda se especula sobre até que ponto a programação
da TV influencia a formação da personalidade das
crianças. A sexualização precoce, o estímulo
à violência, o culto ao fútil glamour da era
das apresentadoras louras tudo isso sempre foi associado
ao poder de fogo da televisão. Aos 73 anos, com mestrado
em Psicologia Educacional e doutorado em Psicologia Social, a
pedagoga paulista Elza Dias Pacheco segue na contramão,
trombando com as teorias usualmente repetidas. Os pais subestimam
as crianças e superestimam a TV, afirma ela, que
é professora do curso de doutorado da Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Liberal, diferente?
É que sou teórica e prática,
justifica Elza, que também é criadora e coordenadora-geral
do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário
e Comunicação da USP. Lá, desenvolveu duas
grandes pesquisas sobre o assunto: Televisão, criança
e imaginário: contribuições para a integração
escola-universidade-sociedade (realizada entre 1994 e 1997, com
700 crianças em idades entre 7 e 11 anos, estudantes de
nove escolas públicas de São Paulo) e Desenho animado
na TV: mitos, símbolos e metáforas (realizada entre
1998 e 2000, com 330 crianças entre 7 e 11 anos, abordadas
em cinco parques públicos de diferentes regiões
de São Paulo). Na entrevista a seguir, ela desmistifica
a TV como bicho-papão, exalta a capacidade crítica
da criança, joga nos ombros dos pais a responsabilidade
pela formação dos filhos e alerta para a solidão
que a internet impõe às crianças.
Qual o tempo médio que uma criança passa
em frente à TV?
Quarenta horas semanais. Praticamente todo o tempo que
ela tem disponível.
Por que tanto tempo?
Porque, com a urbanização e o crescimento
da violência, a rua foi proibida. A criança se recolheu
e os pais têm que subsidiar isso com alguma coisa. Aí
entra a televisão.
A internet vem ameaçando a hegemonia da TV na
rotina da criança?
Vem, sim. E muito mais perigosamente.
Por quê?
Porque a internet representa o fim da interatividade, já
que a criança fica muito solitária. Basta observar
para ver que, quando assiste à TV, a criança não
está totalmente sozinha: ela zapeia, tem sempre um brinquedinho
ou um pedaço de papel ao lado. Na internet, não.
Ela não tira os olhos do computador.
O que a criança assiste na televisão?
Desenho, novela e, por último, os shows de variedades
e os programas infantis com desenhos e brincadeiras.
Novela?
Sim. É que, na novela, há várias referências
que reproduzem o cotidiano da criança.
O desenho animado tem algum tipo de influência
negativa na moldagem da personalidade da criança?
Não. Veja o caso de clássicos como Tom &
Jerry. O enredo é curtíssimo e sempre o mesmo. A
criança nunca vai se identificar com Tom, que é
grande e mau. Ela é o rato, pequenino. É a criança
fugindo da maldade, mas, ao mesmo tempo, desafiando-a. Se você
puser o pai ou a mãe em cena, eles são como o Tom.
Logo, o desenho também é uma típica reprodução
do cotidiano.
O que é bom na programação infantil
atual?
O que a criança assiste mesmo. Nem os shows de variedades
me preocupam mais. Antes de fazer uma de nossas pesquisas, achava
que as crianças iam querer ser glamourosas como a Xuxa,
a Angélica. Mas atestamos que as apresentadoras vêm
em último lugar na preferência das crianças
que assistem aos shows.
Xuxa anunciou recentemente que quer se dedicar apenas
a programas infantis. A senhora faz alguma restrição
a esse tipo de atração?
Não. O conteúdo é desenho e brincadeiras
e não acho que as atitudes das apresentadoras influenciem
o comportamento das crianças de 5 a 11 anos, faixa etária
que analisamos nas pesquisas. A partir dos 12, quando começa
a adolescência, pode ser, porque tem a sandalinha da Xuxa,
a roupinha etc. Mas, em muitos casos, a criança não
quer se parecer com a Xuxa, ela gostaria de ter a Xuxa como mãe.
Também não vejo problema nisso, desde que a mãe,
embora trabalhe o dia inteiro, deixe de se preocupar só
com a roupa da criança para o colégio no dia seguinte
e se preocupe também em perguntar o que ela assistiu na
TV.
Então não se deve proibir a criança
de ver TV?
Não. Os pais têm é que conversar com
ela, observar e ter uma leitura crítica sobre determinados
assuntos. Não vou proibir a criança de ver o Jornal
Nacional, por exemplo. Ela tem que saber que hoje o mundo está
violento. Tem que aprender a se defender. Se ponho a criança
numa redoma, não a estou ajudando a enfrentar a vida. O
que os pais não podem é deixar a criança
assistir à TV durante as 40 horas semanais que detectamos
em nossas pesquisas.
É mais preocupante o volume de horas que a criança
passa diante da TV do que a programação?
Claro. Senão, a criança fica obnubilada,
só pensando nisso. Ela tem que ter diversidade nas coisas
que faz. E os pais têm o dever de desenvolver a personalidade
sadia da criança, do ponto de vista emocional, social e
não só intelectual.
Os pais superestimam o poder que a TV tem sobre os filhos?
A criança não é boba, é crítica.
Os pais subestimam a criança e superestimam o poder da
mídia, principalmente da TV. Veja o caso dos filmes. Hoje
só tem filme violento na TV. Se você observar, vai
ver que a criança bem formada, que teve carinho, vai esconder
a cara no colo dos pais em algumas cenas.
Mas nem toda criança é bem formada e a
TV entra em todas as casas.
Aí, isso vai para a escola. Em 1996, o MEC determinou
que a linguagem televisiva fosse trabalhada nas escolas. É
bom deixar claro que a escola não é a responsável
pela formação da criança, mas tem que continuar
o trabalho. Hoje, se os pais não sabem o que a criança
vê na TV, imagina o professor.
A senhora se refere à TV como se ela fosse um
objeto de brincadeira no cotidiano das crianças. É
isso?
Sei que mídia é coisa séria. Mas não
considero que a TV deva ser educativa. Deve ser informativa e
de entretenimento. É mais importante a criança saber,
via televisão, sobre a situação em Israel
e na Palestina e sobre os jogos da Copa do Mundo do que aprender
como se deve comer, lavar a mão etc. Essa função
começa no lar e continua na escola.
Os pais devem ver TV com os filhos?
Dentro das possibilidades, sim. E é possível.
O que não quer dizer a família comendo e vendo televisão
ao mesmo tempo. Isso quebra o relacionamento. É muito cômodo
e fácil os pais dizerem que não têm tempo
para acompanhar o que os filhos vêem na TV. Então,
tenham um filho em vez de dois.
E a discussão sobre a influência da TV
na sexualização precoce da criança, a partir
de cenas de sexo em novelas e filmes?
Os pais têm que fazer leitura crítica disso.
Se a mãe perguntar à criança o que ela viu
na TV, vai perceber que ela não conta exatamente como aconteceu.
Só que, na maioria das casas, pai e mãe se beijam
escondido dos filhos. E se fazem isso, é porque acham que
é feio. Quem faz o ato maldoso somos nós, os adultos.
Mas alguns programas de TV não estimulariam o
amadurecimento sexual precoce?
Pode ser que sim, pode ser que não. O problema não
é Carla Perez dançar na boquinha da garrafa. Se
os pais não querem, por que compram a roupa igual, o CD
e ainda aplaudem quando a criança imita?
O seu posicionamento isenta a TV, não?
Sim, muito. Culpo o sistema de exploração
em que vivemos. A rua é que é violenta.