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SAÚDE EM XEQUE
Prefeito Adilson Mira (PSDB) ignora índice oficial, que
aponta que no ano passado o coeficiente de mortalidade infantil
foi de 15,51 por 1.000
Uma
mentira repetida várias vezes torna-se uma verdade. Essa
frase do ministro da propaganda e informação de
Adolf Hitler, Joseph Goebbels, talvez seja a inspiração
do prefeito de Santa Cruz, Adilson Donizeti Mira (PSDB), e da
secretária municipal de Saúde, Luizete Alexandre
de Souza Pereira, ao divulgar números não oficiais
da mortalidade infantil no município.
Apesar de o site da Secretaria de Estado da Saúde divulgar
na internet que, no ano passado, Santa Cruz atingiu o coeficiente
de 15,51 mortes de bebês antes de completar 1 ano por 1.000
nascidos vivos, Mira insiste em dizer que a mortalidade caiu de
20 para 8 por 1.000 nascidos vivos. Na verdade, o índice
piorou.
Esse índice já foi utilizado até em palanque
na visita do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Há duas semanas, a TV Modelo caiu na cilada
da Secretaria de Saúde por não checar e veicular
em reportagem a taxa de mortalidade do prefeito e informar que
teria havido redução drástica.
Se for analisado sob o ponto de vista do índice oficial
da Fundação Seade, o número de mortes de
criança em Santa Cruz não tem nada de excepcional.
Mas se utilizar simplesmente o número absoluto a
quantidade de mortes de crianças que ocorre no município
sem incluir óbitos registrados em outras cidades que, no
entanto, são também residentes em Santa Cruz
a impressão é que a mortalidade da cidade tem índice
de país de primeiro mundo.
Em maio deste ano, o DEBATE alertou que o prefeito manipulava
o número de mortalidade numa estratégia de fazer
propaganda do governo utilizando-se de um dado que não
correspondia à verdade.
A mortalidade infantil passou a medir a qualidade de vida das
cidades. Por isso passou a ter interesse político,
principalmente numa administração que leva às
últimas conseqüências o marketing pessoal e
a autopromoção pessoal de seus atos à frente
do governo municipal.
A reportagem voltou a consultar a Fundação Seade
sobre o índice de mortalidade na última semana.
Deise Oushiro, da Divisão de Indicadores Demográficos,
confirmou: no ano passado a mortalidade infantil em Santa Cruz
atingiu 15,51 contra 14,93 no ano de 2000. Se for comparado com
o ano anterior, houve ligeiro acréscimo, embora o número
ainda esteja dentro da média do Estado de São Paulo,
mas nem de longe significa que o índice possa ser comparado
a Cuba e ao Japão.
Mesmo desmentido pelo índice oficial, a Secretária
Municipal de Saúde chegou a encomendar no final
de maio à Diretoria Regional de Saúde (DIR) de Assis
um parecer para sustentar a tese de que a mortalidade
caiu no município. O documento que contou com aprovação
da diretora da DIR-8, Márcia Regina Ale Deperon, foi afixado
na Santa Casa e em várias repartições públicas.
Mas no documento consta, de forma sútil, de que os números
da fundação Seade são mais completos. Mesmo
assim o governo municipal continua divulgando o levantamento baseado
no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)
por entender que os números beneficiam mais a administração
politicamente.
O SIM é gerido pelo Centro Nacional de Epidemiologia em
conjunto com as Secretarias Estaduais de Saúde, estando
em processo de descentralização para as Secretarias
Municipais de Saúde.
Os números do SIM são coletados com base nas declarações
de óbitos dos cartórios, mas a Seade consegue levantar
número de mortes que ocorrem em outros municípios.
Como ela leva em conta o local de residência do óbito,
aparecem nas estatísticas mortes de crianças ocorridas,
por exemplo, em outras unidades.
O uso político dos dados de mortalidade é
uma estratégia de capitalizar junto ao eleitorado, mas
isso pode trazer a perda de credibilidade na estatística.
Não explica A reportagem procurou a diretoria
de Saúde de Assis, Márcia Regina Ale Deperon, para
questionar o motivo de não se adotar oficialmente o dado
disponibilizado na internet pelo governo. Até o fechamento
desta edição, ela não havia dado retorno
aos telefonemas. A reportagem enviou, inclusive, um questionário
com oito perguntas. Uma funcionária informou, no final
de sexta-feira, que não tinha dado tempo para responder.
A prefeitura de Santa Cruz foi contatada. O assessor de imprensa
Luiz Alberto de Mello não estava trabalhando sexta-feira.
Em seu lugar estava a professora Simone Fátima Costa Ribeiro,
que presta serviço como voluntária na assessoria
de imprensa na elaboração de textos para Mira.
A reportagem deixou as perguntas à assessora. Ela retornou
a ligação na sexta-feira às 21h alegando
não ter conseguido localizar a secretária de Saúde,
Luizete de Souza Alexandre Pereira. O jornal perguntava qual o
motivo de se manipular números e ignorar o índice
oficial da Seade, adotado pelo governo do Estado. Há duas
semanas o jornal conversou com técnicos da Secretaria Estadual
da Saúde que confirmaram que o número oficial é
o que disponível na internet. O governo do estado tem tornado
públicos os índices como medida de transparência
de seus atos à população.