• Caderno D
O Santos Dumont que não decola

HISTÓRIA — Enquanto os Estados Unidos festejam os irmãos Wright, filmes brasileiros sobre o verdadeiro pai da aviação não saem do papel



Santos Dumont em imagem que vai ser usada no documentário de Nelson HoineffNorma Couri
Da Agência Jornal do Brasil

É bem possível que os americanos aprontem uma guerra contra o Brasil antes de atacarem o Iraque. Os bombardeios estão preparados para o começo deste ano, recheados de pirotecnias e piruetas no ar. Tudo para festejar, ao custo de U$ 200 milhões, para 14 milhões de visitantes, o centenário da aviação, homenageando os irmãos Wright. Vai ser uma batalha difícil de o Brasil vencer, porque até agora o país não se mexeu sobre o assunto. Os protestos vêm da inglesa Nancy Winters, que tenta emplacar um musical sobre Santos Dumont, baseado no seu livro Man flies ( O homem voa). As reclamações também vêm dos franceses, que apressam seu filme sobre o pai brasileiro da aviação, e dos cubanos, que têm um projeto de desenho animado.
No Brasil, há pelo menos dois cineastas prontos para a revanche, mas sem dinheiro para concluir as produções. O paraibano Marcone Pereira Simões tem um filme a ser rodado no Brasil e na França, com Pedro Cardoso como Santos Dumont. Mas, do orçamento de U$ 4 milhões, tem U$ 1,5 milhão dos franceses e 5% do total bancado pela Aço Villares, que pertencia a um descendente do aviador. O projeto está em pré-filmagem há cinco anos. “Quando os festejos americanos começarem o Brasil acorda”, diz.
Nelson Hoineff optou por um documentário de 52 minutos em high definition, com projeções em grandes formatos, espaços temáticos em aeroportos e vídeos em escolas públicas. A distribuição internacional seria através do Discovery Channel. Mas Hoineff ainda não conseguiu os U$ 300 mil para o projeto.
“Mesmo que não haja testemunho para o tal vôo pioneiro dos irmãos Wright, o marketing americano é tão forte que vai escamotear o resto da história da aviação”, ressalta ele.
Santos Dumont é uma importante figura histórica. Já ganhou várias biografias, da escrita em 1940 por Gondim da Fonseca até Uma alegria selvagem, de Bia Hetzel, há três meses. Na fotobiografia Eu naveguei pelo ar, num texto de 1898 Dumont não deixa dúvidas sobre o pioneirismo: “Os pássaros devem experimentar a mesma sensação, quando distendem suas longas asas e seu vôo fecha o céu... Ninguém, antes de mim, fizera igual”.
Sem cobrir o orçamento de U$ 15 milhões, Tizuka Yamazaki tentou colocar na tela o livro de Márcio de Souza O brasileiro voador. O projeto tem 18 anos. “Adiei, talvez para sempre”, diz ela.
Uma pena. O mineiro deixou os parisienses de queixo caído há 97 anos. A bordo de seu avião de seda japonesa, madeira, bambu e ferro, batizado de 14-Bis, sobrevoou, com 33 anos, 220 metros do Campo de Bagatelle durante 21 segundos. A platéia era de 300 mil pessoas. Figura de dândi, corpo de jóquei que cuidava para não passar dos 50 quilos, Alberto Santos Dumont começou a ostentar aí o título de pai da aviação.
Então os americanos estariam certos em comemorar o centenário da aviação, pois Wilbur e Orville Wright juram ter voado em 1903, três anos antes, na cidadezinha americana de Dayton, Ohio. Só que ninguém viu. Além disso, sua invenção, Flyer, era um planador motorizado, catapultado contra o vento e o Aeroclube da França exigia o testemunho de uma comissão científica e que o aparelho levantasse vôo por seus próprios meios.
Sob glórias e dramas — Os irmãos Wright só passaram a utilizar rodas em 1910, quatro anos depois de o Le Matin, o L’Illustration e o The Illustrated London News terem rasgado manchetes para Santos Dumont. O brasileiro tinha ido para Paris com o pai, Henrique Dumont, que foi buscar tratamento depois de uma queda que o deixou paraplégico. Na Belle Époque francesa, Alberto dedicou o tempo a experiências com balões, triciclos e dirigíveis. Inventou o hangar, o relógio de pulso industrializado por Cartier e o hidroplano no Sena. Quando contornou a Torre Eiffel em 30 minutos e 30 segundos, derrotou o conde Zepelim da Alemanha e distribuiu os 125 mil francos do prêmio entre os mecânicos. Tem uma estátua de três metros no Bois de Boulogne, que foi destruída pelos nazistas em 1939.
Mas nem tudo era glória. Era comum ver Santos Dumont enganchado em galhos, como nos jardins do magnata Edmond de Rothschild. Na ocasião, a vizinha princesa Isabel mandou-lhe, nas alturas mesmo, uma cesta de petiscos e a medalhinha de São Benedito. Seus balões foram várias vezes cortados a golpes de faca. Sempre que entrava no Maxim’s, era aplaudido de pé. O primeiro ultraleve do mundo, seu Demoiselle, de 1907, está exposto até hoje no Museu do Ar e do Espaço da França. Sua sobrinha-neta de 87 anos, Sophia Helena Dodsworth Wanderley, aguarda até hoje no Rio alguém interessado em transformar em CD-rom cinco álbuns com 12.500 notícias da época.
Se isso tudo não bastasse para comover patrocinadores, há ainda o drama da morte de Santos Dumont, que no dia 20 de julho completa 130 anos de nascimento. Tinha 59 anos, mas, com esclerose múltipla, aparentava 80. Deprimido pelo uso bélico de sua invenção na Primeira Guerra e na Revolução Constitucionalista, em 1932, amarrou duas gravatas no chuveiro do banheiro do hotel La Plage, em Guarujá, e se suicidou.
Em torno do fato, o presidente do Grupo Gay da Bahia, Luis Mott, acaba de escrever Era Santos Dumont homossexual?. Para alguns biógrafos, o brinquinho de diamante tornava evidente a homossexualidade do aviador, que teria presenteado o namorado com o projeto da primeira asa-delta. A carta de despedida reforça: “Amei homens e mulheres, sou macho e fêmea, no coração e na mente, não me foi dado o bem ou o mal de saber dividir categorias tão complementares”.
O quarto onde se matou era o 152, que somava 8, número que dava horror ao superticioso aviador, entre outras manias. Na casa de Petrópolis, a escada foi construída para obrigar o visitante a entrar com o pé direito. Ficou a fama de pé-frio depois que o avião da Condor que ia saudar sua volta ao Brasil caiu no mar em 1928, matando jornalistas e políticos. Santos Dumont assistiu à tragédia do transatlântico Cap Ancona. No dia do seu enterro, desabou um temporal e o avião que Louis Blériot batizou de Santos Dumont caiu, matando o piloto. Mas os cineastas Simões e Hoineff não acreditam na falta de sorte do aviador, ou ele não teria sobrevivido a tantas quedas, sendo o único homem a sobrevoar, na época, os céus de Paris. Se seus filmes não decolarem este ano, vai ser por pura falta de sorte mesmo. Porque a personalidade excêntrica e genial de Santos Dumont tem molho suficiente para ganhar as telas do mundo, muito mais do que os irmãos Wright, que, segundo o pesquisador americano Barth Schwartz, “eram extremamente chatos”.