| Frei Betto |
Frei Betto *
Somos o corpo que temos e temos o corpo
que somos. Se somos glutões, ansiosos, melancólicos,
o corpo definha ou estufa, refletindo a alma sombria. Se somos
alegres, comedidos e orantes, ele reluz.
Na festa do Corpo de Cristo, a Igreja celebra essa concretude
interrelacional que é a nossa corporalidade, pela qual
nos inserimos no mundo. E o Verbo se fez carne, proclama o poema
que abre o evangelho de João. E habitou entre nós,
não somente no sentido histórico, de Deus que se
manifestou no jovem de Nazaré, mas também na dimensão
da profundência mística: nosso ser é habitado
pelo divino e se diviniza quanto mais se humaniza.
Deus é a nossa vocação mais radical. Só
Nele o desejo cessa, a ansiedade se anula, a insatisfação
se aplaca. Tateamos, contudo, por labirínticas veredas
que nos distanciam de Deus quando somos muito religiosos e pouco
amorosos; contemplamos o Céu e ignoramos a Terra; adoramos
o Invisível e nos mantemos indiferentes ao semelhante que
sofre.
O Cristianismo é, por excelência, a religião
da economia dos corpos. Em sua natureza semítica não
há lugar para o dualismo platônico, que faz do corpo
cárcere do espírito e, deste, o retrato em negativo
da concupiscência da carne. No batismo, nosso corpo é
lavado no sangue de Cristo. Na eucaristia, ele se nutre do corpo
de Deus. No matrimônio, numa só carne
os corpos se fundem no amor que transubstancia o carinho em liturgia
e a sexualidade em fonte prazerosa de vida. Assim, a fé
cristã sacraliza a corporalidade humana, templo vivo de
Deus, e repudia tudo aquilo que a profana: opressão, exclusão,
humilhação, violência, fome etc.
Seria outro o efeito da política se ela centrasse seu programa,
não em reajustes monetaristas, mas na economia dos corpos.
Então, ela desceria do pedestal das abstrações
numéricas para encarar corpos sem pão e sem terra;
desamparados e prostituídos; desempregados e enfermos.
Corpos destituídos de direitos, de dignidade e de beleza.
O culto ao corpo está em moda. Multiplicam-se as academias
de ginástica e de dança, onde o corpo molda-se tonificado
pelo ilusório elixir da juventude. Favorece-se a saúde
e a estética. Vigorosos e vistosos, os corpos nem sempre
adquirem mais capacidade de relação consigo, com
o outro e com Deus.
Ser capaz de escutar o próprio corpo, tratá-lo com
sabedoria, refinando seu espírito e evitando empanturrá-lo
de comidas e mágoas, bebidas e cóleras. É
preciso impedir que "a louca da casa", a imaginação,
ateie fogo em nossos sentimentos e emoções.
Fazer silêncio dentro de si. Deixar fluir a voz interior.
E tratar o semelhante como sacramento vivo. Abrir-se ao Deus que
nos habita pela graça, pela fé e por essa fascinante
história da evolução do Universo que, desde
o Big Bang, culmina nesse fruto inefável da natureza que
é cada um de nós. Somos o Universo que se contempla
a si mesmo. Em cada pessoa no menino de rua e no sultão
o Cosmo se espelha e se descobre harmônico e belo.
Cada partícula atômica de nossas moléculas
dançarinas, que tecem as células que estruturam
o nosso corpo, foi cozida no calor de uma estrela. Feitos de matéria
estelar, somos todos filhos do Sol, como intuíam os indígenas
astecas e andinos.
O corpo de Gaia também é corpo de Cristo. A Igreja
deveria incluir entre os pecados a devastação de
florestas, a poluição do ar e dos rios, a contaminação
dos mares. Deveria clamar mais alto, não apenas em prol
das espécies animais ameaçadas de extinção,
mas sobretudo em favor da espécie mais degradada pela fome
e pela violência: a humana.
Gente é para brilhar, canta o poeta. Se em nossa sociedade
os corpos não brilham ou brilham só quando besuntados
de cosméticos, e não banhados de luz interior, algo
anda errado. A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar
que corpo é copo, cálice, onde se bebe o vinho da
alegria e da salvação, inserido no corpo místico
e cósmico do Cristo.
Só haverá futuro digno quando todos os corpos viverem
em comunhão, saciados da fome de pão e de beleza.
Frei Betto é
escritor, autor de "Entre todos os homens" (Ática),
entre outros livros.