• Caderno D
O jornalista que construiu um império

A MORTE DE ROBERTO MARINHO — Jornalista boicotou “Diretas-já” e apoiou militares, mas teve até o presidente Lula em seu velório no Rio de Janeiro



Roberto Marinho com Itamar Franco e Fernando Collor: amigo do poder
Da Agência JBOn News

O jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, morreu quarta-feira à noite, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Tinha 98 anos. Estava internado desde a manhã, em conseqüência do edema pulmonar provocado por uma trombose. Não resistiu a uma cirurgia ocorrida à noite, na tentativa de retirada do coágulo. Pouco depois das 21h30, encerrou-se a longa e brilhante trajetória do jornalista que construiu um império de comunicações. Deixou a viúva Lili, três filhos — Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto — noras, netos e bisnetos. Deixou, sobretudo, uma lenda que ficará para sempre.
Ele nasceu para uma vida marcada por notáveis singularidades, e sabia que fora assim. Tanto sabia que, da autobiografia que não teve tempo de escrever, ficou o título suficiente para resumir centenas de páginas adiadas: Condenado ao êxito. O sucesso o aguardava quando, ainda, repórter iniciante, poucos imaginariam que, ao morrer, estaria no comando de um dos maiores conglomerados do ramo em todo o planeta. Com tenacidade e talento, saberia criar o mundo em que circulou décadas a fio como um dos mais bem-sucedidos empresários da história. Mas foi sempre, essencialmente, um jornalista. Sua última aparição pública, por sinal, deu-se em 29 de julho passado, na missa comemorativa dos 78 anos de fundação de O Globo. O jornal era o coração do império, e seu compasso refletiu permanentemente os batimentos do homem que o forjara.
Sobretudo depois de ter criado, com mais de 60 anos, a maior rede nacional de televisão do Brasil, uma das maiores do mundo, não precisou exercer nenhum cargo público, nem ocupar quaisquer gabinetes oficiais, para influenciar fortemente os rumos da política e da vida nacional. Mais de uma vez teve peso decisivo na escolha de governantes. Exerceu o poder com volúpia e competência. O “companheiro Roberto Marinho”, como gostava de identificar-se entre seus funcionários, era um jornalista que sabia mandar.
Descendia de portugueses por parte do pai, jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros, e de italianos pelo lado da mãe, Francisca Pisani Marinho. Desse enlace resultou uma figura fascinada por fazer coisas, por realizar o aparentemente inviável. Um caçador de sonhos que conseguia materializá-los pessoalmente. Durante entrevista concedida aos 88 anos, definiu-se como “um obcecado pelo trabalho”.
Seria assim até morrer.
Nasceu no bairro carioca do Estácio, em 3 de dezembro de 1904. Em 1924, fez com os pais a primeira viagem à Europa. De origem modesta, Irineu Marinho alcançara a independência financeira depois do lançamento, no começo da década de 20, do vespertino A Noite. Em 1925, aos 21 anos, Roberto começou a trabalhar em O Globo, que o pai acabara de fundar em substituição ao vespertino de que se desfizera. Mas Irineu morreria menos de um mês mais tarde.
A mãe queria o primogênito na direção do jornal. Mas o próprio Roberto, invocando a pouca experiência, preferiu que o cargo fosse entregue ao secretário do pai, Euricles de Matos. Só em 1931, com a morte de Euricles, Roberto assumiu o leme que nunca mais abandonaria. Diariamente, o novo diretor passou a participar das reuniões sobre a montagem das principais páginas do jornal. E começou a moldar a rotina que seguiria, na essência, até a véspera da morte. Há poucos anos, Roberto cuidara de transferir poderes, gradualmente, para os três filhos, habituando-os a trabalhar em conjunto.
A transição sem traumas foi conduzida por um Roberto Marinho que passara a existência chegando ao trabalho por volta das 4 da manhã e deixando a redação nunca antes das 7 da noite. Logo se transformou num profundo conhecedor de todos os segredos da atividade. Lidava com rotativas, controlava os truques da distribuição, dominava técnicas de reportagem, redação, fotografia e revisão. Em meados da década de 60, com o sucesso da TV, a rotina reservaria algumas horas ao comando da nova capital do império. As manhãs ficaram para o jornal. A televisão, onde passou a almoçar, tomava-lhe o restante do tempo. Já era então um homem habituado a conviver com o centro do poder. Conheceu de perto todos os presidentes desde Getúlio Vargas.
Em dezembro de 1944, Roberto Marinho inaugurou a Rádio Globo. Valendo-se dos instrumentos que tinha e dos que viriam, apoiou alguns governantes, opôs-se a outros. Influiu sobre o comportamento de todos. Em 1964, suas empresas deram mão forte ao movimento que resultaria na queda do governo de João Goulart e na ascensão dos militares. Outros grupos participaram do movimento. Nenhum teria a mesma força das Organizações Globo.

O jornalista Roberto MarinhoA TV de Marinho só nasceu em 65

Da Agência JBOn News

Com o general Castello Branco na Presidência e a implantação da ditadura militar, Roberto Marinho viu chegado o momento da expansão. Vão tomando forma as Organizações Globo. Mesmo sem o apoio entusiasmado dos irmãos, desconfiados do tamanho do empreendimento, resolveu montar um canal de TV, cuja concessão fora obtida no governo de Juscelino Kubitschek, ainda em 1957.
A TV Globo foi ao ar pela primeira vez em abril de 1965, depois de superadas imensas dificuldades. A primeira foi o local para a instalação da sede da TV. Roberto Marinho havia adquirido terrenos do Parque Lage, no Jardim Botânico. Mas, como se tratava de área non aedificandi, o projeto encontrou opositores. E o parque acabou sendo tombado.
Outras dificuldades resultaram de denúncias sobre a presença de capital estrangeiro, apoiadas num contrato que Roberto Marinho assinara com o grupo americano Time-Life. A questão se arrastou por bastante tempo. Instalada uma CPI, o próprio Roberto Marinho explicou que “o contrato fora revogado por acordo mútuo, havendo sido convertido em financiamento sob forma de conta de participação, um contrato de cessão de promessa de venda do terreno bem como do edifício construído”. Para encerrar o assunto, o criador da Globo cortou quaisquer vínculos com o grupo Time-Life, pagando-lhe US$ 4 milhões “para evitar pretextos que viessem a afetar a empresa”. Decidido a consolidar a TV que fizera nascer num parto de tal forma complicado, Roberto Marinho precisou hipotecar a mansão em que morava, no Cosme Velho, e vender diversos imóveis. Mas conseguiu. E logo vieram as histórias de sucesso, as fórmulas vitoriosas, a hegemonia ratificada pela preferência dos espectadores, o êxito incontestado.
Nos primeiros anos da década de 70, a Globo já se apoiava em cinco emissoras básicas. A elas se ligaram diretamente 30 retransmissoras, que, por seu turno, passavam seus programas a centenas de retransmissoras. A TV de Roberto Marinho já então podia ser considerada a maior e a mais poderosa do Brasil. Hoje líder sem conconcorrentes de peso no Brasil, a Globo espalha sua programação por vários países, em diferentes idiomas, nos principais pontos do mundo. Morto o criador, o império continua. “Em 1966, achavam que eu estava louco”, gostava de lembrar Roberto Marinho. “Ninguém acreditou na TV Globo”. Era essa, então, a sua grande paixão profissional? “Não, é a redação do jornal”, repetia. “É que nasci jornalista e assim vou morrer”.
E assim se fez.
Romântico, 3 casamentos — Romântico, Roberto Marinho teve quatro filhos do primeiro casamento, com Stella Goulart Marinho (morta em 1995), com quem viveu mais de três décadas. Todos começaram a trabalhar no jornal tão logo completaram 13 anos. “Desde pequenos, nós nos acostumamos à idéia do risco”, conta o primogênito Roberto Irineu. Mas só depois dos 90 anos o legendário “Doutor Roberto” desencadeou o processo de transferência de comando. O mais velho foi o escolhido para gerir a TV. Ao caçula, José Roberto, coube comandar o sistema de rádio. E João Roberto, o do meio, tornou-se o responsável pelo jornal. (Paulo Roberto, o segundo filho, morreu em 1970 com 19 anos, num acidente de carro.)
Depois do casamento com Stella, viveria com mais duas mulheres. A primeira seria Ruth Albuquerque, de quem se divorciou muitos anos depois. “Ela é uma criatura extraordinária”, ressalvaria o elegante ex-marido tempos mais tarde. E a última foi Lily de Carvalho, ex-miss França, viúva do dono do já extinto Diário Carioca, Horácio de Carvalho. Foi Horácio que apresentou Lily a Roberto em 1939. Viram-se uma segunda vez em 1987, num jantar em que Lily, já viúva e sempre bela, festejava os 66 anos. Roberto, um dos convidados, sentiu reacender-se uma antiga chama. No dia seguinte, mandou flores para Lily com um cartão escrito em francês. Tradução: “À procura do tempo perdido”. Daí até o casamento, em 1994, foi um tempo de ciúme e paixão para ambos, devolvidos a sentimentos da adolescência. Assim se comportariam nos anos seguintes. Lily e Roberto passaram a cancelar qualquer compromisso para que estivessem sempre juntos. Até pacto de namorados fizeram: nem Roberto dançaria com outra dama que não fosse Lily. Lily só dançaria com Roberto.
Roberto Marinho nunca escreveu nenhum livro. Em 1992, o editor José Mario Pereira lançou Roberto Marinho - Uma trajetória liberal, antologia de editoriais, discursos e entrevistas. Foi um dos homens sobre quem mais se escreveu no século 20. Criou mais de 20 mil empregos diretos nas 100 empresas da holding da família. Embora o envaidecessem convites para ocupar cargos políticos, preferiu continuar utilizando apenas o poder das comunicações. A ele recorriam, em busca de ajuda ou conselhos, presidentes da República, ministros de Estado, governadores, empresários. Sem o apoio de Roberto Marinho, era difícil chegar a um alto posto ou ali permanecer. Por seu gabinete desfilaram os poderosos do país, vindos da direita, da esquerda ou do centro. O porto era mais importante que a procedência. Nas últimas décadas, uma rota segura incluía a escala naquela sala.