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ARTIGO / MEMÓRIA
Chico da Ponte
Da Equipe de Colaboradores
Não me acostumei a cortar
o cabelo nos cabeleireiros. Embora provavelmente a maioria dos
representantes do outrora sexo forte o façam, ainda mantenho
minha mania de procurar um barbeiro, a cada 15 ou 20 dias, para
reduzir a quantidade e o tamanho dos cabelos que ainda teimosamente
resistem ao avançar dos anos.
Durante bom tempo utilizei-me dos serviços profissionais
do Sr. Carlos Montagnoli, que depois que se aposentou montou uma
cadeira em sua casa, ali perto do Boamorte, e enquanto não
se ocupava de tratar dos seus passarinhos aparava as melenas dos
fregueses.
O interessante na conversa do Sr. Carlos é que ele foi
uma figura que ouviu as idéias dos principais políticos
rivais que dominavam nossa cidade. Lembrava-se do dr. Ciro, do
Pedro Queiroz, do Carlos, Onofre, do Joaquim e de outros mais
que a memória já não alcança. Contava-me
que nessas ocasiões costumava dizer francamente o que pensava
e muitas vezes acertou com suas previsões. Embora tivesse
livre trânsito em ambas as alas, gozava da estima de todos.
Era honesto, bom pai de família e a ela vivia dedicado.
Afora esses traços que provavelmente muitos dos mais velhos
da nossa cidade já conhecem, ele tinha outra habilidade
que inclusive foi motivo de reportagem deste jornal. O Sr. Carlos
conseguia que canarinhos da terra de gaiola, treinados por ele,
saíssem em determinados horários por ele marcados,
ficassem fora até o final da tarde, quando então,
surpreendentemente, voltavam adentrando o cativeiro. Nunca lhe
disse que preferiria ver os passarinhos soltos na natureza, embora
não negue também que, quando jovem, criei pintassilgos,
coleirinhas, melros, todos devidamente aprisionados. Talvez fosse
mais comum naquela época e hoje a meninada, felizmente,
está deixando os pássaros em liberdade melhorando
os nosso ambiente. Mas, afinal, a volta do pássaro não
era obrigatória pelo Sr. Carlos. O emplumado voltaria se
quisesse (será que essas aves têm vontades?).
Relatava casos curiosos ocorridos com o advogado Dr. Ciro, ou
então com outras pessoas da comunidade e, claro, o salão
de barbeiro e a farmácia (lembram-se da do Lúcio?)
eram centros de informação política, social,
econômica da nossa Santa Cruz mais que centenária.
Não teve inimigos, foi homem religioso e sua morte entristece
os amigos que o conheceram, inclusive eu.