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Transmissões sentimentais

Guca Domênico
Da Equipe de Colaboradores

Lembrem-se os leitores que acompanharam meu escrito da semana passada, que fiz a menção às minhas queridas professoras primárias, entre elas, minha mama que me ensinou a ler, escrever, somar, dividir, e ainda por cima me deu esse lindo par de olhos azuis.
Hoje vou subir o degrau da grandeza e falar de alguns mestres do andar de cima, sem metodologia outra que não seja a da memória e do coração.
Se eu sei escrever alguma coisa, devo isto aos livros, que são meus amigos fiéis, nunca me faltaram e jamais me faltarão, mas também tive a sorte de ter alguns mestres de Português que foram um luxo só.
Eu era um garoto franzino e exibido e não tinha habilidades futebolísticas para impressionar as meninas, então tentava me destacar em alguma coisa pra ver se elas olhavam pra mim. Dona Lurdinha Lorenzetti, foi uma professora que me ajudou. Ela pedia pra gente fazer redação e nos premiava com o reconhecimento público, isto é, as melhores redações eram lidas por seus autores, em pé, pra toda classe. Eu caprichava nas histórias pra poder ficar lá na frente, com cara de Alan Delon jeca, na esperança de que alguma Rachel Welch caipira se interessasse por este mirrado escriba.
Também de Português, seu Toninho Raimundo era um professor que eu gostava, principalmente porque conseguiu me ensinar um pouco de gramática. Ele andava pela sala, calmamente, ditando a matéria, fumando feito uma chaminé (naquele tempo o professor podia tudo, até isso). Ele ensinou direitinho, mas não sei se aprendi bem. O que me satisfaz é que ele é leitor desta coluna. Será que anota meus erros com caneta vermelha?
De Matemática, tive aula com o seu Arnaldo Moraes, um craque dos números que tinha o coração maior que o peito, e mantinha uma aparência de durão. Um dia, ele ficou em pé ao meu lado e disse pra toda classe ouvir, me apontando o dedo:
— Esse aqui é o aluno mais inteligente da classe... e o mais vagabundo!
Durante três segundos me senti Einsten. Depois caí na real e percebi que não passava de um poetinha muito do safado que mal sabia extrair a raiz quadrada.
Dr. José Eduardo Catalano, que é um dos ícones de Santa Cruz foi professor de Organização Social e Política Brasileira. Eu não gostava da matéria, que era coisa da ditadura militar, mas com o Catalano, tudo fica agradável, e em respeito ao mestre, confesso que não sofri tanto assim.
Exedil Magnani foi um professor engraçado, pois tinha um senso de humor cáustico, irônico até os ossos — e aquela molecada era muito folgada. Guardo sua imagem, caminhando a passos lentos, com um cigarro esfumaceando a sala de aula, enquanto explicava o assunto. Como santa-cruzense adora fazer piada e aparecer, de vez em quando a gente gracejava. O professor parava o que estava fazendo, encarava o indivíduo com um semblante sério, balançava a cabeça e soltava a frase clássica:
— Assim não... assim não dá — era uma sentença gelada, matadora.
Tudo o que sei de Inglês aprendi com o professor Celso Fleury Moraes, que nesta época tinha uma Belina alaranjada, fashion total. O teacher entrava na classe mandando ver na língua do Tio Sam e azar de quem falasse com ele na língua do Zé Carioca, ele ignorava. Método perfeito, a gente raciocinava em Inglês e aprendia na marra. Como aluno adora ir ao banheiro não sei pra quê, na aula do teacher não era diferente, mas ele só deixava se a gente pedisse em Inglês. Um dia ele estava ensinando uns verbos que percebi que encaixavam com essa necessidade de cabulador. Eu levantei a mão e mandei:
— Teacher, may I have some water?
Ele respondeu em Inglês, algo que não entendi, mas pelo movimento da cabeça estava mais pra yes do que no, e lá fui eu dar uma volta no pátio, com um segredo que os amigos tentaram arrancar de mim. Dei uma de Jânio Quadros e renunciei, sem jamais abrir o meu bico.
Na aula de Economia Doméstica, com a Dona Wanda, aprendi a cozinhar, costurar e fazer umas colagens. De Artes Industriais, com o seu Henrique, aprendi a cortar madeira, parafusar, etc. Era num período de transição no currículo, fruto de uma nova diretriz dos militares. Acho que eles queriam fazer da gente mais do que um povo bebedor de cerveja e fanático por futebol. Fracassaram, mas peguei o gosto pela cozinha, e cozinheiro melhor que eu, só conheço o Takeshi.
O casal Nico e Marina Mardegan foram importantes nas minha formação de Música. Ele, como regente da fanfarra, me confiou a tarefa de ser o “puxador” das marchas, com uma caixinha que “herdei” do Cássio Oliveira. Eu tinha 13 anos e um monte de marmanjo dependia da minha memória musical para fazer o desfile prosseguir no andamento certo. A Dona Marina fazia com que a partitura fosse algo decifrável e aprendi com ela o valor da semínima, da colcheia, e mi-sol-si-re-fa e fa-la-do-mi.
A vida dos professores não é fácil, principalmente porque quase ninguém quer aprender e vai à escola por obrigação. Eles ficam martelando em cabeças duras, pra ver se racha e entra algo que preste. De vez em quando, entra, pra sorte da pessoa. Acho que tive essa sorte, e ainda hoje estudo porque agente só pára de aprender quando acaba o nosso tempo aqui na Terra. Depois o aprendizado é outro.