• Caderno D
“O Oscar é nojento”

CINEMA — Aos 83 anos, Anselmo Duarte não vai mais ao cinema e não viu o filme de Fernando Meirelles



Rodrigo Fonseca
Da Agência JBOn News

Anselmo Duarte, 83 anos, sabe que hoje todo o Brasil, ou pelo menos a classe cinematográfica nacional em peso, vai estar unida numa corrente. É neste domingo, depois de mais de um mês de expectativa desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou os indicados ao Oscar, que o País vai saber se Cidade de Deus leva ou não para casa um dos quatro prêmios (direção, montagem, fotografia e roteiro adaptado) a que foi indicado. Mas o primeiro cineasta brasileiro que concorreu à láurea mais cobiçada do cinema mundial, com O pagador de promessas, 42 anos atrás, na categoria de melhor filme estrangeiro, vai estar com a TV desligada neste momento, indiferente ao destino do longa de seu colega Fernando Meirelles, que aliás ele não viu.
“É pra torcer? Posso até torcer já que se trata de algo que pode ser bom para o cinema brasileiro. Mas só por isso. Se eu nem fui aos EUA quando concorri, por que acompanhar o Oscar agora?”, indaga o diretor, ao telefone de sua casa em Salto, cidadezinha do interior paulista onde nasceu e vive atualmente, sem disfarçar certa irritação na voz. E uma ponta de desconfiança: “Queria entender como um filme feito no Brasil, com atores brasileiros, história brasileira e diretor brasileiro pode estar concorrendo na mesma categoria que os filmes americanos, numa cerimônia que nasceu para contemplar a indústria dos EUA. Isso a imprensa não explicou direito até agora”, protesta o diretor do único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, desconhecendo o fato de que Cidade de Deus tem DNA híbrido de Brasil e EUA.
Na verdade, as regras da Academia aceitam filmes de qualquer origem e idioma em todas as categorias, desde que tenham sido lançados nos EUA. No entanto, os filmes estrangeiros normalmente não conseguem vitrine suficientemente luminosa para disputar os principais prêmios. Cidade de Deus contou com a americana Miramax como produtora, e por isso consegui sair do gueto do filme estrangeiro.
Sem atuar ou dirigir há quase duas décadas, o maior galã da era das chanchadas (fez sucessos como Aviso aos navegantes) e estrela da extinta produtora Vera Cruz (em filmes como Appassionata e Veneno), que desde 1956, quando realizou o documentário Fazendo cinema, assumiu o posto de diretor, cultiva verdadeira repulsa pelo prêmio da Academia.
Preparando sua vinda para o Rio de Janeiro, onde moram dois de seus quatro filhos, e sua volta ao écran, tirando do baú um velho projeto batizado como Messias, o mensageiro, que pretende dirigir na Europa, Anselmo questiona a relevância estética do Oscar. “Dizem que sou amargurado com essa história de Oscar. Sabe por quê? Porque acho o prêmio nojento”, diz, justificando a opinião: “O que o Oscar julga é se um filme é bom ou não comercialmente. A Academia não é composta de gênios, teóricos de cinema, mas de produtores. É um absurdo saber que um filme estrangeiro que passe lá seja dublado e tenha os nomes de seus personagens alterados. Em Cannes, onde O pagador foi premiado, não houve mudanças”, diz o diretor, que se irrita ao lembrar que Zé do Burro, o herói trágico de O pagador, imortalizado na magnífica interpretação de Leonardo Villar, virou Donkey Jack nos EUA.
Ele conta que sua opinião não se deve à derrota de O pagador de promessas para o francês Sempre aos domingos, de Serge Bourguignon, na festa realizada no dia 8 de abril de 1963, no Auditório Cívico de Santa Monica, na Califórnia. “Tive o convite para assistir a cerimônia, passagens de avião, hotel pago e tudo o mais e recusei tudo. Não concordei com o fato de ver O pagador concorrer com outro título, The given word, que nada tem a ver com o nome original dado pelo Dias Gomes, autor da peça que inspirou o filme”, afirma Anselmo que, recentemente, virou tema do curta-metragem Cinema pagador, de Isabel Ribeiro e Henrique Pires, que concorreu na seleção de filmes em 16mm do último Festival de Brasília.
No curta da dupla, ele repete aquilo que se tornou sua atual ocupação: relembrar histórias. Anselmo vive resgatando memórias. Alegres, como o fato de em Cannes ter competido com gênios como Luís Buñuel (O anjo exterminador), Robert Bresson (Procès de Jeanne D'Arc) e Michelangelo Antonioni (O eclipse). E tristes, como os ataques que recebeu da crítica após O pagador e que frustraram a recepção de seus longas posteriores, como Vereda da salvação (1964), que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, e O crime do Zé Bigorna (1977). “Antes de O pagador de promessas fazer sucesso, eu era elogiado pelos críticos, considerado bom ator. Depois começaram a me malhar. Virei péssimo ator, canastrão e inventaram um boato de que eu vendi a Palma”, diz o ator, rememorando velho rancor contra o Cinema Novo, que já se tornou notório.
“Quando fiz O pagador, não havia antipatia do Cinema Novo contra mim. Glauber Rocha, que era crítico, foi gentil comigo. Mas depois tudo mudou. Aquele grupo, que reunia Ruy Guerra, Cacá Diegues e outros, não esperava que eu, que estava associado ao cinema de chanchada, saísse na frente deles na discussão de problemas sociais”. Reclama também de não ser mais reconhecido. “Vira e mexe, um prefeito do interior de São Paulo vem aqui em casa me chamar para uma homenagem em época de campanha e quando chego na cidadezinha, as pessoas me olham sem saber o que fiz. Já nem me aborreço. Fui ídolo popular, não sou burro, dirigi filmes, mas se ficar dizendo isso por aí logo, logo me malham. No Brasil, quem faz sucesso tem esse destino”.
Anselmo hoje não vai mais ao cinema. Filmes, ele até vê. Brasileiros ou não. Mas na TV. Da nova safra nacional, ele reprova boa parte. “O cinema brasileiro de hoje parece brincadeira. Hoje, as pessoas celebram qualquer sucesso. No tempo da Atlântida, tirávamos 20 cópias de cada longa e lotávamos as salas”. Só houve um recente longa brasileiro que Anselmo foi conferir na sala escura e aprovou: Central do Brasil (1998), outro concorrente ao Oscar. “Queria ver minha colega Fernanda Montenegro em cena, por isso fui ver Central, que gostei com restrições. Acho que seu diretor, o (Walter) Salles, é o melhor hoje, porque se formou na prática, não em escolinhas. Daqui a pouco, todo mundo vai estar malhando. Vão dizer que ele é filho de banqueiro, que é isso, que é aquilo. Walter vai ter uma trajetória parecida com a minha”, profecia Anselmo que, avesso aos resultados que Cidade de Deus pode ter, não vai correr para vê-lo e avaliá-lo. “Quando passar na TV, eu vejo. Ganhar não me diz nada”.