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A guerreira das causas sociais

Noemia Aloe dedicou toda a sua vida a instituições filantrópicas de Santa Cruz do Rio Pardo



Noêmia Aloe nunca se casou, mas acabou se transformando numa espécie de “mãe” para várias entidades assistenciais de Santa CruzDifícil falar em entidades assistenciais em Santa Cruz sem citar o nome de Noêmia Aloe. Esta senhora de 84 anos (ela não esconde a idade) com vitalidade adolescente, há décadas mergulhou num projeto de vida que resultou na fundação do “Lar da Criança Fermino Magnani” e estruturação do asilo São Vicente de Paulo, da Apae e do antigo Colégio “Companhia de Maria”. Além disso, doou, juntamente com os irmãos, a área para construção da Casa do Menor “Adelina Aloe”, dirigida por frei Chico.
Noêmia é uma das seis filhas de Antonio Aloe — conhecido por “Totó” —, comerciante que se destacou na vida pública de Santa Cruz do Rio Pardo por várias décadas e morreu em 1972, aos 91 anos. Seguidor do deputado Leônidas Camarinha, Totó foi vereador, vice-prefeito, fundador do Clube dos Vinte e provedor da Santa Casa de Misericórdia. “Ele tinha um coração enorme”, conta Noêmia, que talvez herdou do pai a disposição voluntária de ajudar o próximo. Vicentina, ela nem se lembra quando começou a se envolver com as causas sociais, mas acha que teve um chamamento divino e, claro, um “empurrão” da sociedade. “Quando se iniciava algum movimento em prol de alguma entidade, eu sempre era a primeira da lista a ser convidada. Quando percebi, estava ‘enrolada”’, brinca. Aliás, o bom humor é outra característica dela.
Nesta entrevista, Noêmia Aloe lembra, por exemplo, os 21 anos em que foi secretária do antigo Colégio Companhia de Maria ou dos 25 anos em que presidiu o “Lar da Criança Fermino Magnani”. Ainda hoje é voluntária da creche e organiza até excursões para angariar fundos para a entidade.

D maisComo era a vida da família Aloe em Santa Cruz?
Noêmia Aloe — Éramos em seis irmãos, sendo três mulheres. Vivos, só ficamos eu e minha irmã Rosa. Meu pai, Totó Aloe, era um comerciante muito trabalhador, negociando alfafa e cereais em toda a região, e depois se tornou coletor estadual. Contudo, tinha um amor por Santa Cruz que, na minha opinião, poucos teriam igual. Mas acima de tudo ele era um benfeitor, se empenhando em realizar obras em benefício da cidade.
D maisEle também ajudava várias entidades?
Noêmia — Ele não fundou as entidades, mas teve um papel extraordinário na criação de várias delas. Quando se reuniram para construir a Santa Casa, é claro que ele estava junto e viajou atrás de verbas e documentos. O mesmo aconteceu com a criação da Escola Normal. Meu pai viajava muito com o Lulu Camarinha [deputado Leônidas Camarinha] e acabou até se envolvendo na pavimentação de Santa Cruz do Rio Pardo ou na criação da Delegacia de Ensino. Então, ele sempre foi dinâmico porque tinha amor pela terra dele. Meu pai deixou a Itália aos 4 anos, mas a partir daí se considerava santa-cruzense. Não admitia que falassem mal da cidade perto dele. Quando meu irmão viajava para a Itália, convidava meu pai para ir junto. “Não vou, pois minha terra é aqui”, ele costumava dizer...
D maisAo que tudo indica, o Totó Aloe viveu numa época em que Santa Cruz crescia a olhos vistos...
Noêmia — Ah, aqui era a “Jóia da Sorocabana”. Se ele estivesse vivo hoje e vendo várias repartições indo embora, certamente morreria de desgosto. Para se ter uma idéia, quando da criação da Escola Normal, que ele tanto se empenhou, houve um problema quanto ao número de alunos. Faltava a inscrição de dois alunos para viabilizar a escola, e sabe o que ele fez? Retirou os filhos — o Chiquinho e a Rosa — de um colégio em Botucatu e matriculou os dois na Escola Normal. O Totó também participou da escolha dos professores da Escola Normal, que por sua qualidade ficou conhecida em todo o Estado. Professor era escolhido a dedo...
D maisEle também foi provedor da Santa Casa, mas parece que houve um problema...
Noêmia — É até engraçado. Meu pai tinha dó de todo mundo e acolhia todos os pobres para atendimento na Santa Casa, que não tinha recursos suficientes para este tipo de caridade. Então, pediram a ele para renunciar ao cargo. Ele dizia que o hospital foi feito para os pobres e, inconformado, acabou pedindo exoneração. Na verdade, o coração de meu pai sempre foi maior que a Santa Casa.
D mais O Totó Aloe também foi um político respeitado. Era correligionário do Leônidas Camarinha?
Noêmia — Veja só. Ele era fanático do Lulu Camarinha, mas não admitia que falassem mal dos adversários. Nos comícios, queria que todos falassem sobre planos de governo, e não ficar atacando adversários. Certa vez, ele tirou o microfone da boca do Dito Camarinha, que estava falando bobagens sobre a oposição.
D maisAo lado do Lulu Camarinha, o Totó se empenhou muito para transformar Santa Cruz na primeira cidade pavimentada do interior paulista. Como isso ocorreu?
Noêmia — Não tenho certeza, mas parece que Sorocaba teve asfalto primeiro. Mas depois era Santa Cruz do Rio Pardo. E ele acompanhou o Lulu para conseguir a verba, viajando várias vezes para São Paulo. Como todo o centro ia ser asfaltado, ele então pediu que sua rua fosse uma das primeiras, como retribuição ao seu trabalho voluntário. E olhe que meu pai acompanhou toda a obra, fiscalizando inclusive a qualidade do serviço. Veja que várias ruas — como a da minha casa, a antiga Saldanha Marinho e outras — ficaram décadas sem recapeamento, de tão bom que era o asfalto.
D maisQuer dizer que esta dedicação da senhora com causas nobres é, na verdade, uma herança?
Noêmia — Eu viajava muito com meu pai em busca de benefícios para Santa Cruz e talvez tenha aprendido este trabalho. Até júri eu ia assistir com meu pai. Ele era apaixonado por júri e acompanhou, por exemplo, o julgamento do Tonico Lista em Santa Cruz, quando grandes figurões da República estiveram na cidade. Mas nunca quis ser jurado...
D maisNão gostava?
Noêmia — É que ele era tão bom que dizia que sempre votaria a favor do réu. Meu pai não admitia alguém ser preso, mesmo que merecesse. Por isso minha mãe sempre agendava visita aos presos, uma tarefa que eu acabei herdando.
D maisA senhora fez muitas visitas a presos?
Noêmia — Eram visitas humanitárias. Eu comecei aos 12 anos, acompanhando minha mãe aos domingos. Eu e as vicentinas fizemos isso durante muitos anos, e contávamos com o apoio do frei José Maria Lorenzetti. Nós fazíamos almoço para os presos e até festas de Natal. A macarronada, por exemplo, era feita pela dona Rosa Quagliato. Este gesto continuou até que a cadeia foi transferida para o bairro da Estação e chegou a abrigar presos perigosos. Aí ficou longe demais e a questão da segurança fez diminuir a visitação. Ainda hoje, em datas especiais — como o Dia de Santo Antonio — nós mandamos pães e doces para os presos. Mas entregamos para o carcereiro e não entramos mais.
D maisInspirada no exemplo do pai, quando a senhora começou a se envolveu com entidades beneficentes?
Noêmia — Eu acho que foi uma bênção de Deus, que começou aos poucos. Alguma coisa me chamava para este tipo de trabalho e as pessoas sempre me procuravam para ajudar alguma causa. Quando se iniciava algum movimento em prol de alguma entidade, eu sempre era a primeira da lista a ser convidada. Quando percebi, estava “enrolada”... [risos]
D maisA senhora também participou da direção do antigo Colégio Companhia de Maria...
Noêmia — Trabalhei 21 anos no colégio e guardo, com muito orgulho, uma bandeja com dedicatória que recebi das madres. Eu assumi a secretaria logo que elas vieram para cá. O dr. Cyro de Mello Camarinha assumiu a direção, porque o cargo exigia alguém formado, e ele mandou me chamar para secretariá-lo. Aí fui ficando...
D mais Seu cargo era remunerado?
Noêmia — Nunca recebi um tostão, mas adorava meu trabalho. Fazia tudo com enorme prazer. Quando algumas freiras se formaram e puderam assumir a direção, eu e o dr. Cyro deixamos a instituição. Afinal, o colégio já podia caminhar sozinho.
D maisA senhora deve ter muitas lembranças do antigo colégio.
Noêmia — Ah, eu tenho um grande sentimento quando entro naquele prédio. Afinal, eu acompanhei a construção daquele prédio, vendo subir cada pilar. Fizeram aquela capela linda e maravilhosa, e é inacreditável que hoje aquilo se transformou em depósito de sacaria. Então, agora evito ir até lá. Hoje me dá muita tristeza.
D maisMas as lembranças do passado são boas?
Noêmia — Ah, muitas. Dias desses eu estava lembrando com minhas amigas da creche as histórias do colégio. É que às terças-feiras nós nos reunimos na creche para trabalhos diversos — limpar feijão, descascar mandioca etc. —, pois não podemos pagar empregada. E na última terça-feira eu estava relembrando aquele período do colégio, ao ler um livro vicentino sobre o sacerdócio. E me lembrei que rezávamos muito pela conversão religiosa da Rússia. A madre Carmem reunia um grupo na velha mangueira atrás do colégio e narrava o sofrimento que passou antes de vir para o Brasil. Ao lado de madre Dolores e outras, ela dizia que nós tínhamos de beijar o nosso chão, que é realmente abençoado, pois ela sofreu os horrores da guerra civil espanhola. Aliás, ela chegou ao Brasil com um pedaço de ferro na cabeça...
D mais Como é que é?
Noêmia — Na hora de embarcar, descobriram que ela era freira. Aí deram uma machadada na madre Carmen. Ela chegou a Santa Cruz com um grande ferimento na cabeça. Assim, rezava muito pela paz no mundo e pela conversão da Rússia. Rezava em português e até em espanhol e nós a acompanhamos durante anos. A madre Carmem morreu antes de ver isto acontecer, mas aquela velha mangueira, cuja sobra tanto nos abrigou, testemunhou as mudanças no mundo.
D maisNas últimas décadas o nome da senhora esteve muito ligado ao Lar Fermino Magnani. Como este trabalho começou?
Noêmia — Eu entrei na Sociedade São Vicente de Paulo, a pedido da dona Matilde Lorenzetti. O asilo ficava naquela esquina onde hoje funciona a Casa da Lavoura, mas era feio e inadequado. Passei a freqüentar um grupo de mulheres que visitava doentes a domicílio, enquanto os homens se empenhavam na construção de um novo asilo. Convivi com o drama de aleijados, tetraplégicos e doentes de todos os tipos, a quem levávamos conforto. Este grupo cresceu e, além das vicentinas, até pessoas de outras religiões faziam caridade. Tenho, inclusive, uma boa lembrança do sr. José Barbeiro, que nos acompanhava para cortar cabelos dos doentes. O Fermino Magnani, aquele saudoso alfaiate, era da Sociedade São Vicente de Paulo e também nos acompanhava. Certa vez, quando o novo asilo já estava encaminhado, ele lançou a idéia de fazer algo pelas mulheres, e o ideal seria a construção de uma creche, para que elas pudessem deixar seus filhos quando forem trabalhar. A idéia foi lançada e muita gente se engajou, como o Albino Trevisan, Américo Pitol, o Stramandinoli (pai do Ramoel), Ivo Tosato e muitos outros cujos nomes me fogem da memória. Para angariar fundos, começamos a fazer quermesses, leilões e todo tipo de promoções. Conseguimos recursos para começar a construção, mas quando o alicerce estava sendo erguido, o Fermino Magnani faleceu, daí a homenagem batizando o lar com seu nome. Neste ponto houve uma divisão do grupo, um ficando com o asilo e outro — com as mulheres majoritárias — tocando as obras da creche. E houve momentos engraçados, como uma vez em que resolvemos sortear um bezerro. Quem ganhou foi a mãe do Carlito Bertoncini e nós ligamos, à noite, para avisá-la. Ela ficou furiosa: “Onde vocês imaginam que vou colocar um bezerro?” E o animal foi novamente leiloado...
"Aquela mangueira, cuja sobra nos abrigou, testemunhou as mudanças no mundo".D maisA senhora presidiu a creche durante quantos anos?
Noêmia — 25 anos. Há cinco, deixei a presidência para a Maria Romano, mas continuo trabalhando lá como voluntária. Afinal, quando se constrói uma coisa, o amor que surge é muito grande. Quando inauguramos o Lar Fermino Magnani, eu era secretária e lavrei a primeira ata. Foi maravilhoso. Este trabalho atravessou anos e hoje nós temos 170 crianças que são assistidas diariamente das 7 às 17h. Elas têm quatro refeições por dia e o maternal já sai com banho tomado. Os maiores deixam a creche após o jantar. E sempre há sobremesa...
D maisE quantos funcionários trabalham na creche?
Noêmia — É até uma vergonha falar, pois o dinheiro é muito curto. Temos 10 funcionários, o que é praticamente nada. Há algum tempo visitamos um lar semelhante, com 50 funcionários, que assiste à metade do número de crianças. Temos quatro professoras municipais, que vão das 8h ao meio-dia, para reforçar a educação de nossas crianças. Antes nós assistíamos crianças até 8 anos, mas agora já atendemos até 12 anos. Temos 100 berços e acomodações boas para este atendimento.
D maisMas o prédio ficou pequeno nesses anos todos?
Noêmia — No fundo do lar existia um imóvel que abrigava o velho clube japonês. Ao lado existiam algumas casas, que com o tempo nós conseguimos comprar. Mas o clube japonês estava irredutível, pois segundo o estatuto deles o imóvel não poderia ser vendido ou doado. Só aceitavam troca. Aí conseguimos recursos com promoções, compramos um terreno na avenida Tiradentes e construímos um clube novo para eles. O antigo ficou para o lar, que teve suas instalações ampliadas. Mas havia um outro problema: a área não estava legalizada. Isto tudo foi revolvido graças aos esforços de meu irmão [o falecido advogado Ângelo Aloe], que conseguiu legalizar tudo. E neste antigo salão do clube japonês, temos 80 colchonetes onde as crianças dormem após o almoço. E esta “sesta” de uma hora passou a ser obrigatória em virtude do número pequeno de funcionários. Afinal, é preciso uma folga para colocar a casa em ordem.
D maisA sesta é adotada em vários países, como o México, e dizem que é boa para a saúde...
Noêmia — Na Itália é obrigatória. Uma vez estive lá com a família do [ex-vereador] José Carlos Camarinha e ele quis comprar umas camisas que viu na vitrina e não entendeu porque a loja estava fechada. Teve que esperar até 15h...
D mais O lar tem horta própria?
Noêmia — Já tivemos, mas abandonamos esta prática. Afinal, o custo da água é maior do que se comprássemos as verduras em outro local.
D maisHá problema de rebeldia entre as crianças?
Noêmia — Às vezes, mas o problema não são as crianças, mas sim os dramas familiares que elas carregam. Alguns já chegaram à creche feridos, porque o pai foi bater na mãe e acabou acertando o filho. Outra vez uma criança estava com sono já de manhã e nós estranhamos. Descobrimos que foi bebida, pois o pai e mãe beberam pinga e a criança também resolveu experimentar. Ela tinha 7 anos...
D maisE existe abandono?
Noêmia — Quando existe abandono, o caso é levado ao juiz. Mas existem casos de esquecimento, quando o pai ou a mãe não buscam o filho na creche. Aí procuramos informações para entregar a criança. Certa vez, quando localizamos a casa, a mãe já estava desesperada. É que o pai foi beber e se esqueceu de buscar o filho. Com todos esses dramas, há até crianças que não querem deixar a creche.
D maisE como evitar situações como o esquecimento?
Noêmia — Nós fazemos agora uma ficha completa da criança, com endereço, telefone e uma relação até de vizinhos ou conhecidos. Além disso, há um acompanhamento no próprio ônibus quando a criança deixa a creche. Em cada ponto desce uma funcionária e as crianças são recontadas. Isto é feito na ida e na volta.
D maisA senhora já disse que o orçamento do Lar Fermino Magnani é curto. Como obter recursos?
Noêmia — É difícil. Agora mesmo vamos ter de construir uma caixa d’água grande e mangueiras próprias para prevenir incêndios. Os bombeiros estão certos, mas isto custa muito dinheiro. Já compramos a caixa e os pilares estão sendo construídos. Nossa sorte é que existe a bendita Casa Vuolo, pois compramos tudo a prestação. Então, como todas as outras entidades, fazemos promoções para angariar fundos, como jantares, almoços típicos etc. Mas a renda é baixa e as promoções precisam ter custo zero. Assim, as funções são divididas na diretoria: cada um se vira para conseguir um ingrediente.
D maisMas também é preciso vender o convite...
Noêmia — E não é muito fácil. Cada um tem uma cota e não pode devolver. Ou paga do bolso ou vende. E todo este trabalho rende no máximo uns R$ 800,00, o que é muito pouco para nossa instituição. Mas vou contar um segredo: o que rende mais são as excursões que nós realizamos há anos. É claro que organizar isso é muito difícil mas, quando o caixa aperta, o jeito é apelar para uma excursão. E esta promoção rende um bom dinheiro. Então, nós conseguimos formar um grupinho que sempre se interessa pelas nossas excursões. E olhe que já visitamos Serra Negra, Caldas Novas, Rio de Janeiro, São Lourenço, Brasília, Petrópolis, Goiânia, Campos do Jordão, Curitiba, Gramado e várias cidades históricas. Já viajamos até para uma cidade pitoresca chamada Jacutinga e teve gente que achou que era uma bobagem visitar um lugar tão perto, confundindo com o bairro rural do mesmo nome existente em Santa Cruz.
D maisQuer dizer que vocês adquiriram um “know-how” em excursões?
Noêmia — É verdade. Organizamos tudo, desde o lugar das pessoas no ônibus até a escolha do hotel e a contratação de um guia. É preciso ressaltar o trabalho da Maria Romano, Márcia Ziglio, Neudes Zaia, Cida Tosato e outras vinte vicentinas que nos ajudam muito e transformam essas excursões numa verdadeira festa. Há lanches na viagem, distribuição de presentes e muitas brincadeiras — até bingo. Enfim, é uma diversão sadia em benefício de uma entidade. Na verdade, são excursões “classe média”, a custo convidativo. Em outras ocasiões, ficamos hospedados em orfanatos, conventos etc., o que significa que também acabamos ajudando instituições de outras cidades.
D maisSua família também doou a área para construção da Casa do Menor, dirigida pelo frei Chico. Como ocorreu esta doação?
Noêmia — Eles estavam planejando a construção desta nova entidade e queriam um lugar perto da cidade. Descobriram que aquele terreno na saída para Bernardino era nosso e vieram conversar com meu falecido irmão Ângelo. Éramos em três irmãos vivos e fizemos a doação da área que eles necessitavam. O frei Chico trouxe a planta, delimitou a área e tudo foi acertado. Meu irmão Ângelo, inclusive, providenciou a doação definitiva, e não esse negócio de comodado por 99 anos, como acontece com outras instituições. A escritura foi passada e nosso único pedido foi batizar a Casa do Menor com o nome de minha mãe Adelina. E aí surgiu a “Casa de Apoio ao Menor Carente Adelina Aloe”, que faz um trabalho maravilhoso em prol das crianças de Santa Cruz do Rio Pardo.
D maisNós já falamos do asilo, da creche, do colégio das madres. Faltou a Apae, que foi batizada com o nome de sua irmã Amélia.
Noêmia — Também colaboramos muito com a Apae — Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. Eu tinha uma irmã portadora da Síndrome de Down, que minha mãe cuidava como se fosse a rainha da casa. A Amélia teve uma educação especial, que a transformou numa menina quase normal. Mas muitas famílias tinham esse problema na cidade e, na época em que eu estava envolvida na fundação da creche, um grupo apareceu disposto a formar a Apae em Santa Cruz. Este grupo começou com o dr. Calil, Mouco, José Saliba e outros, até que apareceu a Vera Lorenzetti, esta figura maravilhosa que fez de tudo pela fundação da Apae. Eu me lembro que marcamos uma reunião no auditório da rádio e conclamamos as famílias que tinham problemas semelhantes a participarem. O que nos surpreendeu foi a presença de 70 pessoas, o que nos despertou para o grave problema que afligia famílias em Santa Cruz. A Vera tomou a frente do movimento e, com muito esforço e ajuda, conseguiu tirar esse sonho do papel. O Roque Quagliato deu um empurrão financeiro muito grande e o projeto foi se viabilizando. Antes, visitamos muitas Apaes da região para projetarmos um prédio funcional. O interessante é que minha mãe era tão “egoísta” que não deixou a Amélia estudar na Apae. Hoje, a Apae de Santa Cruz chama-se “Amélia Aloe”.