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Devoção à Santa completa 50 anos em Ourinhos

RELIGIÃO — Imagem de Nossa Senhora da Aparecida do Vagão Queimado foi encontrada no meio de escombros de trem acidentado em 31 de julho de 1954



O santuário construído em homenagem à Nossa Senhora de Aparecida
Fiéis católicos estão comemorando em Ourinhos os 50 anos da descoberta da imagem de Nossa Senhora da Aparecida do Vagão Queimado. Em homenagem a este jubileu de ouro, a prefeitura construiu um obelisco no cruzamento da avenida Gastão Vidigal com a rua José Justino de Carvalho, numa rotatória que substitui um semáforo desativado.
A imagem foi encontrada após acidente ferroviário que matou duas pessoas e incendiou oito vagões. A história mistura crendice popular com religiosidade. O dia 31 de julho de 1954 marcou a cidade quando, por volta das 15h, chocaram-se o trem-misto e um caminhão-tanque. Houve explosão seguida de forte incêndio que colocou em risco um depósito de combustível próximo do tombamento dos trens.
Pela gravidade do acidente foram acionados bombeiros de São Paulo, através do serviço de telegrafia da Estrada de Ferro Sorocabana. O governo do estado colocou à disposição um avião da FAB para trazer os bombeiros. O repórter Esso noticiou o caso com destaque. Segundo o padre Aristheu Benedicto Ciryllo, um vento empurrou as chamas para o lado oposto do reservatório de combustível. Os populares rezavam próximo do acidente e viram no episódio uma interferência divina que teria evitado catástrofe maior, caso as chamas atingissem o depósito.
Padre Aristheu Benedicto CirylloApós sete horas de intensos trabalhos para controlar o fogo, os bombeiros encontraram nos escombros do último vagão — que levava uma mudança — uma caixa de madeira com a estátua de Nossa Senhora da Aparecida enrolada em panos. Ela estava intacta. “Não vejo milagre, mas acolhemos a interpretação religiosa do povo que deu ao fato uma proteção de Nossa Senhora”, diz o padre do santuário que leva o nome da santa. “Foi um momento de muita emoção quando encontram a imagem”, lembra o padre. Atribuiu-se à ajuda divina o vento soprar em sentido oposto ao acidente, conta Orlando Albano, 79, que presenciou o incêndio e trabalhava na época na antiga fábrica de óleo da Sanbra. Muito religioso, Albano todo ano vai à missa em homenagem à santa.
Sumiço — Mas o misticismo ganhou corpo após o sumiço da imagem durante pelo menos seis anos. O santuário demorou para ser construído pelos fiéis.
A imagem, após ser retirada dos escombros do que restou do vagão de carga, foi reivindicada pelos bombeiros para levá-la para o quartel em São Paulo.
Pela comoção que causou o acidente, populares pediram para que a imagem fosse deixada no município. Os bombeiros entregaram a Santa para o prefeito Domingos Camerlingo Caló, que a destinou ao hospital de Luiz Monzillo. Devido à freqüente presença de pessoas no local, a imagem foi transferida para a capela da residência das irmãs do Colégio Santo Antonio e depois para a igreja matriz de São Bom Jesus.
O obelisco na rotatória da avenida Gastão Vidigal com rua José JustinoEm 1968, por influência do Conselho Vaticano II, que fez profundas mudanças nos ritos da igreja católica, o vigário Arnaldo Beltrame decidiu retirar as imagens de santos que havia no altar. Ele doou a estátua.
A santa desapareceu de Ourinhos nesse período. Desde o acidente havia um movimento popular a favor da construção do santuário para guardar a imagem. O pároco da igreja matriz São Bom Jesus, Osvaldo Violante, iniciou a campanha para localizar a imagem em 1978, quando foi formada a comissão pró-construção da capela. O terreno foi adquirido nas proximidades do bairro onde ocorreu o acidente, no conjunto habitacional Costa e Silva. Nessa ocasião Violante mobilizou rádios e jornais para encontrar a estátua. E ela finalmente foi localizada na residência de Jean Nicolau, em Ipaussu, que a devolveu a Ourinhos.
Na época foi organizada uma carreata, segundo padre Aristheu, com mais de 1.000 veículos no trajeto de Ipaussu até Ourinhos. A imagem retornou à matriz São Bom Jesus enquanto estava sendo construído o santuário — ficou lá até 1979. Com a instalação da Diocese em março de 1990, o bispo Dom Salvador Paruzzo incentiva a devoção à Nossa Senhora Aparecida elevando a capela à condição de Santuário Diocesano em missa campal.
A imagem está guardada num altar protegida por uma caixa de vidro. Na parede da igreja há um quadro com recorte do jornal que noticiou o acidente em 1954. O santuário tornou-se paróquia em 12 de outubro de 2001, transformando-se num centro de romaria.

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