| Caderno-D |
ARTIGO
Dabliú
Pimentel
Da Equipe de Colaboradores
Por mais intransponíveis que sejam as barreiras, o amor sempre as vencerá
O dia naquele dia, amanhecera
diferente de tantos outros dias! Nele, nem sequer havia o ar bucólico
do campo e nem mesmo o aroma perfumado das flores campestres,
que se fizera presente em tantas outras manhãs. Naquele
dia algo diferente acontecera! Alguma coisa estava fora de lugar
ou não se amoldara como dantes àquela paisagem!
O movimento na casa, que sempre começara ao primo canto
do galo, principiara mais cedo, a revelia dele, que assustado,
ensaiou cantar, mas preferiu silenciar como se antevisse que algo
grave acontecera!
A mãe acordara com uma angústia incontida, contendo
uma sensação tão estranha que ela mesma não
sabia definir bem ao certo o que era.
A sua primeira reação como uma intuição
materna, foi correr para o quarto da filha mais nova. Mais uma
vez não falhara na sua intuição,a cama estava
só, vazia, intacta no seu arranjo, com todos os seus sonos
e sonhos, como se ninguém, ali tivera passado a noite!
Onde estaria ela? Que acontecera? Perguntava a mãe,
desesperada, a si mesma. Na noite anterior ela deitara-se cedo,
como de costume. É certo que não lera à tênue
luz do lampião o seu livro de cabeceira, como o fazia cotidianamente!
Onde teria ido a linda e jovem donzela?!?
A notícia, com pernas longas, de largos passos, diferentemente
da mentira, correra por todos os recantos do Bairro do Igapó!
Aparentemente não havia nenhum motivo que pudesse levá-la
a fugir de casa! Era bem tratada, querida por todos! Que passara
com ela? Nada levava a conclusão alguma! A noite foi chegando!
O Bairro do Igapó, palmo a palmo já havia sido vasculhado!
Todos os seus cantos e recantos haviam sido rigorosamente inspecionados!
Nada foi encontrado!
A noite veio aflita e com ela a interminável agonia da
espera! Será que ela voltaria? E as notícias, onde
estão as notícias! Mil pensamentos! Mil suposições!
Nada que pudesse esclarecer!
Menina pubescente, nos seus 15 anos, ela o conhecera em uma festa
de São João, entre danças e fogos de artifícios
que confundiam as estrela em um misto de fumaça e trêmulas
luzes, vasculhando os céus! Trocaram olhares comprometedores,
tornando-os também cúmplices desse grande amor!
Ele também jovem, não tinha mais que 16 anos e da
mesma maneira que ela era filho de um pequeno proprietário
rural, o mais velho de seis irmãos, era ajuda sempre certa
para o pai, na lida da roça.. Avizinhados nas propriedades,
no Bairro do Igapó, ambas as famílias tiravam da
terra o suado sustento, no plantio da soja, do milho e do feijão.
Algumas cabeças de gado serviam para dar-lhes o leite e
permitir fazer queijo, manteiga, não só para o próprio
consumo, mas também para vender a sobra no mercado da cidade.
Encontraram-se depois daquele dia, às escondidas muitas
outras vezes. Fizeram juras e promessas de amor eterno. A vida
para eles era como uma fantasia que vestiam juntos e tudo era
e deveria ser como eles pensavam. Tudo daria certo, nada impediria
a felicidade a dois. Os pais, principalmente os dela, não
poderiam ficar sabendo, afinal de contas ela era uma menininha
e não tinha idade para essas coisas. E aquele namoro cada
vez mais alimentado pela chama incontida do amor já estava
difícil de passar sem ser notado.
O tempo correu! Um dia o amor secreto dos dois foi revelado!Os
pais descobriram! Proibiram-na de encontrar com ele! Ainda era
muito cedo para ela pensar em namoro e muito menos em casamento,
como insinuaram os pais, nas vezes em que o tema vinha à
mesa.
Onde estaria ela, indagava o pai, a mãe, a irmã
mais velha e o bairro todo!
Até que alguém veio com a notícia de que
ele também havia sumido de casa! Voltara da roça,
deitara-se cedo e, como deitara, não amanhecera. O mistério
estava sendo desvendado!
Os dois fugiram! Disse alguém com mais ousadia,
deixando escapar a terrível verdade!
Amavam-se e queriam se casar e, por certo os pais, principalmente
os dela, não permitiriam tão prematura decisão.
Na verdade, nada tinham contra o bom pretendente, mas não
era do gosto dos pais que ela se casasse naquela idade, tão
novinha, no limiar dos seus 15 anos, uma criança ainda!
Quinze anos! Dezesseis anos! Utopia! Sonhos! Bobagem! Infantilidade!
É jogar a vida fora tão precocemente! A vida tem
que ser vivida! Livre! Solta!
Compromisso sério, dessa natureza é para gente grande,
com muito juízo!
Que fariam tão jovens assumindo o sério compromisso
de constituir uma família? Era a pergunta que angustiava
aos pais!
Muitas vezes sentada na varanda da casa, absorta em seus pensamentos
ela ensaiara várias vezes como obter o consentimento dos
pais? Falar de vez que gostava dele e com ele iria se casar! Mas,
com certeza não seria levada a sério!
Coisas de adolescente! Por certo comentaria a mãe,
com o marido, entre um alumiar e outro da chama da lamparina roçada
vez ou outra pela teimosia da brisa.
Aquele dia fora longo e interminável, passado à
dor de mãe e pai. No coração um misto de
arrependimento e culpa tomou conta da mãe, quando a viu
de volta a casa, entrar cabisbaixa, mas com uma incontida alegria
dentro de si. Agora a permissão para casar com ele, com
certeza seria dada pelos pais! Fugir com o namorado para se casar
era comum e corriqueiro naquele tempo e, também, a mais
eficiente e prática maneira de se obter a permissão
dos pais! Bastava um dia fora de casa com o namorado para a permissão
estar concedida!
O casamento havia sido marcado! A mãe, ainda trazendo dentro
de si aquele sentimento de culpa, triste, tirou da arca de madeira
o enxoval da filha, que no passar dos anos carinhosamente o fizera
para ela, ao longo do seu crescer, alimentando o sonho de vê-la
imaculada, seguir para o altar, como acontece com todas as moças
casadoiras, virgens, que pacientemente esperam tão esperado
dia. Lavou peça por peça, engomou-as e se pôs
a passá-las uma a uma, como a desfazer-se de um compromisso
que assumira.
A mesma mesa que sempre servira para as refeições,
servia também agora, para passar roupa e a mãe inconsolável,
ali ao lado das peças do enxoval, chorava lágrimas
de um sonho destruído!
Havia um silêncio mudo no ar! Um pequeno pente sobre a mesa
servia para desembaraçar os negalhos de linha que adornavam
as toalhas, servindo-lhes de enfeites; a mãe, em um gesto
de carinho extremado, acariciava-os, como se penteara os longos
e loiros cabelos da própria filha antes de ir para o altar.
Na solidão de seus pensamentos, somente o ferro aquecido
à brasa, deslizava suavemente por sobre a alvura do pano,
que amparavam as lágrimas ali caídas em forma de
dor, dor de mãe, dor sentida, e a cada ir e vir da prancha
de ferro aquecida, transformavam-nas em pequenas nuvens de vapor,
que subiam inconseqüentes e desnorteadas, como se todo o
lindo sonho de uma mãe ali se esvaísse, nada mais...
Dabliú Pimentel é o pseudônimo do advogado
santa-cruzense Walnei Benedito Pimentel, colaborador deste jornal.
dabliupimentel@tdkom.com.br