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Hercílio Lorenzetti
viveu em Hollywood, conviveu com grandes atores e estrelou vários
filmes
Ator
de cinema ou um pacato chefe de família de Santa Cruz do
Rio Pardo? Este dilema acompanhou o fazendeiro Hercílio
Lorenzetti durante muitos anos, até que ele se decidiu
pela segunda opção, contrariando a escolha que certamente
a maioria teria feito. Porém, Hercílio não
se arrepende: teve tempo suficiente para descobrir o cinema, fez
pontas em filmes nos principais estúdios norte-americanos
na década de 40 e foi o ator principal em pelo menos três
longa-metragens brasileiros dos anos 50.
Difícil imaginar que este ex-comissário de menores
conviveu com vultos do cinema mundial como John Wayne,
Antony Quin e Carmem Miranda e foi amigo pessoal de Cary
Grant. No Brasil, conviveu com Lima Duarte e foi amigo de Nair
Bello. Mas este passado artístico ainda é forte
e emociona o filho de Plácido Lorenzetti fazendeiro
que nos anos 30 e 40 formou uma das maiores fortunas da cidade
cultivando algodão. Hercílio queria ser engenheiro
de aviação, mas o lado artístico o perturbava
desde a adolescência. Em São Paulo, em vez de estudar,
fazia teatro e chegou a estrelar um filme Maconha
nos anos 40, uma obra que já advertia a sociedade
sobre os malefícios da droga. Após o fim da Segunda
Guerra, resolveu cursar Engenharia nos Estados Unidos, instalando-se
perto de Hollywood. Daí para a convivência com os
grandes astros do cinema mundial foram alguns passos. E o curso
de Engenharia? Desisti. Acabei no cinema que, afinal de
contas, também é uma engenharia, conta, sorrindo.
Porém, Hercílio não esconde que o fim da
carreira artística teve um bom motivo: Vera Ranke Lorenzetti,
com quem é casado há 44 anos e tem quatro filhos.
Afinal, ele admite que conciliar a carreira artística com
a família é praticamente impossível. Que
o digam os artistas de hoje, que colecionam casamentos ao longo
da carreira.
Quando estava nos EUA, Hercílio admite que tinha uma vida
cheia de mordomias, até com uma pitada de boemia. Cruzou
o país, acompanhou filmagens no Hawaí e matava a
saudade do Brasil saboreando, aos sábados, feijoada na
casa de Zé Carioca brasileiro que fazia
a voz do Pato Donald nos filmes de Walt Disney.
Nos anos 90, Lorenzetti foi homenageado pela prefeitura com seu
nome eternizado na Calçada da Fama, numa noite
em que a cidade pôde assistir um de seus grandes sucessos:
Da Terra Nasce o Ódio. Uma cópia da
película, aliás, Hercílio guarda a sete chaves
em sua casa, rodeada de verde, onde vive com a mulher e os filhos.
Aqui estou no paraíso.
D mais O senhor nasceu em Santa
Cruz do Rio Pardo?
Hercílio Lorenzetti Nasci aqui mesmo,
no Largo de São Benedito. Nasci numa casa onde hoje está
situada a Farmácia do Valmi. Era pequena, pois éramos
pobres. Papai era torrefador de café e não tinha
posses. Depois é que ele fez fortuna. Na verdade, papai
foi muito trabalhador e quando tornou-se sócio do tio Zé
Rosso pai do Aquino , começou a progredir.
Eles montaram uma máquina de arroz lá pelos lados
do Buracão e depois papai construiu uma rudimentar
máquina de algodão. Era uma coisa meio maluca, mas
quem viu disse que era coisa de gênio. Depois eles separaram
a sociedade e cada um foi para seu lado.
D mais E continuou enriquecendo?
Hercílio Sim. Teve uma época em
que muitos ingleses visitavam o Brasil. E vários ficavam
em casa. Um deles, de nome Max, um dia disse para meu pai: Por
que o senhor não compra uma máquina própria
de algodão? Meu pai foi direto: Ora, porque
não tenho dinheiro. O inglês, que ficou muito
amigo do meu pai, disse que ia dar um jeito. E um belo dia papai
recebeu a notícia de que uma máquina de algodão
estava desembarcando no porto de Santos, em seu nome. Era do inglês,
que enviou uma máquina da Inglaterra.
D mais Veio de graça?
Hercílio Não, era para ser paga
a prestação. Papai ficou assustado, dizendo que
nunca ia conseguir pagar aquilo. Dois anos depois, estava tudo
pago. Ele já tinha algumas terras, comprou outras e resolveu
arriscar plantando algodão. Contratou japoneses
grandes lavradores e o horizonte de todas as fazendas ficou
branco de tanto algodão. Ele teve muita sorte, inclusive
contratando um corretor de primeira para fechar negócios.
Aí ele só subiu.
D mais Seu pai, o Plácido Lorenzetti,
sem dúvida foi uma das maiores fortunas de Santa Cruz.
Parece até que ele chegou a doar um avião para o
aeroclube da cidade...
Hercílio
Foi sim. Essa história do avião é
até curiosa, pois o Nagib Queiroz outro fazendeiro
rico de Santa Cruz pretendia doar um avião para
o aeroclube na década de 40. Pois papai já era rico
e disse: Se é assim, também vou doar.
E eles acabaram doando dois aviões, o que foi uma coisa
fantástica para uma época em que Santa Cruz do Rio
Pardo era uma cidade muito boa. Aliás, ainda é...
D mais O casarão da sua família,
na praça da Igreja Matriz de São Sebastião,
é um ícone daquela época. O senhor se lembra
da construção?
Hercílio Aquela construção
foi inspirada num imóvel semelhante que papai viu em Santos,
durante uma viagem para embarcar algodão. Ele virou maravilhado
com uma casa com a fachada mais ou menos igual. Eu estava junto
naquela viagem e papai até parou e pediu permissão
para o dono para conhecer o imóvel e tirar fotografias.
Já em Santa Cruz, contratou o Ettore Cortela na
época um dos grandes construtores de Santa Cruz do Rio
Pardo e pediu para projetar uma casa igual. Os melhores
pedreiros, marceneiros e carpinteiros participaram da construção
que começou no final de 1938. O prédio foi levantado
rapidamente e pouco mais de um ano depois nós já
estávamos morando lá. Na época, era a melhor
casa da cidade. Papai era metido a arquiteto e fez até
alguns detalhes em gesso e pinturas na parede.
D mais E até hoje é admirada...
Hercílio É verdade. Aliás,
até a prefeitura pediu o imóvel emprestado para
usar no Natal, totalmente decorado, como Casa do Papai-Noel. O
prefeito já estava bolando uma propaganda política,
mas nós não poderíamos negar o pedido de
uma autoridade. Porém, foi uma oportunidade para as pessoas
conhecerem a casa que hoje pertence à minha irmã.
D mais O senhor curtiu muito a casa na adolescência?
Hercílio Não muito, pois em 1941
fui para São Paulo estudar engenharia. Fiz o primário
e iniciei o ginásio em Santa Cruz, na antiga Escola Normal.
Arrumei uma bolsa de estudos e meu pai me deixou terminar o ginásio
na capital.
D
mais Foi lá que surgiu a vocação
para o cinema?
Hercílio Talvez. Eu comecei a trabalhar
em teatro com um grupo de amigos. Me empolguei e algum tempo depois
fizemos um filme: Maconha. Era uma obra que retratava,
já na década de 40, o problema das drogas. Foi um
bom filme e até a polícia gostou. Aliás,
fizemos uma tomada no antigo Carandiru, onde enfrentamos um sério
problema que quase impediu a filmagem.
D mais O que aconteceu?
Hercílio Naquele dia havia fugido da
cadeia o famoso bandido Sete Dedos. Ele não
é do seu tempo, mas era muito perigoso e quando chegamos
ao Carandiru a polícia estava alvoroçada. O Sete
Dedos era o terror de São Paulo e Rio de Janeiro,
mas depois dizem que ele virou evangélico e se regenerou.
O diretor nem queria permitir a filmagem, mas depois de muita
conversa autorizou algumas tomadas. Até alguns presidiários
trabalharam no filme.
D mais O senhor fazia o papel de drogado neste
filme?
Hercílio O personagem usava drogas e
o filme foi uma mensagem sobre o mal que elas causam a qualquer
pessoa. Aliás, gostei do filme porque sempre fui contra
drogas. Em Santa Cruz, inclusive, cheguei a ser comissário
de menores e sempre alertei os jovens sobre o perigo das drogas.
Eu mesmo, apesar de viver no meio artístico, nunca provei
qualquer tipo de droga.
D mais Após o primeiro filme, o senhor
continuou fazendo teatro?
Hercílio Ah, sim. Nós tínhamos
uma vida voltada para a arte. Vivíamos no Teatro João
Caetano com nossas peças, mas depois resolvi viajar para
os Estados Unidos, pois eu precisava terminar o curso de Engenharia.
Eu era doido por mecânica de aviação. Meu
pai autorizou a viagem e lá fui eu...
D
mais O senhor se lembra do ano?
Hercílio Foi em março de 1946,
logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Viajei de navio,
desses costeiros, pois praticamente não havia outro meio
de transporte. A guerra acabou com os aviões e o navio
era o transporte mais adequado. Fui com um grupo de amigos e tomamos
um trem na Flórida, Sul dos Estados Unidos, e durante dias
atravessamos o país. Era um trenzinho bem vagabundo. Quando
cheguei ao meu destino, o pessoal da Engenharia já estava
me esperando. Os Estados Unidos eram bem organizados, tudo perfeito.
Só estragou agora com o Bush...
D mais O senhor já pensava em seguir a
carreira de ator?
Hercílio Sinceramente não. Queria
mesmo era ser engenheiro de aviação. Fui desenhista
de fuselagem e trem de aterrissagem de avião numa cidadezinha
perto de Los Angeles. Eu falava muito pouco o Inglês, mas
conseguia me comunicar bem com os americanos. No entanto, encontrei
muitos brasileiros na escola de engenharia e até belgas
que falavam português. Aí comecei a conhecer pessoas
do meio artístico e voltei a me encantar com o cinema.
Encontrei, por exemplo, o Orlando Figueiredo, um grande amigo,
que sempre insistiu em dizer que o desenhista Péricles
havia se inspirado nele para criar o personagem Amigo da
Onça. E ele era realmente a cara daquele desenho.
D mais Mas e o cinema?
Hercílio Eu estava nos Estados Unidos
para estudar, mas o lado artístico incomodava. Um dia um
amigo do curso de Engenharia me disse: Hercílio,
você está no lugar errado. Deveria estar fazendo
cinema. Eu insisti que deveria terminar o curso, mas esse
meu amigo era ligado a estúdios de cinema e me levou até
lá. Era a segunda metade da década de 40 e comecei
a fazer grandes amizades, como o Zé Carioca (que fazia
a voz do Pato Donald nos desenhos dos estúdios Disney),
Dick Farney, Augusto do Pandeiro, Milton Paz, Laurindo (o maior
violonista do mundo, que morreu há pouco tempo) e outros.
Criamos uma turma muito unida, pois estávamos sempre juntos.
Conheci a Carmem...
D mais Carmem Miranda?
Hercílio Sim, ela era fabulosa. Comecei
a viver intensamente com artistas de cinema e músicos.
Eu era, talvez, o único caipira no meio deles. Conheci,
por exemplo, o Stan Kenton e sua orquestra, cujos integrantes
eram ligados ao Orlando Figueiredo, aquele amigo da onça.
E certa vez o Orlando quis me levar ao Hawaí, para uma
filmagem, mas não havia nenhuma vaga de trabalho. Então
ele disse: Você vai segurar a partitura da orquestra.
E eu fui. Afinal, era boemia pura e nós adorávamos
tudo aquilo.
D mais E o senhor chegou a participar de alguns
filmes?
Hercílio
Fiz pontas, papéis sem importância. Mas eu
aprendi muito com o pessoal de Hollywood, principalmente na Paramont.
Eu via tudo aquilo e fui aprendendo o be-a-bá
do cinema, sonhando em aplicar todos esses ensinamentos no Brasil.
O Cary Grant, por exemplo, foi um grande amigo meu. Muitos ainda
não tinham alcançado o estrelado, como o Antony
Quin, que ainda sequer havia se casado com a filha do Cecil B.
de Mille. Aliás, o Antony Quin foi outro grande amigo que
tive naquela época pois, apesar de ser de Nova Iorque,
era descendente de mexicanos e falava espanhol. Então,
a comunicação entre nós era boa. Tornou-se
um grande ator, talvez um dos maiores. Mas eu conheci tanta gente
que fica difícil lembrar de todos.
D mais Antes da entrevista o senhor se lembrou
do John Wayne, um dos grandes atores do cinema de faroeste.
Hercílio Ah, sim. O Wayne fazia filmes
do gênero que eu adorava, o faroeste. Aliás, no Brasil
aplicamos esse gênero nos filmes que produzimos. Este tipo
de produção eu adoro e faço brincando. Mas,
voltando aos Estados Unidos, eu estava encantado por Hollywood.
Aliás, muita gente pensa que Hollywood é um amontoado
de estúdios, mas é, na verdade, uma grande cidade.
Os estúdios gigantes estão todos espalhados
por lá, como a Paramont, a Fox, a Metro. O Disney, por
exemplo, já tinha seu estúdio, mas a Disneylândia
ainda não existia.
D mais E não dava saudades do Brasil?
Hercílio Muita. Mas eu não via
a hora de chegar o sábado para nos reunirmos na casa do
Zé Carioca [o compositor José de Oliveira, que fazia
a voz do personagem de Disney no cinema]. Ele providenciava uma
feijoada no capricho e reunia os amigos. Aliás, nem precisava
convidar porque todos nós já sabíamos que
sábado era dia de feijoada na casa do Zé.
D mais E durante a semana, a vida se resumia
nos estúdios...
Hercílio Eu vivia dentro dos estúdios
e aquele era meu mundo. Estava num mundo que sempre sonhara. Eu
acompanhava as filmagens e certa vez o Cary Grant me disse: Vocês
gostam tanto de cinema que precisam trabalhar. E aí
começamos a fazer pontas em alguns filmes. Nossa vida era
maravilhosa e cheia de mordomia. Conheci o Walter Pídio
que sempre nos levava ao restaurante do Henry Armeta, nas proximidades
do Hollywood Bolevart, e pagava tudo. Era chegar, cumprimentar
o Armeta e o Walter dizer: Senta aí, meninada.
Nós sentávamos e ele pagava tudo.
D mais Que tipo de figurante o senhor fez em
filmes norte-americanos?
Hercílio De todo tipo. Ganhava pouco,
mas me divertia. Em Hollywood fiz até papel de índio,
vestido e pintado a caráter. E tinha de saber andar a cavalo.
D mais E nunca se machucou?
Hercílio Muitas vezes, mas tudo era divertido.
É claro que aprendemos até a cair do cavalo, mas
em cenas mais arriscadas eles colocavam um dublê profissional.
Mas o curioso é que muitas vezes fiz o papel de índio
ao lado de índios de verdade, pois eles recrutavam essas
pessoas do Arizona e outros Estados do Sul. Aliás, era
o local onde os estúdios filmavam filmes de faroeste e
aquilo rendia um bom dinheiro para as tribos de verdade.
D mais E como o senhor se comunicava com a família
em Santa Cruz?
Hercílio Por carta ou às vezes
por telefone.
D
mais Mas por telefone devia demorar dias para completar
uma ligação...
Hercílio Não, pois eu fazia a
ligação dos Estados Unidos, que já estava
avançado naquela época. Quando conversava com meu
pai, ele sempre dizia que queria voltar para a Itália.
Acho que eu deveria ter ido...
D mais Mas, afinal, o senhor concluiu o curso
de Engenharia nos EUA?
Hercílio Terminei nada. Acabei no cinema
que, afinal de contas, também é uma engenharia.
No cinema, é preciso ter muito cuidado com todos os detalhes,
caso contrário acontecem erros grotescos. Eu já
vi filme da época do Império Romano em que um figurante
está com relógio de pulso. E isto acontece muito
no cinema.
D mais E como o senhor voltou dos Estados Unidos?
Hercílio Só voltei porque minha
mãe ficou gravemente doente. Fiquei uns quatro anos nos
Estados Unidos, mas um dia eu estava em New Orleans e o Silva
Teles, um amigo, me alertou: Hercílio, tem um recado
urgente: sua mãe está muito doente. Na hora
providenciei meu retorno de navio e olhe que quase que
não chego vivo ao Brasil...
D mais Por que?
Hercílio Pegamos um mar revoltoso e o
navio balançava muito. Aliás, nem sei como não
ficamos para os tubarões, pois enfrentamos três dias
e três noites de uma tempestade muito forte. Para se ter
uma idéia, os peixes caíam dentro do navio e até
das cabines. A viagem demorava uns 12 dias, mas durante três,
nas proximidades do Caribe, aquela tormenta quase afundou o navio.
Mas, enfim, acabamos chegando ao Brasil.
D mais De volta ao país, o senhor continuou
fazendo cinema?
Hercílio O cinema não saía
mais da minha cabeça. Aqui, fiz alguns filmes, como Da
Terra Nasce o Ódio e Fugitivos da Vida.
D mais Da Terra Nasce o Ódio
foi exibido em Santa Cruz nos anos 90, quando o senhor foi homenageado
na Calçada da Fama.
Hercílio Este foi um bom filme que fiz
com meu amigo Maurício Morey. Aliás, eu tenho uma
cópia guardada, em película mesmo. O Fugitivos
da Vida eu fiz com meu amigo Peinado Garcia e durante as
filmagens sofri até um acidente. Em uma das cenas, acabei
caindo e quebrei o tornozelo.
D mais As filmagens foram adiadas?
Hercílio Não. O cinema não
pode parar, pois isto significa prejuízo na certa. Enfaixei
o pé e continuamos as filmagens. A dor era grande, mas
o filme precisava ser concluído.
D mais Aliás, há vários
filmes inacabados no Brasil. Um deles é com o ator Grande
Otelo... E hoje estão pensando em dar continuidade a este
filme, de alguma forma.
Hercílio Pois é. Quando isso acontece,
é muito triste. Na época em que me feri nas filmagens,
o pessoal se reuniu e me perguntou: E agora? Você
agüenta continuar. Eu sabia que não podia dar
prejuízo e resolvi continuar. Não foi brincadeira!
D mais Parece que, além do papel principal,
o senhor foi o autor do argumento no filme Fugitivos da
Vida.
Hercílio É verdade. O diretor
foi o Máximo Esperandio, que já morreu. Enquanto
Da Terra Nasce o Ódio era uma trama pela disputa
de terras, Fugitivos da Vida contava a história
de uma prostituta que vivia perambulando pela vida. Seu bem mais
precioso era um colar de diamantes, que lhe foi roubado e o vilão
da história era interpretado pelo Peinado Garcia. O filme
foi muito bem feito, com cenários de boates e o sertão
árido do Brasil. O Valdir, nosso cenarista, construiu um
boteco típico do sertão, que ficou muito bonito.
D mais Também era estilo faroeste?
Hercílio Era. O faroeste é um
estilo que gosto e até me emociono quando vejo um cenário
bonito ou um cavalo empinando. Me lembra os velhos tempos.
D mais As filmagens eram muito demoradas?
Hercílio Mais ou menos. O Fugitivos
da Vida, por exemplo, fiz em quatro meses. O lado bom é
que o filme era muito barato, pois havia muita improvisação.
Certa vez um amigo me levou para a Record, para dar entrevista
sobre o filme, e falei sobre os custos da obra. E eles não
acreditavam. Não pode ser!, diziam. Mas era
verdade, embora nossa luta fosse muito árdua. Ficávamos
dias no meio do mato, comendo marmita que levavam de camionete
e dormindo muitas vezes ao relento. Mas havia cenários
maravilhosos. No Fugitivos da Vida, por exemplo, filmamos
num local muito bonito, que apelidamos de garganta do diabo.
Tinha cáctus, pedras, montanhas e muitos bichos silvestres,
principalmente siriemas.
D mais Dá para imaginar a dificuldade
de fazer cinema naquela época, pois hoje existe a Lei Rouanet,
que permite investimentos privados em obras cinematográficas.
Hercílio Ah, naqueles tempos não
existia nada disso. Era preciso botar dinheiro do bolso e torcer
para dar bilheteria. E nós tivemos sorte, pois felizmente
nossos filmes deram público. Da Terra Nasce o Ódio,
por exemplo, foi um estouro na época e deu lucro. Nós
lançamos o filme em 1954 e a Vera Cruz naquela época
já estava balançando financeiramente. O avant-première
ocorreu no Art Palácio e o pessoal da Vera Cruz ficou admirado.
Um diretor do estúdio, inclusive, chegou a desabafar: Como
pode essa rapaziada fazendo cinema dessa qualidade e nós
afundando desse jeito? Mas os estúdios brasileiros
ainda ganhavam dinheiro com as velhas chanchadas estreladas por
Oscarito, Grande Otelo, Ankito e outros.
D mais Qual o seu filme preferido?
Hercílio Da Terra Nasce o Ódio.
Este foi um filme que deixou saudades em todos que participaram
daquela produção. O Maurício Morey, por exemplo,
trabalhou como ninguém naquela obra. Foi, enfim, um filme
de qualidade.
D mais Mas o senhor acabou abandonando tudo para
ficar em Santa Cruz. O que houve? Foi a dona Vera [Lorenzetti,
esposa de Hercílio]?
Hercílio Foi. Nós nos casamos,
tivemos filhos e era muito difícil conciliar a família
com as filmagens. Afinal, imagine só partir, por exemplo,
para Pernambuco e ficar dias fora de casa e longe da mulher e
dos filhos. Era preciso fazer uma escolha e eu fiz a minha. Um
dia o Johny Herbert esteve em Santa Cruz com uma peça de
teatro e me fez um convite: Vamos embora, você vai
tomar conta da Vera Cruz, que está abandonada. Eu
recusei a proposta e resolvi ficar em Santa Cruz.
D mais Mas o senhor deve ter saudade daquela
época...
Hercílio Nossa Senhora! Muita saudade.
D mais O senhor também foi amigo de atores
de televisão e viveu o início da TV no Brasil, com
Assis Chateaubriand. Não quis seguir carreira na TV?
Hercílio Os grandes atores da televisão
vieram do rádio, como o Lima Duarte, que também
tornou-se meu amigo. Eu me lembro da grande preocupação
dos atores com a chegada da televisão no início
dos anos 50 [com a inauguração da TV Tupi, de Assis
Chateaubriand]. O Lima Duarte, por exemplo, fazia radionovela
e achava que a TV ia acabar com o rádio e com o cinema.
E na verdade, de certa forma a televisão acabou com o cinema
durante um bom tempo. Os grandes estúdios de cinema praticamente
desapareceram, como a Vera Cruz, a Maristela, a Monte Filmes.
Todos sumiram de uma hora para a outra. Só recentemente
o cinema brasileiro está voltando às telas. Aliás,
até o cinema norte-americano enfrentou uma crise financeira
sem precedentes, pois muitos atores passaram a agir como hoje
fazem os jogadores de futebol, exigindo quantias fabulosas para
estrear um filme. Não há estúdio que agüente!
D mais O senhor sempre trabalhou como ator nos
filmes?
Hercílio Não, participei de várias
etapas do cinema. Fui técnico e só não dirigi
um filme, apesar ter sido convidado por um amigo para dirigir
Chão Bruto. [Posteriormente, em 1976, este
filme foi dirigido por Dionísio Azevedo e estrelado, coincidentemente,
pelo santa-cruzense Umberto Magnani Neto]. Na verdade este meu
amigo o Amaro, já falecido queria mesmo era
morar em Santa Cruz, pois ele se apaixonou por uma chácara
aqui da cidade. Aliás, muitos outros atores se encantaram
com Santa Cruz, como a Maria Stela Barros e outros da Rádio
Bandeirantes, onde também trabalhei algum tempo.
D mais Não existia ainda a TV Bandeirantes?
Hercílio Não. A primeira emissora
foi a Tupi e depois vieram a Record e a Excelsior. Eu tinha uma
grande amiga na Excelsior, que é a Nair Bello hoje
personagem da Globo no programa Zorra Total. Aliás,
trabalhei com a Nair na Bandeirantes e é uma grande pessoa.
Apesar de todas essas amizades, preferi ficar em Santa Cruz, cuidando
de minha família e cultivando minhas lavouras. Sou amante
da natureza e agradeço a Deus pela vida que tenho. Aqui
estou no paraíso.