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R$ 141.787.000,00:
A FORÇA DA AGRICULTURA

Santa Cruz tem atualmente 1.477 propriedades agrícolas: a maior parte (62%) é conservada por mini e pequenos produtores rurais



O engenheiro agrônomo da CATI, José Cassiano Vidor: Santa Cruz tem culturas diversificadas que rendem ao município quase R$ 142 milhões por ano
Os números impressionam e confirmam de vez a vocação de Santa Cruz do Rio Pardo. De acordo com o censo realizado em 2000, o município tem 1.477 propriedades agrícolas, sendo 62% de mini e pequenos produtores rurais. Segundo dados da Casa da Lavoura, só no ano passado a produção agropecuária contabilizou R$ 141.787.000,00. Nenhum outro segmento alcançou cifras tão expressivas, comprovando que a cidade vive, de fato, em função da agricultura.
Na década de 40, o algodão e o café eram as culturas que mais se destacavam na região. Nos anos 60, outras lavouras começaram a se destacar: a cana-de-açúcar, o milho, o feijão, a melancia e o amendoim. A atividade agrícola nos anos 70 e 80 foi marcada pelo crescimento do café (15 milhões de pés) e também pela introdução da soja nas áreas de plantio.
Desde o começo da década de 80 até os dias de hoje algumas mudanças importantes ocorreram em Santa Cruz. O café, por exemplo, deixou de ser o carro-chefe da economia agrícola para dar espaço à soja. Outras culturas se firmaram na região, comprovando a excelente qualidade da terra e um solo rico que produz boas safras de soja, cana, milho, café, laranja, mandioca, melancia, abóbora, arroz, feijão e algodão, entre outras culturas.
“De fato, a agricultura em Santa Cruz do Rio Pardo é bastante diversificada. Além das culturas de soja, milho e cana-de-açúcar que ocupam áreas maiores, o município conta também com os legumes e hortaliças produzidos em estufa”, afirma José Augusto Cassiano, engenheiro agrônomo da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), órgão da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Hoje, por exemplo, a cidade tem 700 estufas que produzem pimentões, tomates e pepinos. Segundo Cassiano, a maior parte desta produção vai para o Ceasa em São Paulo.
Além do aperfeiçoamento de tecnologias no campo, o crédito rural também tem ajudado muitos agricultores. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) tem comprovado resultados bastante positivos. “Hoje mais de 450 produtores são atendidos por este projeto”, explica Cassiano. Ele conta também que Santa Cruz do Rio Pardo é o segundo município do Estado de São Paulo em número de pessoas beneficiadas pelo Pronaf.

Aparecido de Oliveira levanta às 4h, cuida da horta e de manhã coloca seus produtos nas gôndolas de sacolões e supermercadosCana-de-açúcar e milho

As lavouras de cana-de-açúcar ocupam uma área de 15.300 hectares em Santa Cruz. A produção anual chega a 1.224.000 toneladas. O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Esta lavoura mobiliza 15% da frota automotiva do país e os produtores voltam a sonhar com os tempos em que 90% dos carros vendidos eram movidos a álcool. Só neste ano, a produção de cana deve aumentar 14%. E a venda de automóveis movidos a álcool vem aumentando gradativamente.
O mercado externo também apresenta boas perspectivas no setor, pois há uma crescente demanda pelos chamados “combustíveis limpos”. Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), o custo do álcool feito no nosso país — a partir da cana-de-açúcar — é um terço do custo do álcool de beterraba ou de milho produzidos em outros países. Eles apontam também que o custo de produção do açúcar brasileiro é o mais baixo do mundo.
O cultivo do milho ocupa uma área de 14.000 hectares no município de Santa Cruz do Rio Pardo. A produção anual chega a 1.050.000 sacas. De acordo com a Embrapa, o Brasil é hoje o terceiro produtor mundial de milho e consome 80% do que colhe na forma de óleo vegetal e ração para animais. Alguns produtores brasileiros, cujas lavouras contam com tecnologia de ponta, já conseguem concorrer de igual para igual com os americanos. Como nos Estados Unidos, os maiores produtores tendem a utilizar grande parte de suas safras para produzir álcool combustível. Um mercado em potencial é a China, tradicionalmente abastecida pelos agricultores americanos. O Brasil pode aumentar de 5% para 20% sua participação nas exportações de milho e, para isso, precisa elevar sua produção em 60%.

Soja: a salvação da lavoura

A soja deu um novo fôlego à agricultura em Santa Cruz do Rio Pardo, onde muitas áreas de pastagens estão dando lugar ao cultivo desta cultura. Hoje o município contabiliza 13.000 hectares de área de plantio. No ano passado foram produzidas 585.000 sacas de soja na cidade.
Só no ano passado o Brasil faturou 8,1 bilhões de dólares com a exportação de soja. Cerca de 70% das mais de 50 milhões de toneladas de soja produzidas no país são transformadas em farelo (o principal componente de rações para suínos e aves). O grão dá origem também a subprodutos utilizados pela indústria química na fabricação de adubo, fibras e adesivos. Nos supermercados é possível encontrar leite, sopa, molho, carne e até macarrão feito com soja.
Uma curiosidade é que a soja fixa o nitrogênio no solo e deixa vários nutrientes úteis a outras culturas. Segundo a agricultora Lurdes Mazzini, de Santa Cruz do Rio Pardo, a melhor safra de milho é aquela plantada logo após a colheita da soja, aproveitando-se a terra.
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a soja tem muitas propriedades nutritivas. Além de ser rica em proteína vegetal, tem ferro, cálcio e vitaminas, principalmente as do complexo B. Pesquisas científicas revelaram que o consumo diário de 25g de proteína de soja equilibra os níveis de colesterol no sangue e que as isoflavonas (um fitormônio presente no grão) têm efeito benéfico sobre a tensão pré-menstrual.

Tecnologia e o lavrador

O avanço da agricultura em Santa Cruz do Rio Pardo foi possível porque hoje o produtor rural conta com uma aliada essencial: a tecnologia. As máquinas que operam nas lavouras brasileiras passaram por mudanças surpreendentes. Há algumas décadas, por exemplo, uma colheitadeira conseguia colher no máximo 30 sacas por hora. Hoje os modelos mais sofisticados colhem em média 1.000 sacas por hora. Além desta diferença na velocidade, as máquinas têm cabine fechada, ar-condicionado e até proteção contra ruídos externos. Um conforto digno de automóvel de luxo. Antigamente, além do condutor, uma colheitadeira necessitava de um auxiliar para aparar, com sacos, os grãos lançados pela máquina. Hoje há o piloto automático e o condutor só aperta botões. Equipada com tanque para 9.000 litros de grãos, joga a soja diretamente na caçamba dos caminhões. As melhores máquinas contam ainda com computador de bordo, câmbio eletrônico e equipamentos que regulam o sistema hidráulico de acordo com o esforço requerido pelo terreno.
A tecnologia trouxe ao produtor rural a ferramenta precisa da produtividade. E não foi só isso. As cidades do interior cuja economia está ancorada na atividade agrícola despontam como exemplos de qualidade de vida e mostram-se prósperas em oportunidades de trabalho. Além disso, o aumento do poder de consumo de quem se dedica a uma atividade agrícola movimenta o mercado local e atrai empresas que geram empregos.

A luta diária do campo

Às 4h da manhã começa o dia do agricultor Aparecido de Oliveira em Santa Cruz do Rio Pardo. Depois de preparar as verduras que vão ser distribuídas nos sacolões e supermercados da cidade, ele mesmo entrega e comercializa seus produtos. Casado há 36 anos com Conceição Rossi de Oliveira, trabalha ao lado da mulher e do filho, Eder Ricardo. Diariamente Cido, como é conhecido pelos amigos, vende dezenas de maços de alface, rúcula, couve, repolho, brócolis, sem contar os tomates produzidos no sítio.
Quando alguém vê o produtor colocando as verduras na gôndola do supermercado nem imagina o trabalho que ele teve. Para oferecer ao consumidor uma alface vistosa é preciso cuidados especiais. Tirar o orvalho pela manhã (para que não queime as folhas), cuidar dos canteiros, molhar todos os dias no horário certo (pela manhã ou bem à tardezinha), preparar a adubação, combater as pragas, as ervas daninhas, proteger do sol forte e muito mais. O segredo da qualidade é a dedicação. “Neste trabalho não há fim de semana nem feriado, é de domingo a domingo”, conta Cido.
A vida deste homem não é diferente da maioria dos produtores rurais do país. Geralmente trabalhando em família, o agricultor brasileiro planta, colhe e investe na produtividade de suas lavouras e isto significa dedicação em tempo integral. Acompanhando o início da germinação, passando por todas as fases de crescimento até a colheita, ele ainda tem que driblar alguns inimigos que, se não forem devidamente eliminados, podem trazer sérios prejuízos à sua safra.
No caso da horta, Cido utiliza defensivos naturais para combater as pragas e pulgões que insistem em fazer morada nas verduras. “Eu uso a cinza, que é um produto natural”, explica. Com estes cuidados as hortaliças deste agricultor podem ser reconhecidas como produto orgânico. Esta é a denominação que se dá para frutas, legumes e verduras que são produzidos sem agrotóxicos. Um produto orgânico é 100% natural e muito melhor à saúde do homem. Por definição, o orgânico é também ecológico, para usar uma palavra da moda. Quando o agricultor ‘abre mão’ dos químicos e se preocupa com a fertilidade da terra (em vez de se ater apenas aos resultados da produção), ele está protegendo o meio ambiente.

Lurdes Mazzini teve que trabalhar na roça quando seu marido ficou doente: hoje tem 90 alqueires de terra cultivadaUma mulher de fibra

Em 1966, o marido de Lurdes Mazzini recebeu um diagnóstico médico que iria mudar para sempre a vida de sua família. Ele tinha um sério problema no coração, que o impedia de trabalhar. Era agricultor e precisava ter saúde para voltar ao batente. “Eu o colocava numa carroçinha, junto com as crianças, e então a gente ia pra roça. Lá eu pegava na enxada, carpia, roçava, cuidava do que era nosso”, lembra Lurdes, hoje com 72 anos. “Assim foi durante dez anos, até o meu marido falecer”.
Emocionada, ela conta que enquanto cultivava a terra, o marido ficava recostado a uma árvore olhando os filhos menores. “Você vai conseguir, eu tenho certeza”, era o que sempre dizia à esposa. “Nós sofremos muito, principalmente meu menino mais velho, o Aparecido José”. Aos 14 anos de idade, ele era o braço direito da mãe na lavoura. “A única saudade que tenho desta época era a convivência com o meu marido”, relata Lurdes.
Em 1976, esta jovem agricultora e seus cinco filhos — Aparecido José, Divino José, Aldair José, Maria de Fátima e Vanderlei (este faleceu num acidente de carro em 1987, aos 22 anos) — começaram uma trajetória de muito trabalho, momentos difíceis, vitórias e conquistas. “Quando meu marido morreu, nós tínhamos cinco alqueires de terra. E nem era só nosso, pois havia uma sociedade com outras pessoas da família”. Com vocação para a agricultura, muita vontade de vencer e o apoio decisivo dos filhos, Lurdes foi aumentando a propriedade. “A gente arrendava um pedacinho de terra, trabalhava nela, e depois comprava”, conta.
Hoje a família Mazzini tem 90 alqueires. “O meu sonho é chegar nos 100”, diz Lurdes, orgulhosa. Além destas terras, ela e seus filhos têm 130 alqueires arrendados no cultivo da soja.
Nas décadas de 70 e 80 a família Mazzini cultivou lavouras de café, milho e trigo. Também tinha soja plantada, mas numa escala menor. “O cultivo do café é muito árduo para o trabalhador, é um serviço braçal, difícil. A soja é melhor, porque tudo é feito com máquinas”, explica. Apesar desta vantagem, Lurdes ressalta que trata-se de um cultivo caro, pois desde a semente até os produtos para preparar a terra são cotados de acordo com o dólar.
Ela lembra um fato interessante ocorrido há alguns anos. “Em 2000 eu estava desanimada com a soja, porque o que tínhamos faturado com a venda mal dava para pagar os custos do plantio”. Nesta época, seu sobrinho Davi Gonçalves foi visitá-la e incentivou-a. “A agricultura ainda vai salvar o país”, foram as palavras de Davi. Lurdes seguiu o conselho do sobrinho e hoje não se arrepende nem um pouco de ter continuado com a soja. “Este foi o nosso melhor ano”, explica.
O conselho de Davi se comprova nas estatísticas publicadas em jornais e revistas. E só agora o país se dá conta da força do campo. O Produto Interno Bruto (PIB) rural cresceu 5% no último ano. A agricultura e a pecuária respondem por 42% das exportações e por 37% dos empregos gerados no país. O Brasil, que já era líder mundial na exportação de suco de laranja, açúcar, café e tabaco, agora assumiu a liderança nos rankings da soja, do frango e da carne bovina.
Lurdes Mazzini é um bom exemplo de quem sempre acreditou na força da terra e dos seus frutos. O trabalho do produtor rural faz o Brasil colher safras cada vez maiores. “Sabe, eu não me considero uma mulher rica. Eu me considero muito feliz, porque Deus me deu uma família maravilhosa. A maior riqueza que alguém pode ter é a união da família”, afirma Lurdes.