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Cícero Ribeiro Júnior comanda a fábrica de botas São João, fundada pelo pai; no destaque, a bota usada durante cena de casamento na novela "Roque Santeiro"Uma bota com padrão "global"

Calçado produzido em Santa Cruz foi usado na novela ‘Roque Santeiro’


Num dos capítulos da novela Roque Santeiro, exibida pela Rede Globo em 1985, o personagem Sinhozinho Malta (vivido pelo ator Lima Duarte) senta-se numa poltrona, cruza as pernas e um carimbo no solado de seu calçado aparece no vídeo. “Na manhã do dia seguinte, muitos amigos começaram a ligar para dizer que tinham visto o carimbo da minha bota na televisão”, conta Cícero Ribeiro Júnior, proprietário da fábrica de botas São João, a “Loja do Cowboy”, uma das mais tradicionais de Santa Cruz do Rio Pardo. O carimbo que o Brasil inteiro viu era a sua marca registrada.
Antes de aparecer na TV, as botas já tinham chamado a atenção do ator Lima Duarte. “Ele era cliente de uma loja em São Paulo que revendia nosso produto”, conta Cícero.
O empresário também se lembra de uma bota branca, também fabricada em Santa Cruz, que Sinhozinho Malta usou para se casar com a viúva Porcina — a atriz Regina Duarte. “Quando o Lima apareceu usando uma bota branca, o marketing foi ainda maior”, afirma.
A ousadia de usar uma cor que não era convencional neste tipo de calçado fez aumentar a popularidade do produto. “Algumas pessoas da nossa região compravam suas botas nas melhores lojas de São Paulo. Com a novela da Globo, passaram a comprar aqui mesmo, em Santa Cruz”, exemplifica Cícero.
Depois de Roque Santeiro, as botas São João ainda calçaram os atores Cláudio Marzo e Adriana Esteves em outra novela da Globo, Coração de Estudante, exibida no horário das 18h.
“O modelo que o Cláudio usou era da linha country, mas num estilo mais tradicional”, conta Cícero.
Lima Duarte, como "Sinhozinho Malta", usa bota da São João em cena da novela "Roque Santeiro", da Globo, exibida nos anos 80.Muito antes do sucesso que fez na novela Roque Santeiro, as botas São João já podiam ser encontradas em todo o Brasil. Desde os anos 70, eram distribuídas do Rio Grande de Sul às principais cidades do nordeste.
A originalidade do produto também chamou a atenção dos italianos. Em 1999, durante a feira Couro Modas — considerada uma das maiores do setor no país — Cícero e outros profissionais da indústria calçadista foram convidados para participar de uma semana de estudos sobre uma possível parceria entre Brasil e Itália.
“Quando estávamos em Nápoles, ficou claro que a qualidade do nosso calçado não perde em nada para o europeu”, explica Cícero. “A mão-de-obra brasileira tem o mesmo perfil da italiana”, completa.
Hoje o município de Santa Cruz do Rio Pardo é considerado um dos pólos calçadistas mais importantes do estado de São Paulo — o Serviço Nacional da Indústria (Senai) classifica a cidade como o quarto pólo calçadista do Estado. Segundo Cícero, a instalação de uma escola do Senai será fundamental para melhorar ainda mais a qualificação da mão-de-obra na cidade.
Origem — No dia 2 de janeiro de 1959, Cícero Ribeiro e Célio Fernandes abriam uma pequena oficina de consertos. Dois anos depois, com o aumento da produção, resolveram mudar para um local maior, pois começavam a fabricar botinas. Ribeiro chegou a ser vice-prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo, de 1969 a 1972.
O lugar escolhido foi exatamente onde funciona até hoje a fábrica de botas São João, agora também “Loja do Cowboy”. “Os consumidores da época procuravam um calçado de boa qualidade, resistente ao dia-a-dia no campo”, comenta o filho do fundador, Cícero Ribeiro Júnior.
No começo da década de 70, a cidade de Franca, que sempre foi uma referência, deu início à modernização do calçado, que ganhou uma estrutura mais leve. “Foi nessa época que lançamos a linha de botas. Aproveitamos as características do nosso produto para fabricar algo com diferencial”, diz o empresário.
Segundo Cícero, as botas não tinham a leveza que o mercado exigia, mas sim a durabilidade que o público deste tipo de calçado procurava.
O período de maior expansão aconteceu entre os anos 70 e 80 — nessa época as botas São João já eram distribuídas pelo país inteiro.
Em 1992, com o fim da sociedade, Cícero Ribeiro Júnior lançava a linha country das botas São João e inaugurava também a Loja do Cowboy, no mesmo endereço. Agora, além das botas, pode-se encontrar uma infinidade de acessórios do gênero, como selas de passeio, laço e baliza; jeans e camisas, cintos, coletes de proteção, roupa de montaria, berrante e outros produtos.
Uma bota que faz muito sucesso é a fabricada com couro de avestruz que, com uma modelagem ousada, resume a última tendência country.
Outra novidade são as jaquetas e acessórios para motoqueiros. As botas de cano longo podem ser usadas para os passeios de motocicleta, por policiais ou por qualquer pessoa que goste de complementar o visual com um calçado de muito estilo.