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Elas não usam saias
nem ficam em casa fazendo doce, mas ainda gostam de mimar
os netos
Há sete anos, o escritor Ziraldo
descreveu em seu livro Vovó Delícia uma avó
moderna. Na visão do autor, as avós
de hoje já não são como as de antigamente,
que ficavam sentadas na cadeira de balanço, vestidas de
preto, fazendo crochê. Uma avó moderna é enturmada
tem muitos amigos , adora uma boa aventura e até
anda de motocicleta.
O que Ziraldo fez foi colocar no papel uma realidade que muitos
netos já sentem. Difícil mesmo hoje em dia é
achar uma avó que senta na cadeira de balanço, que
usa vestido comprido e que fica o dia todo em casa esperando os
netinho com os potes cheios de doces caseiros.
As avós do terceiro milênio, em primeiro lugar, são
muito mais jovens que suas antecessoras. Com a revolução
sexual da década de 60, as mulheres acabaram tendo filhos
ainda adolescentes, as gerações foram se aproximando
cada vez mais e atualmente é relativamente fácil
encontrar avós que estão apenas beirando os 40 anos.
Nessa faixa etária, muitas ainda estão na
ativa, a todo vapor.
Trabalhar, aliás, já faz muita diferença
para o conceito de avó. As avós de antigamente eram
donas-de-casa. Ficavam em casa naturalmente, cozinhando para os
filhos, os netos, para toda a família. Por outro lado,
as avós modernas, trabalhadoras, precisam estar sempre
antenadas no que há de novo no mundo. O próprio
mercado de trabalho as obriga a dirigir, fuçar
em aparelhos eletrônicos, usar telefones celulares e navegar
pela internet sem dificuldade. E mesmo com toda essa atribulação,
elas ainda arrumam tempo para ficar com os netinhos.
É o caso da cabeleireira Maria Júlia Andrade Consani,
a Julinha, que tem três netos uma menina e dois garotos.
Mãe de dois homens, Julinha recebeu muito bem a notícia
de que ia ser avó desejosa de ter uma menina, ficou
até ansiosa pela chegada da primeira neta. Sempre
tive certeza de que seria uma menina, conta.
A vida profissional de Julinha é movimentadíssima
afinal um salão não pára quase nunca.
O sábado, por exemplo, é um dos dias mais lotados.
Mas sempre tenho um horário para meus netos,
diz.
Quando possível, Julinha gosta de levar os três para
dormir em sua casa. Nessas horas, assume que gosta de ser uma
avó tradicional. Pararico, brinco, dou
presente, curto no último, garante.
Paparicar, aliás, parece ser algo instintivo de avó.
Amor de vó é diferente do de mãe. É
um amor que fica mais na parte do paparicar, explica. Mas
Julinha não achava que seria assim. Eu imaginei que
seria uma péssima avó. Dizia que não ia paparicar.
Meus amigos até tiram sarro, porque hoje, se eu não
trabalhasse, ficaria só cuidando de neto. É muito
gostoso, conta.
E a paparicação é mesmo explícita.
Julinha diz, por exemplo, que se fica um dia sem ver os netos,
corre para o telefone para ter notícias. Quando vamos
ao mercado, eles enchem o carrinho. Eu simplesmente não
consigo dizer não, admite.
E por que, afinal, as avós gostam tanto de mimar os netos?
Acho que vó que é vó tem que ser boa,
muito boa. O neto tem que simplesmente adorar. Tem avó
que não liga para os netos. Eu vejo tanta criança
reclamar da avó, fico até triste, justifica.
Menina
A fotógrafa Églea de Britto é considerada
por suas netas uma menina. Descobriu isso durante
um passeio na fazenda. Églea estava acompanhada de seus
pais, seus tios e uma das netas. Ela me disse que o passeio
tinha duas mocinhas e três velhinhos, conta Églea.
O conceito popular de avó é uma velhinha de
cabelo branco, de bengala. Elas não me vêem assim,
explica a fotógrafa, que aliás, não é
chamada de vó pelas netas, e sim pelo nome.
Não que isso seja um problema. Églea diz que, ao
receber a notícia de que ia ser avó, sentiu-se muito
bem. É um sentimento bom, de continuidade da vida,
a certeza de que sua família vai continuar, conta.
A visão que suas netas têm é muito diferente
da que a própria Églea tinha de sua avó materna.
Ela costurava, fazia doce no tacho, recorda.
Églea não costura, nem faz doce no tacho. Passa
a maior parte do que as outras pessoas consideram tempo
livre trabalhando. Além do trabalho diário
em sua loja, tem que comparecer às festas de aniversário,
casamentos e outras ocasiões a trabalho.
A avó moderna tem poucas chances de ficar com as duas netas.
Quando pode, veste um pouco da personagem. Gosto de contar
histórias, admite. Só que as histórias
de Églea são um pouco diferentes... Nas minhas
histórias as avós são modernas e o príncipe
chega em uma BMW em vez do cavalo branco. Sempre dou uma modernizada,
dou um jeito de colocar um computador na história,
afirma.
Para as netas também é uma festa. Afinal, a avó
tem um estúdio fotográfico. Elas têm
pilhas de fotos, conta Églea.
Para Églea, há muitas vantagens em ser avó.
Em sua opinião, é como ser mãe novamente,
mas muito melhor. A gente tem mais paciência, vê
a vida de uma maneira diferente, os valores mudam muito. Dá
para curtir mais a infância, que é uma fase que passa
tão rápido, diz a fotógrafa.
O lado bom de ser avó, segundo Églea, é não
estar atrelada à necessidade de educar. Deixo
fazer tudo, fico só com o lado bom da educação.
É até um pouco de sacanagem, a gente deixa fazer
tudo de propósito mesmo, confessa.
Mas mesmo com décadas entre elas, há semelhanças
entre a avó antiga e a moderna. Quando meu pai queria
me bater, minha avó não deixava. Eu também
sempre tomo o partido das minhas netas, conta a vovó
Églea.