| Fabrício Dias de Oliveira |
ARTIGO
Fabrício
Dias de Oliveira
Da Equipe de Colaboradores
Em muitos momentos da nossa
vida, não existe nada melhor do que uma pausa para reflexão
acerca dos acontecimentos que se deram em nossa volta. Na realidade,
deveríamos pendurar no pescoço uma plaqueta: fechado
para balanço. Realizando esse exame, veríamos
que as coisas boas de nossa vida superam, em muito, aquilo que
consideramos ruim. O fato é que vivenciamos no dia-a-dia
um conjunto infindável de transformações,
seja de natureza social, familiar, econômica, profissional
ou pessoal e, a partir disso tudo, encontramos razões para
as reclamações.
Pois é, uma das coisas que mais fazemos no nosso dia-a-dia
é reclamar. Reclamamos de tudo, o dia todo, a semana inteira,
durante todo o mês e por todo o ano. Muitas vezes reclamamos
com razão, pois a nossa paciência já está
esgotada. Não agüentamos mais aturar tanta coisa errada,
tanta violência, tanta coisa sem propósito, tanta
coisa mal feita, tanta inconseqüência, tanta corrupção,
tanta impunidade, tanto descaso e tanto desrespeito com cada cidadão
tupiniquim.
Na verdade, como o dileto leitor sabe, habitamos um mundo de constantes
mudanças, as quais, na maioria das vezes, resultam em preocupações
de toda e qualquer natureza. E então, quando as coisas
não andam da forma como planejamos ou como queríamos,
passamos a reclamar de tudo: do carro enguiçado, do baixo
salário, do alto custo de vida, da injustiça social,
do sistema de governo falho, da inflação, da chuva
em pleno feriadão, do sol quente em plena segunda-feira,
da unha encravada, enfim, uma lista interminável de reclamações
que aumenta a cada dia.
E por que somos assim? E por que isso acontece com todo mundo?
Não sabemos. Também não paramos para refletir
sobre as razões disso acontecer. E o pior é que,
em muitas vezes, essas reclamações ou são
infundadas, ou possuem uma razão insignificante. Mas acho
que se parássemos por um instante, olhássemos à
nossa volta, iríamos perceber que sempre existirá
alguém numa situação mais delicada do que
a nossa, e isso seria o suficiente para que cessassem as reclamações.
Na última semana, lendo uma reportagem na Folha de São
Paulo, pude perceber com maior clareza o quanto as pessoas reclamam
sem motivo. De forma mesquinha, fazem daquele seu probleminha
piegas uma tragédia nacional, sem a noção
exata do que significa um problema de verdade. Problema de verdade,
talvez seja aquele enfrentado pela garota Débora e pela
sua família, conforme nos reporta a aludida matéria
jornalística. E mesmo com a proporção desse
problema, certamente nem a garota Débora, nem sua família,
reclamam tanto quanto as pessoas com os tais problemas sem significância.
Para que o leitor entenda o que estou dizendo, peço licença
para reproduzir alguns trechos daquele texto: A porta do
elevador se abre no andar térreo do Hospital São
Paulo, na zona sul da capital paulista. De dentro, sobre uma maca,
sai Débora [...], de sete anos e seis meses, para conhecer,
pela primeira vez na vida, o mundo. Durante sete anos, o mundo
de Débora esteve confinado entre as quatro paredes bege
da Unidade Intensiva Pediátrica do hospital. Na saída,
Débora arregalava os olhos como se pudesse ver mais
com eles bem abertos e observava tudo [...]. Débora
sofre de uma doença crônica, genética e degenerativa
conhecida como distrofia muscular progressiva. A menina não
pode sobreviver sem a ajuda de um aparelho que simula os movimentos
dos pulmões. Desde que a doença foi diagnosticada,
quando Débora tinha apenas seis meses de idade, mãe
e filha se mudaram para o hospital. De lá para cá,
seus pais se separaram, sua irmã mais velha teve dois filhos,
seus outros dois irmãos cresceram, sua família mudou
de casa e muitos de seus colegas de hospital tiveram alta. [...]
Para se comunicar, Débora utiliza as sobrancelhas, que
franze quando quer dizer não e estica para
dizer sim. Se as sobrancelhas sobem e descem rapidamente,
é sinal de que ela está gostando do que vê
e houve [...].
Pois bem, diletos leitores, na última semana a mãe
de Débora conseguiu, na Justiça, que a Secretaria
de Estado da Saúde lhe fornecesse um aparelho domiciliar
de ventilação de ar, o que possibilitou o retorno
da garota Débora para seu lar.
E a gente ainda reclama daquela maldita unha encravada...