| Frei Betto |
Frei Betto *
A Bíblia, na sabedoria do Livro
do Eclesiastes, diz que debaixo do céu há
momento para tudo, e tempo certo para cada coisa. Tempo para nascer
e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para colher. (
)
Tempo para amar e tempo para odiar. Tempo para a guerra e tempo
para a paz (3, 1-8).
No advento do Terceiro Milênio e do século XXI, podemos
considerar que o século XX foi, sem dúvida, uma
era libertária. Muitos eventos nos permitem caracterizar
o século passado como um período de avanço
rumo à emancipação do ser humano: as revoluções
russa, chinesa, cubana e sandinista; a descolonização
da África e da Ásia; a vitória contra o nazifascismo;
o movimento estudantil e a revolução cultural dos
anos 60; a derrota imposta aos EUA pelo heróico povo vietnamita;
a libertação da mulher; o combate à discriminação
racial; a defesa dos direitos dos povos indígenas; o fim
do apartheid na Africa do Sul e a libertação e ascensão
de Nelson Mandela; a Declaração Universal dos Direitos
Humanos; Gandhi e a independência da India; a Teologia da
Libertação e a participação dos cristãos
nas lutas por justiça etc.
Tantos sucessos não nos impedem de reconhecer equívocos
e derrotas. É tempo da crítica da razão dialética.
Se a modernidade exaltou as possibilidades da razão e deslocou
a cosmovisão teocêntrica para a antropocêntrica,
agora a crise do racionalismo que nos permite vislumbrar
a pós-modernidade exige que avaliemos
os desacertos do processo emancipatório.
A queda do Muro de Berlim marca o momento de maior fracasso. Muitos
foram os fatores que contribuíram para isso. Vale ressaltar
um deles, sobretudo por sabê-lo ainda presente em movimentos
latino-americanos: a autocracia. Assim como todo filho carrega,
em sua estrutura genética, as características dos
pais, a revolução russa herdou marcas da velha ordem
czarista que derrubara. Aspectos subjetivos prejudicaram a construção
do socialismo como etapa mais avançada de democracia: as
disputas de poder, a suposta onisciência do Birô Político,
a intolerância frente às críticas e divergências
etc.
Razões objetivas, como as ações contra-revolucionárias
e as difíceis condições criadas pela Primeira
Guerra, reforçaram a verticalização das estruturas
políticas e sociais, e a simbiose entre nação-Estado-Partido.
O Partido viu-se forçado a adotar medidas que não
facilitaram a formação de uma sociedade civil e
o exercício da consciência crítica.
Nesse tempo de recolher as pedras do Muro de Berlim, sabemos que
a história nem sempre coincide com os conceitos com os
quais a revestimos. O pensamento dialético naufragou em
seu cartesianismo positivista ao desconsiderar a importância
da subjetividade humana, da experiência religiosa, da arte
como transcendência da razão e subversão da
linguagem, das formas diferenciadas de propriedade, dos desejos
de consumo, dos princípios morais e da dimensão
política da sexualidade, enfim, do homem e da mulher novos.
Não como heróis do trabalho, efígie
grega de olimpíadas produtivas, mas como sujeitos históricos
capazes de atuar, como enfatizava o Che, motivados pelos mais
nobres sentimentos de amor.
O século XXI promete ser um tempo de síntese dialética.
O princípio da indeterminação, que rege a
física quântica, nos permite descobrir que, na intimidade
atômica, matéria é energia e energia é
matéria onda e partícula como duas expressões
da mesma realidade. Portanto, já não há razão
para retornarmos aos dualismos neoplatônicos que marcaram
considerável parcela da atividade política no século
XX.
Trata-se, agora, de libertar, não apenas a sociedade, mas
também o coração humano, a economia e a consciência,
aproximando Jesus e Che, Marx e Paulo Freire, de modo a traçar
um novo perfil de socialismo que supere os determinismos categóricos
e não veja na autonomia dos movimentos sociais, na sociedade
civil, na crítica e na pluralidade de estruturas produtivas
e distributivas uma ameaça ao seu avanço; pelo contrário,
assumir tudo isso como alavancas, sem as quais se perpetuará
a defasagem entre Estado e nação, partido e povo,
teoria e prática, criando simulacros de sociedade igualitária.
Os desafios são profundos e fascinantes. É tempo
de debatê-los e enfrentá-los. A prevalência
da vida sobre a morte princípio revolucionário
número 1 exige de todos nós maior empenho
de unidade na diversidade, de modo a ultrapassarmos, o quanto
antes, a globocolonização neoliberal que nos ameaça
com o espectro de um mundo unipolar sob um governo único,
uma polícia única, um pensamento único, impedindo-nos
de relegar ao passado a pré-história humana.
É tempo de novos paradigmas, novas estratégias,
novos valores e atitudes. São exigências para todos
nós que admitimos, entre sucessos e vitórias, os
desacertos dos processos libertários do século XX
e sonhamos com um futuro próximo em que todos os povos
tenham saciada a fome de pão e aplacada a fome de beleza
que, ao contrário da primeira, é insaciável,
pois são infinitos os desejos do coração
humano.
Frei Betto é
escritor, autor de A obra do Artista uma visão
holística do Universo (Atica), entre outros livros.