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Um leitor do jornal no Suriname

Sr. Diretor:
Venho por meio desta, parabenizar o excelente trabalho que esse jornal tem desenvolvido. Não só parabenizar, mas também agradecer o trabalho, que tenho acompanhado desde 1998, quando da minha chegada a Santa Cruz do Rio Pardo, nomeado Chefe de Instrução do TG 02-055. No período de 1998 a 2001, tive toda a divulgação dos trabalhos do TG levados ao público dentro de uma verdade que só esse jornal poderia realizar, muito longe de publicações dúbias, que dessem qualquer interpretação errônea aos trabalhos desenvolvidos, o que mostra o profissionalismo e a capacidade da equipe.
Hoje nomeado na Aditância Militar junto à Embaixada do Brasil em Paramaribo, capital do Suriname, tenho a oportunidade, pela Internet, de continuar acompanhando o excelente trabalho do jornal e as notícias da cidade que me adotou como filho. A verdade e a transparência continuam a ser as marcas dessa instituição jornalística. Hoje no exterior, tenho a oportunidade de conhecer outros jornais, nas diversas realidades que os cercam — e digo, sem dúvida, que o jornal DEBATE tem personalidade e austeridade. Mais uma vez, parabenizo e agradeço ao excelente jornal santacruzense. Deixo meus votos de sucesso ao senhor e à sua digníssima equipe. Mesmo de longe, continuarei acompanhando o sucesso de sempre.

— Subtenente Ronaldo César Alcantara da Silva (Paramaribo, Suriname)



"Chico Bento" Magnani!

Melancolicamente vamos assistindo aos últimos capítulos da belíssima novela “Cabocla”, da Rede Globo. Uma trama simples, mas com momentos de extrema ternura, recheada de um romantismo do qual estamos muito carentes. No elenco estão atores de primeira linha e, entre eles, o nosso querido Umberto Magnani, no feliz papel de Chico Bento, o mais leal companheiro político do Coronel Boanerges.
A história bem brasileira do princípio do século XX é uma saborosa aula de história que muito nos faz evocar os primeiros anos de Santa Cruz do Rio Pardo. Além de ser o registro dos hábitos e costumes das primeiras décadas do século passado, a novela nos oferece belas lições de política, lições estas que ainda não foram aprendidas por muitos que se dizem políticos, em pleno século XXI.
Mas o que interessa agora é enaltecer a brilhante interpretação de nosso conterrâneo Umberto Magnani, no papel de Chico Bento. Tudo perfeito: figurino, gestos, interpretação, subserviência ao coronel de plantão que, em repetidas vezes, essa submissão de Chico Bento/ Magnani era traduzida na expressão “como de fato, é mesmo”. Quantos políticos de hoje andam dizendo a mesma coisa, mas com outras palavras e atitudes?
Parabéns, Umberto! Você deve ser um orgulho para os santa-cruzenses. De fato, é mesmo!

— Prof. José Magalli F. Junqueira (Santa Cruz do Rio Pardo-SP)



Asfalto?

Não posso deixar de manifestar a indignação que sinto quanto à atual administração de Santa Cruz do Rio Pardo. O descaso que a população do Jardim Eleodoro II vem passando nos últimos tempos é muito grande. Foi muito fácil dar início às obras de asfaltamento do bairro em um período bem perto das eleições, mas o difícil está sendo dar continuidade às obras.
Nós do bairro não sabemos o que é pior: quando não chove é a poeira intensa que prejudica quem sofre de problemas alérgicos do tipo bronquite, asma, sinusite... E, quando chove, um barro tão intenso que até mesmo o caminhão da coleta de lixo encalha, sendo preciso que um trator da Codesan venha retirá-lo.
De nada adiantará jogar terra e ficar esperando, pois logo em seguida vem a chuva para arrancá-la novamente. Desde que começaram essas obras, esta foi a quarta vez que jogaram terra e não fizeram mais nada.
Foi dito à população que iriam fazer um chamado “sarjetão” nas vias onde o fluxo de água é mais intenso, mas o que vejo é uma simples sarjeta que, quando chove, é arrancada com a força da enxurrada.
Na última quinta-feira, não pude acreditar quando vi um senhor que tem problemas de saúde — e que freqüentemente precisa ir ao médico —, ter que sair a pé de baixo de chuva com um chinelo na mão para que, quando chegasse no asfalto, pudesse calçá-lo limpo e assim dar continuidade à sua ida ao médico. Tudo isso sabe por quê? Se o carro entrasse lá, não conseguiria sair. É realmente um absurdo!
Vejo tudo isto como interesse político, já que agora conseguiu a reeleição através dos vários votos de uma população sedenta à espera do tão sonhado asfalto que não vem.
Espero que alguma providência seja tomada, já que faz algum tempo que nós estamos pagando para que o asfalto seja construído. Aliás, esta é uma verdadeira novela chamada asfalto!

— Elaine Cristina Batestucci Queiroz (S. Cruz do Rio Pardo-SP)



Resgate da história

Ao ler o DEBATE desta semana, fiquei feliz com o artigo sobre o projeto da Professora Neuza, que é um resgate da história de nossa cidade. São projetos assim que nos fazem acreditar na educação e em seus profissionais, hoje tão desacreditados e tão desvalorizados.
A educação no país ainda (e só) acontece porque existem pessoas como a Professora Neuza e o Dr. Teófilo Queiroz Junior (que merecidamente recebeu o título de Cidadão Emérito), que por amor a educação, lutam para mantê-la a todo custo.
Na reportagem do Dr. Teófilo, ele afirma: “Dizer para o adolescente que tal livro é bom, é pouco. Mas se você conseguir uma ponta interrogativa ou desafiadora, pelo menos curiosidade, a pessoa vai à leitura”.
E este é o exemplo que a Profª Neuza está dando com seu projeto. Falar de história na sala de aula pode tornar-se maçante, mas incentivar os alunos a irem atrás da história da sua cidade e de seus antepassados é brilhante.
Eu acredito que EDUCAÇÃO se faz com exemplos. E é de exemplos positivos como esses que nós estamos necessitando. Parabéns Profª Neuza! Parabéns Dr. Teófilo Queiroz! Pessoas como vocês nos deixam orgulhosos de ser santa-cruzenses! Parabéns ao DEBATE por difundir projetos como estes!

— Leila Nicolini (Campo Grande-MS)



Ruas desertas

Andando pelas ruas de nossa cidade fui percebendo as ruas desertas. Onde estão as crianças?
Os jogos de bete, esconde-esconde, balança-caixão, bicicletas, patins, patinetes, carrinhos de rolemã, etc? Onde estão as crianças? Nas ruas desertas, raramente vemos crianças bricando nas calçadas ou nas áreas das casas. À tardinha e início da noite, não há ninguém. Todas recolhidas na TV “malhação”, na internet, jogos eletrônicos etc.
O que está acontecendo? Cadê aquelas ruas cheias de crianças que o carro nem conseguia passar?
Estamos em Santa Cruz, cidade pequena, do interior. Não há “perigo” a ponto das crianças ficarem trancadas.
O que é mais perigoso? Quebrar algumas vidraças e arrumar algumas encrencas com os vizinhos ou toda essa poluição mental, visual e auditiva dos meios de comunicação? As crianças estão sendo forçadas a ser adultos em miniaturas. Perfumes, batons, maquiagens, revistas censuradas podem ser obtidas por qualquer menor. Esse tipo de criança consome muito mais e brinca muito menos. Isso é interessante para uma sociedade consumista. Não podemos nos esquecer de que já fomos crianças e tivemos o direito de ser. Cabe agora a nós, adultos, garantir o direito dos pequenos em “ser criança”. São muitas as responsabilidades: estudos, cursos, tarefas etc. As crianças sendo obrigadas a pensar em vestibular muito cedo. Isso é neurolizante! Mas por outro lado, saber como é importante ser criança não significa deixá-la fazer o que lhe der na cabeça e ficar sempre do seu lado, incondicionalmente. Cabe a nós, adultos, encontrar o equilíbrio.
Mas lembremos sempre: nós somos adultos, elas não! E as ruas estão cada vez mais desertas...

— Suziene Ferdin Gonzaga de Oliveira (S. Cruz do Rio Pardo-SP)



Criança

Não há cidadania sem respeito aos direitos universais da pessoa humana e não há democracia verdadeira onde houver violação desses direitos fundamentais. No próximo dia vinte de novembro, comemora-se o Dia Internacional da Criança, exatos quinze anos depois da Assembléia Geral das Nações Unidas adotar a Convenção sobre seus direitos.
Gasta-se muito com eventos que discutem a violência urbana; paredes são enfeitadas com diplomas e medalhas de participantes idealizadores em conferências pela paz mundial, mas na prática humanitária esses adereços de nada valem se as dignas atribuições humanas não forem concretizadas. Todos nascemos livres e iguais em dignidade e direitos, sábias colocações inseridas no contexto social mas infelizmente é uma realidade insustentável.
Vivemos em um mundo de ilusões, alimentamos esperanças, mas a intranqüilidade fragiliza o sonho de um alegre despertar. Vivemos em uma cadeia de violência, do maltrato doméstico ao terrorismo e choque entre civilizações. Apesar do egoísmo, a preocupação humanista pela convivência e pelo bem-estar humano não desaparece — no momento que desaparecer vão desaparecer os seres humanos. Educação é a chave universal do conhecimento e da sabedoria, toda criança e todo ser humano, têm direito a essa chave; um mundo livre é aquele que toda criança tem a chave de uma escola.
Já instituimos a criança como sujeitos de direito e merecedora de proteção integral em função de sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, mas de nada adiantam palavras bonitas e esperançosas se os poderes não se atrevem a cumprir as próprias leis que eles mesmos escrevem. Enquanto se discutem teorias sociais, nossas crianças continuam se evoluindo como soldados da violência.

— Paulo José Patrocínio (Santa Cruz do Rio Pardo-SP)



A morte de Arafat

Arafat foi o símbolo da resistência palestina ao Estado de Israel. Arafat era incorporado ao grupo terrorista OLP, que tinha como pretensão a destruição do restabelecimento do país judaico em suas antigas terras citadas na Bíblia Sagrada.
Há que se perguntar: a resistência foi um bem o um mal para Israel e para os palestinos? Eis a questão.
Os judeus foram massacrados pelo holocausto nazista, sendo que os nazistas culpavam os judeus pela criação do socialismo e pela revolução soviética comunista. Com medo do socialismo, o Estado alemão adotou a resistência por um nacionalismo que mais defendia a oligarquia capitalista alemã, incorporando também a filosofia fascista italiana e um anti-semitismo histórico. Então, com raiva dos judeus socialistas, atacaram todos os judeus da Europa. Foram seis milhões de judeus mortos, e os judeus que conseguiram fugir deste inferno europeu não tinham para onde ir, e começaram a caminhar para a Palestina que estava sob domínio britânico. Lá encontraram uma terra árida, um local inóspito, e o povo palestino. O Sionismo, que já no século XIX queria um estado judaico, premeditando e até quase profetizando o nazismo, após a primeira guerra mundial, com a queda do império otomano, conseguiu em 1917 através do Tratado de Balfour promulgado pela Grã-Bretanha onde esta declarava a favor do estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional para o povo judeu, o mandato foi formalizado por 52 governos representados na Liga das Nações em 24 de julho de 1922.
Os judeus, caminhando para a Palestina e sendo expulsos de vários países árabes, só fizeram crescer Israel, que para se defenderem dos palestinos criaram organizações paramilitares. A luta era constante entre os dois povos, e para pôr um fim nelas a ONU, em 1948, criou o Estado de Israel e o da Palestina. A não criação pelo povo palestino de seu Estado, e a não aceitação dos palestinos — em conjunto com os países árabes — da formação do Estado de Israel pela ONU só criaram conflitos entre as partes. Após a independência de Israel, os árabes atacaram imediatamente o Estado recém-formado com cinco exércitos (Egito, Síria, Transjordânia, Líbano e Iraque), sendo que o secretário-geral da Liga Árabe, Azzam Pasha, dizia: “Esta será uma guerra de extermínio e de um massacre instantâneo, que será lembrado como os massacres Mongóis e as Cruzadas”.
Israel venceu esta guerra e as demais. A rivalidade e a luta pela sobrevivência tornaram o Estado de Israel um país altamente militar, porém odiado pelos países árabes. A resistência palestina acabou ao longo destes 54 anos de independência de Israel, mais ajudando o seu crescimento do que lhe destruindo.
Arafat foi o dirigente maior do povo palestino. Apesar de aderir às guerras e ao terrorismo, também abriu caminhos para a paz — e seu povo com certeza o terá em grande consideração.

— Isaac Sayeg (São Paulo-SP)



Ninguém gosta de despedidas. Deve ser porque elas deixam o gosto amargo da partida, da incerteza, da ausência, da saudade feita de recordações.
Diante da morte de Yasser Arafat, os primeiros sentimentos não poderiam ser diferentes. Mas quem, entre erros e acertos, lutou uma vida inteira pela causa palestina vai continuar sendo parte da memória e da resistência de um povo que, dia-após-dia, procura abrir os caminhos de um amanhã de justiça, paz e liberdade. Por isso, não vou lembrar o líder palestino como alguém que “foi”, mas como um palestino que, através de cada pessoa, em cada rua, casa, roça ou trabalho e nas mais variadas formas de enfrentamento, vai continuar sendo parte desta longa jornada na qual a esperança é diária e dolorosamente construída sob os escombros de uma realidade de morte.
Por isso, a primeira homenagem vem pelas palavras de um poema palestino e através de uma frase do próprio Arafat:

Resista - Muin Bsaisso

Sacudiram um papel e uma sentença
Diante do meu nariz
Me jogaram a chave da minha casa.
O papel que me condenava
Dizia: resista!
A sentença que me oprimia
Dizia: resista!
A chave da minha casa
Dizia: por cada pedra
De tua pequena casa: Resista!
Uma batida na parede
E a mensagem que chegava através dela
De uma mão mutilada, dizia: resista!
As gotas de chuva
Sobre o telhado da sala de tortura
Gritavam: resista!

— “Lutaremos até que todos os homens morram; quando todos os homens morrerem as mulheres lutarão; quando todas as mulheres morrerem, as crianças lutarão; quando todas as crianças morrerem, nossos mortos se erguerão e lutarão...”
A segunda homenagem, e talvez a mais importante, é que possamos fazer ecoar o drama do povo palestino nas formas que estiverem ao alcance.

— Emilio Gennari (São Paulo-SP)



Educandário

Amiga Vanda:
Daqui de longe eu ouço o vendaval. Seja forte, não se deixe jogar no chão! Após cada tempestade, Deus sempre concede a todos uma nova manhã, com o mesmo sol, sempre a brilhar e a multiplicar a vida, e assim poderemos enxergar melhor e nos sentirmos mais seguros. Do pouco que aprendi, ficou-me a certeza de que todos somos filhos amados de Deus, sem exceção. Somos todos irmãos. O que eu quero é dar-lhe a mão, abraçá-la com a minha alma e dizer-lhe que nunca poderei deixar de ser amiga. Lembro-me que lá pelo ano de 1993, face às dificuldades e resistências, me sentia cansada por pedir por aquelas outras crianças pouco e nada amadas. E quem já pediu, experimentou da alegria e da esperança — e algumas vezes também do fel.
Hoje vejo que era o “Amor Infinito”, diante da dor, ajudando a desenvolver em nós o que nos falta: o amor e a humildade, os talentos da alma que tantas vezes nós todos temos ignorado... E então, naquele dia vi você, minha amiga, chegando ao nosso querido “Lar Espirita”, querendo ajudar na difícil sustentação daquela casa quase esquecida, mesmo ainda sem entender o porquê de tanta dor. Para sentir essa dor que nos faz chorar e nos ensina, é preciso buscar, entrar e ficar entre aquelas crianças.
Também me lembro da alegria pura, quando podíamos com amor enxugar as lágrimas de uma criança. Foram tantas vezes... Já estávamos recompensadas!
Não posso deixar de dizer que somos eternamente gratas a todas aquelas pessoas, almas boas, que lá foram e ainda vão, levando algo de si, daquilo que têm para doar, para fazer com que aquelas crianças também possam sorrir, organizar festas tão importantes para elas, levando brinquedos, doces, amizade, conselhos e palavras de esperança. Sinto vontade de citar o nome de todas essas pessoas, para assim melhor expressar minha gratidão, mas deixo de fazê-lo por medo de esquecer um só nome e vir a cometer uma injustiça. Mas você, minha boa amiga, entrou e ficou; aceitou ficar mais próxima às crianças. Os anos passaram-se e vi que você sempre foi convidada a perseverar por mais tempo. A reponsabilidade maior ficou com você, que renunciou a uma grande parcela do calor do seu próprio lar e dos seus próprios filhos, conheceu o lado mais sombrio da dor e das noites de uma criança separada de sua família. Conheceu o outro lado da moeda, aquela que ninguém quer, mas que os homens ainda fazem circular a “mão cheias”, ignorantes que são das Leis Divinas que regem nossas vidas, entre elas a “Lei de Causa e Efeito”. O mérito e a colheita pertence a cada um que semeou.
Se porventura eu deixar que caiam algumas sementes de joio junto ao bom trigo que o “Amor Maior” me convida a semear, tenho convicção profunda que justas e amorosas “Leis Divinas” me permitirão retirar todo o joio, por muito que seja, para que haja alegria no coração dos que se propõem a servir ao próximo. Confiemos e perseveremos no bem. Amemos; amemos e perdoemos; perdoemos e sirvamos.
Quem de nós não necessitará de perdão e de força nos momentos difíceis? Se não aprender a servir, como aprenderei a amar? Aquele que acertou e também errou, foi porque “aceitou fazer”.
Vanda, por tudo isso, digo-lhe que minha estima por você é muito grande. Receba o nosso abraço fraterno.

— Diva Aparecida Augusto Garcia e Fernando Ortega Garcia (Marilia-SP)



Estratégias para 2006

A situação e a oposição no Brasil vivem um impasse monumental. Ambos vão ter que construir projetos alternativos para o país. Projetos consistentes e inovadores que abram caminho para as eleições de 2006. Uma coisa é falar para ganhar o poder. Outra coisa é tocar a administração pública. Milhas separam a aventura da imaginação da dura realidade da gestão competente.
Tivemos grandes realizadores e grandes construtores de projetos. O maior modelo, nunca igualado, foi Juscelino Kubitschek. Modelo extraordinário e mais antigo: Getúlio Vargas. “Não foi o sorriso do velhinho, a sua simpatia, a ajuda do DIP calando a boca da imprensa durante o Estado Novo, que sustentaram a popularidade de Vargas”, lembra Villas-Boas Corrêa. Homem de poucas palavras e muita ação tinha o hábito de “serões solitários ou com apenas um assessor, que varavam a noite e engoliam madrugadas. Nenhum processo dormia na gaveta. O governo andava cutucado pelo chefe atento”. Exemplos históricos de governantes. Nem sempre bem sucedidos...
O governo Lula da Silva encontra-se cindido em duas vertentes. Do lado da encosta mais visível para as elites nacionais e internacionais, a gestão eficiente e promissora da política econômica. Palocci e Meireles reproduzem a política econômica herdada da ortodoxia de Malan. Não adianta querer marcar diferenças. Do outro lado da encosta, escondida pelos marqueteiros, a ineficiência da gestão administrativa. Não adianta petista querer insistir que novos quadros levam tempo para aprender. Dois terços do governo foram para o beleléu. O último ano é o ano da sucessão. Como criar novo discurso com imagem dinâmica de realização e de esperança?
No alto do poder, Zé Dirceu e Zé Genoíno observam os dois lados da encosta. Zé Dirceu, às voltas com a base parlamentar do governo e com o trote trôpego dos escândalos administrativos. Zé Genoíno, às voltas com a missão de pegar o touro à unha. Reprimir a militância cada vez mais irada. A “estrela partida ao meio”, não é mais apenas metáfora melancólica. Vem chumbo da base parlamentar. Vem chumbo grosso da militância. As eleições municipais dispararam alarmes pelo país afora.
A oposição procura caminhos. Foi derrotada pelos efeitos do instrumento necessário e eficiente da estabilização da economia. Os petistas foram implacáveis. A ortodoxia econômica foi usurpada sem pudor. Esperam colher frutos com a retomada do crescimento econômico. Alternativa que dá frio na barriga dos líderes do PSDB. Que propor? Podem seguir o caminho de aprofundar as reformas do capitalismo nacional com as novas estratégias de Pérsio Arida. Podem querer enfrentar seriamente a questão social, abandonada pelos petistas no poder. Podem circunscrever seu projeto à ênfase na capacidade gerencial de seus quadros. Repetir o sucesso de Geraldo Alckmin e do vitorioso José Serra. Deu certo em São Paulo. Mas São Paulo não é Brasil...
Marta e Zé Serra deixaram pistas visíveis por onde situação e oposição podem vir a caminhar. Marta quis mostrar as realizações sociais dos petistas como contraponto do governo Lula da Silva. Desgastou-se nas classes médias, mas foi bem voltada na periferia. Entre a população mais carente deitou e rolou o assistencialismo. Elaborou Plano Diretor Estratégico, onde pretendia dar ênfase ao transporte público e à ampliação dos programas sociais. Deu ênfase à cultura “para que São Paulo seja uma cidade marcada pela efervescência de idéias, pelo debate, pelo experimentalismo cultural”. Corou o Plano com a promessa dos CEUs e da qualidade do ensino.
Zé Serra privilegiou a forma de governar. “Bons projetos para a cidade não faltam. O que tem faltado é capacidade de selecioná-los e tira-los do papel”. Os cinco “P”s sintetizam a ênfase na gestão competente: planejamento, contra iniciativas de cunho marqueteiro; prioridades: saúde, segurança, educação e habitação; parcerias com governo estadual e federal e iniciativa privada; parcimônia, não abusar do dinheiro público; primeira hora, fazer funcionar direito o que já existe desde o começo do governo. Propôs criar a “Agência São Paulo de desenvolvimento”, para detectar oportunidades, atrair investimentos e incentivar novos negócios, gerando empregos.
As estratégias são ainda incertas. As eleições municipais deram vitória à oposição. José Simão lembra o comentário de amiga: “Se eu tiver que agüentar por quatro anos o Serra falando em planejamento, prioridade e terra de oportunidades, eu me mando daqui e não pago mais IPTU”.
Não vai ser fácil. Agüentar o papo furado de Lula e o lenga-lenga de governar bem...

— Ulysses Guariba (Assis-SP)