| Frei Betto |
Frei Betto *
Feliz Páscoa aos que desdobram
a subjetividade, rompendo a casca do ego para deixar renascer
a mulher ou o homem novo, e a quem se nutre de TV sem enxergar
as maravilhas encerradas no próprio peito.
Feliz Páscoa aos artífices da paz que, entre conflitos,
exalam suavidade, não achibatam com a língua a fama
alheia, nem naufragam nas próprias feridas. E aos emotivos
que deixam escapar das mãos as rédeas da paciência
e nunca abandonam as esporas da ansiedade.
Feliz Páscoa aos que tecem com o olhar o perfil da alma
e, no silêncio dos toques, curam a pele de toda aspereza.
E aos amantes tragados pelo ritmo incessante de trabalho, carentes
de carícias, que postergam para o futuro o presente que
nunca se dão.
Feliz Páscoa a quem acredita ser o ovo portador de vida,
sem que a fé exija que o quebre, e aos incrédulos
e a todos que jamais dobraram os joelhos diante do mistério
divino.
Feliz Páscoa aos que identificam as trilhas aventurosas
da vida mapeadas na geografia de suas rugas e não se envergonham
da topografia disforme de seus corpos. E a todos aqueles que,
robotizados pela moda, se revestem de estátuas gregas carcomidas
pela anorexia, sem se dar conta de que a mente mente.
Feliz Páscoa aos que ousam ser gentis e doces, sem pudor
de abraçar o menino que carregam dentro de si. E aos afoitos,
competitivos, turbinados e sarados, enamorados da própria
vaidade, incapazes de suportar uma fila de espera.
Feliz Páscoa aos que sabem amarrar o seu burrico à
sombra da sabedoria e jamais negociam a felicidade em troca de
uma arroba de milho que, vista à distância, parece
pepita de ouro. E aos idólatras do dinheiro, fiéis
devotos dos oráculos do mercado, reféns de pobres
desejos que, saciados de supérfluos, nunca alcançam
o essencial.
Feliz Páscoa a quem abre caminhos com os próprios
passos e cultiva em seus jardins a rosa dos ventos. E aos que
colhem borboletas ao alvorecer e sabem que a beleza é filha
do silêncio.
Feliz Páscoa aos que garimpam utopias nos campos da miséria
e trazem seus corações prenhes de indignação,
sem jamais olvidar o próximo como seu semelhante. E aos
que, montados na indiferença, atropelam delicadezas, até
que a dor lhes abra a porta do amor.
Feliz Páscoa aos que nunca fecham a janela ao horizonte,
regam suas raízes e não temem pisar descalços
a terra em que nasceram. E aos que se embriagam de chuvas, ofertam
luas à namorada e fazem da poesia a sua lógica.
Feliz Páscoa aos colecionadores de araucárias, que
enfeitam de sonhos suas florestas e, na primavera, colhem frutos
de plenitude. E aos que brincam de amarelinha ao entardecer e
desconfiam dos adultos exilados da alegria.
Feliz Páscoa aos que se repartem nas esquinas, distribuem
aos passantes moedas de sol e, nada tendo, nada temem. E aos que,
ao desjejum, abrem sua caixa de mágoas e recontam uma a
uma, gravando nos cadernos do afeto dívidas e juros.
Feliz Páscoa aos que caminham sobre tatames e, por terem
muita pressa de chegar, jamais correm. E aos navegadores solitários,
pilotos cegos e peregrinos mancos, que se arrastam pelas trilhas
da desesperança.
Feliz Páscoa aos políticos obrigados a inventar,
para os outros, o futuro que não se deram no passado, e
estendem sorrisos para mendigar votos. E aos que não se
deixam iludir pela insipidez da política e nem atiram seus
votos na lixeira do desinteresse, alimentando ratos.
Feliz Páscoa aos trovadores de esperanças, aos fazendeiros
do ar e aos banqueiros da generosidade, que sabem tirar água
do próprio poço. E aos que mantêm em cada
esquina oficinas de conserto do mundo, mas desconhecem as ferramentas
que arrancam as dobradiças do egoísmo.
Feliz Páscoa a quem seqüestra o melhor de si, escondendo-o
nas cavernas de suas mesquinhas ambições, sem coragem
de pagar o resgate da humildade. E aos que nunca banem do espírito
a presença de Deus e fazem da vida uma or/ação.
Feliz Páscoa às bailarinas fantasiadas de anjos
que sobem, na ponta dos pés, a curva policrômica
do arco-íris, e aos palhaços ovacionados que, no
camarim, se miram tristes no espelho, vazios da euforia que provocam.
Feliz Páscoa aos que descobrem Deus escondido numa compota
de figos em calda ou no vaga-lume que risca um ponto de luz na
noite desestrelada. E aos que aprendem a morrer, todos os dias,
para os apegos de desimportância e, livres e leves, alçam
vôo rumo ao oceano da transcendência.
Frei Betto é
escritor, autor de Treze contos diabólicos e um angélico
(Planeta), entre outros livros.