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Papa eleito tem perfil conservador

RELIGIÃO — Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito na última terça-feira; escolha divide opiniões



O papa Bento XVI
O sinos da igreja matriz São Sebastião de Santa Cruz do Rio Pardo repicaram na tarde da última terça-feira quando foi anunciado o nome do cardeal alemão Joseph Ratzinger, 78, o 265º papa da história. Considerado o braço-direito de João Paulo II, ele adotou o nome de Bento 16. Pela televisão, veio a notícia do novo papa. Ratzinger mantém a Igreja Católica na linha conservadora e por 23 anos foi guardião da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, órgão que ficou no lugar do Tribunal da Inquisição.
O alemão reprimiu com força os teólogos que saíram de sua doutrina rígida e alienou outras denominações cristãs dizendo que não são igrejas verdadeiras.
A indicação divide opiniões. O cardeal d. Cláudio Hummes se disse “satisfeito e emocionado” com a escolha de Ratzinger. O brasileiro, que era cotado como possível candidato para se tornar papa, afirmou ter ficado muito satisfeito com a eleição do cardeal alemão.
Em Santa Cruz do Rio Pardo, o frei Estevão Nunes declarou na rádio Morena-FM que, embora chamem de “conservador” o novo papa, ele não adota essa linguagem. “Todos nós temos que ser conservadores para conservar aquilo que deve ser conservado e progressista naquilo que deve ser aceito”, declarou Estevão.
O frei afirmou que o papa João Paulo II foi extremamente avançado e firme em conservar a doutrina da igreja. “O papa Bento XVI vai continuar na mesma linha de João Paulo II, pois é o espírito Santo que nos mandou. Sem dúvida é o que a igreja vai precisar”.
Mas a ala progressista tem feito críticas ao novo papa. O frade franciscano e escritor Leonardo Boff foi perseguido pelo cardeal Ratzinger, responsável pela punição de “silêncio obsequioso” imposto em 1985, já no pontificado de João Paulo II. Antes da eleição, Boff disse ao “Estado de S. Paulo” que Ratzinger é “um dos cardeais da Cúria mais odiados”. “Vou ter dificuldades em amar esse papa, por causa de suas posições perante a Igreja e o mundo”, disse o teólogo brasileiro.
Frei Betto, colunista do DEBATE, também tem reservas a Ratzinger. Ele lembrou que o novo papa, em seu último sermão como cardeal antes do início do conclave, lançou-se candidato deixando bem claro o que pensa: acusou a cultura ocidental de relativista, condenou o marxismo, o liberalismo, o ateísmo, o agnosticismo e o sincretismo, como quem insiste em não aceitar o pluralismo cultural e religioso, a diversidade de culturas, e ainda sonha com uma Igreja institucionalmente soberana entre povos e governos, impondo a todos seus valores e suas normas de comportamento. Para frei Betto, é a volta à Cristandade, quando a Igreja imperava no período medieval.
O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Antônio Celso de Queirós, é mais moderado, dizendo que Joseph Ratzinger poderá “surpreender com avanços no diálogo do Vaticano com as demais igrejas” e até mesmo na discussão sobre a realidade da mulher.
A CNBB não tem dúvidas de que o papa Bento XVI continuará a ser o defensor da doutrina católica romana e dos costumes.
O cardeal e João Paulo II foram chamados de “colegas intelectuais” — Ratzinger, a exemplo do papa, tem pontos de vista conservadores sobre temas como o controle da natalidade, diálogo entre as religiões, casamento gay e feminismo. O cardeal alemão começou a ganhar atenção ao chegar a Roma, em 1962, como teólogo conselheiro do cardeal Josepf Frings [de Colônia, Alemanha] no Segundo Concílio do Vaticano. Aos 35 anos se converteu em uma espécie de “estrela” da teologia. Mas foi em 1968 que Ratzinger ganhou destaque, quando travou uma luta ferrenha contra o marxismo e o ateísmo, que cresciam entre os jovens. Em várias ocasiões, Ratzinger declarou que gostaria de se aposentar em uma vila na Baviera e se dedicar a escrever livros. Mas, recentemente, disse a amigos que estava pronto para “aceitar qualquer responsabilidade que Deus colocasse sobre ele” (referindo-se à possibilidade de se tornar papa). Depois da morte de João Paulo 2º, no último dia 2, Ratzinger deixou sua função como encarregado da Congregação para a Doutrina da Fé. O novo papa se comunica em dez línguas e recebeu sete doutorados honorários.