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Ourinhos já teve sua própria Companhia Telefônica

HISTÓRIA — Odayr Alves da Silva fundou e dirigiu a CTO durante 12 anos, empresa que posteriormente foi encampada pela Telesp


Odayr Alves da Silva, Benedito Pimentel e Maurício Farah durante a inauguração provisória da CTO, em 1963O telefone, como o conhecemos no século XX, está com os seus dias contados. O sistema de banda larga da internet já é hoje mais eficiente e econômico, e o celular parece não esgotar suas possibilidades, inclusive com a captação e transmissão de imagens. Até o início da década de 1960, Ourinhos vivia no tempo do telefone magnético — ou à manivela, se preferir. Operado pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB) o sistema em Ourinhos era, além de obsoleto, um entrave ao progresso da cidade que já contava com 35 mil habitantes.
Entre empresas e residências ligadas à rede elétrica, apenas 7% dispunham de um telefone. Para 4.500 ligações elétricas, Ourinhos tinha apenas 320 aparelhos telefônicos.
Essa realidade começou a mudar em novembro de 1957, quando Odayr Alves da Silva liderou um movimento pela criação de uma companhia que dotasse a cidade de sistema mais ágil e independente de telefonia. “Um dos mais úteis instrumentos do progresso”, foi como classificou o telefone o Ministro da Justiça e Negócios Interiores do governo JK, Cyrillo Júnior, em “mensagem ao povo ourinhense” de 24/06/1959, ao ser informado da reivindicação de Odayr Alves da Silva.
Odayr chegou a Ourinhos em 1953, vindo de Ibirarema. Aqui se estabeleceu como jornalista, inspetor de seguros, representante comercial e bancário. Posteriormente, foi farmacêutico. Correspondente do Diário de S. Paulo desde os 18 anos de idade, Odayr fundou em 1965 o seu próprio jornal, “O Progresso”, que ele mesmo dirigiu por duas décadas. Depois da encampação da Companhia Telefônica de Ourinhos (CTO) pela Telesp, há exatos 29 anos, transferiu-se para o ramo de telecomunicações e a advocacia. Foi em seu escritório de trabalho, no centro de Ourinhos, que Odayr Alves da Silva nos recebeu para esta entrevista.
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DEBATE — Como era Ourinhos antes do telefone automático?
ODAYR — A CTB tinha um escritório comercial na rua 9 de Julho, onde está a sorveteria Pinguim, e um posto telefônico na rua São Paulo, perto da antiga Câmara Municipal, onde ficavam umas 20 ou 30 telefonistas. As ligações interurbanas eram feitas de uma cabine instalada na churrascaria Gaúcha, na avenida Altino Arantes, quase em frente à SAE.
DEBATE — O IBGE, no final da década de 1950, dava como instalados em Ourinhos 320 aparelhos telefônicos...
ODAYR — Eram 280 linhas, chamadas diretas, e 40 ramais, que chamávamos de “conjunto”. Por exemplo: eu tinha um telefone na farmácia e do meu telefone saía uma linha para o Carlos Nicolosi. Isso era um “conjunto”.
DEBATE — E como foi o início do movimento para a expansão do serviço telefônico?
ODAYR — Eu fazia parte da Associação Comercial e do Rotary Clube, onde defendia a tese de que nós deveríamos nos preocupar com a instalação de telefones porque isso estava retardando o progresso de Ourinhos. Bancos não vinham para cá por falta de meio de comunicação; indústrias, então, nem se fala... Nessa época, fazia parte da Associação Comercial gente como Toninho Ferreira (prefeito 1960/1963), Lauro Migliari, Isao Kobata, Hélio Silva, Américo Vieira, Julinho Correia, Jaime Menezes... No Rotary tínhamos gente como Armando Dandréia, José Fernandes de Souza, João Amantini... E eu dizia: “Olha que nós estamos ficando para trás. Prudente está crescendo, Londrina está crescendo, Santa Cruz está crescendo, e nós estamos aqui marcando passo”. O prefeito Pascoalick foi quem acreditou em mim.
DEBATE — Ourinhos, nessa época, ainda não tinha passado Santa Cruz do Rio Pardo?
ODAYR — Perfeitamente. Ainda competia com Santa Cruz. E o que mais repercutia era o fato de que Santa Cruz já tinha asfaltado as suas ruas. Aqui ainda se pensava em asfalto com muita dificuldade. Em 1958 o Pascoalick me disse que tinha interesse na instalação do telefone automático, mas tinha dúvidas quanto à nossa capacidade. “Você já enxergou lá na frente, aonde vai encontrar os obstáculos?”, ele me perguntou. E eu respondi: “O telefone não é instalado por gente? Gente somos nós, e com muito mais vontade do que aqueles que estão aí acomodados”. Então o Pascoalick virou nosso baluarte. E a campanha que a CTO começou a sofrer era, na verdade, mais contra o Pascoalick do que contra nós. Eles queriam que não saísse o telefone automático para derrotar o Pascoalick.
DEBATE — Quem fazia essa campanha contra?
ODAYR — A turma da UDN. Salvador Fernandes, Américo Vieira...
DEBATE — E os desafios de ordem técnica?
ODAYR — A CTO era uma S/A, uma sociedade anônima ourinhense no ramo de telecomunicações e isso quase não existia. Não existia o modelo. Por isso foram 7 anos de luta. Perdi a conta de quantas viagens fiz ao Rio de Janeiro onde ficava o Dentel, que regulamentava o preço da tarifa; o Contel, que tratava do tipo de equipamento a ser instalado; a Telebrás, que fiscalizava o funcionamento da empresa...
DEBATE — Como era o telefone magnético?
ODAYR — Você dava voltas na manivela, erguia o fone do gancho e era atendido por uma telefonista. “Por favor, eu queria ligar para tal número” – e ela ligava.
DEBATE — A cidade tinha 320 telefones, a proposta de vocês era...
ODAYR — ...começar com 1.000. Nós fizemos um levantamento e constatamos essa necessidade.
DEBATE — Quando a CTO começou operar?
ODAYR — Nós fizemos uma inauguração provisória em 8 de dezembro de 1963 para uma fase experimental. O prefeito Antonio Luiz Ferreira estava encerrando o seu mandato e, como ele tinha nos ajudado bastante, eu quis prestar uma homenagem a ele. Nós instalamos 200 telefones automáticos que falavam entre si, mas não falavam com os antigos telefones magnéticos da CTB. Esses 200 telefones operaram de graça até a inauguração oficial em 1º de maio de 1964. Nesse dia, na hora da inauguração, o jornalista Benedito Pimentel sobrevoou Ourinhos com um avião paulistinha do Aero Clube local jogando panfletos sobre a cidade saudando a CTO.
DEBATE — Uma indústria do porte da Sanbra, da Usina São Luiz, quantos telefones tinha?
ODAYR — A Usina São Luiz não tinha nenhum. Eles tinham um telefone de Santa Cruz do Rio Pardo. Porque não havia como a empresa estar em dois municípios ao mesmo tempo. Eu tive que ir ao Rio de Janeiro, no Dentel, argumentar que uma parte da usina ficava no município de Ourinhos e, assim, eles teriam direito a uma linha com Ourinhos. O coronel diretor-técnico do Dentel acolheu o meu pedido. Esse mesmo trabalho nós fizemos para a Destilaria Archângelo, que ficava em terras de São Pedro do Turvo e tinha que pagar interurbano cada vez que falava com Ourinhos.
DEBATE — Onde ficava a CTO?
ODAYR — Inicialmente, tínhamos um escritório na rua Paraná. Depois, compramos o terreno e construímos o prédio na Praça Melo Peixoto nº 33, ao lado da tipografia do Thomé.
DEBATE — Ao contrário de hoje, esse era um endereço bastante concorrido, principalmente entre os políticos da época, pelo que se observa no seu livro de visitas.
ODAYR — Sem dúvida. O governador vinha à cidade e não deixava de nos visitar, como o Laudo Natel em 1975. Em 1967, o vice-presidente da República, Pedro Aleixo, veio à Fapi e visitou a CTO acompanhado do então governador de Minas Gerais, Francelino Pereira. O vice-presidente, inclusive, dali falou com a Itália, onde ele tinha uns parentes.
DEBATE — Ele pagou a ligação?
ODAYR — (rindo) Ah, não pagou nada.
DEBATE — Por que a CTO encerrou suas atividades em 1976?
ODAYR — Eles (Telebrás) não deixavam a CTO crescer. Eu tinha planos para mais 5.000 linhas e chegamos a fazer contatos com a GTE (Canadá) para a compra dos novos aparelhos, mas aí entrou a política no meio. O Laudo Natel tentou organizar uma companhia telefônica paulista, mas ficou só numas cidadezinhas mixes que pouco representavam. Ele também sofria, como nós, pressão das autoridades ditatoriais de Brasília. Para ampliar o número de linhas era preciso autorização da Telesp, que não dava porque tinha o seu equipamento, os seus interesses. Aí começou o boicote. As ações da CTO foram trocadas por ações da Telesp, que não valiam nada. Mas cada acionista ficou com o seu telefone e a turma queria mesmo era o telefone.
DEBATE — E os orelhões?
ODAYR — Antes da CTO não existia telefone público em Ourinhos. Nós passamos a colocar aparelhos em bares e outros estabelecimentos bem freqüentados. Inauguramos o primeiro telefone público da Vila Odilon, que dispunha de uma ou duas linhas particulares. Colocamos naquele bar da esquina da praça, ao lado da farmácia. Aqui na cidade, o primeiro telefone público que instalamos ficava na esquina da Praça Melo Peixoto, em frente ao Itaú. Atendendo aos interesses públicos, a CTO também ligou, gratuitamente, aparelhos em pontos de táxis e charretes, delegacias, albergue, santa casa, asilo, escolas etc.
DEBATE — Quantos telefones públicos Ourinhos tinha nessa época?
ODAYR — Ah, tinha muitos! Devia ter, mais ou menos, uns 20.


Nota — Ourinhos hoje conta com 26.200 telefones fixos, 800 orelhões e um número incalculável de telefones celulares.