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Olarias: apogeu e queda
de um império em Ourinhos

MEMÓRIA — Das 87 cerâmicas que funcionavam no município na década de 90, hoje sobrevivem apenas 15; crise tem várias causas, como concorrência com outros materiais


Cerâmica Fantinatti em foto de 1977; embaixo, à direita, o animal utilizado no processo de amassar o barroAs torres das olarias em Ourinhos já foram a marca registrada da cidade. A vila Odilon, onde as empresas estão localizadas, cresceu muito na época áurea do comércio das cerâmicas. O bairro tinha vida e identidade próprias. A partir dos anos 80, uma grave crise atingiu o setor, que até hoje não conseguiu se recuperar.
Os primeiros empresários do ramo fundaram suas fábricas no local no final dos anos 40 devido à facilidade para a extração da argila no rio Paranapanema. Os imigrantes italianos eram maioria, vindos de Barra Bonita. Chegaram em Ourinhos atraídos pela esperança de fazer fortuna com a boa qualidade da argila da região. A partir de 1960 a produção ourinhense ajudou a construir casas de várias cidades do norte do Paraná, que despontavam naquela época. Londrina era uma delas. Das 87 cerâmicas existentes na década de 90, hoje existem apenas 15 funcionando.
Os empresários José Antonio Mella e Amilton Fantinatti contaram ao DEBATE um pouco da história das olarias, que está visceralmente ligada ao crescimento de Ourinhos.
O início — Mella lembra que, quando os primeiros empresários chegaram, a Cerâmica Santa Ermínia já estava instalada na vila Odilon, de propriedade de Ítalo Ferrari. “Ele estava administrando a Ivoram, que fabricava bebidas, mas quis montar uma cerâmica e chamou a família dos Carnevalle, que era de Barra Bonita, para tocar a Cerâmica Santa Ermínia”. Ele conta que o barro e a água utilizada para se fazer os tijolos eram transportados em carroças. “Toda a produção era manual. Só fazíamos uma telha goiva, feita à mão. Só depois apareceu a prensa”.Fornos queimavam 7 mil telhas e hoje muitos estão abandonados
O investimento para fazer funcionar uma cerâmica era pequeno. Fantinatti conta que os primeiros galpões eram feitos com coqueiro ou eucalipto e só depois foi utilizada a madeira serrada.
Uma foto da Cerâmica Fantinatti de 1977 mostra um animal que era muito importante para a produção cerâmica na época: o burro. Fantinatti conta que o dia começava cedo para os trabalhadores das olarias da Vila Odilon. “Às 5 da manhã era necessário procurar o burrinho, responsável pelo funcionamento do amassador de barro. Um trabalhador jogava o barro numa espécie de barril. Dentro dele, um eixo girava movimentado pela tração do burrinho”, lembra. “Se o burrinho fugisse era um caos: a indústria não funcionava”, conta, rindo, Fantinatti.
A tecnologia primitiva fazia da confecção de tijolos e telhas um trabalho demorado. Nas primeiras indústrias, quando ainda não existiam as estufas, o período de chuvas era considerado desastroso. A umidade do ar ou a chuva prejudicava e atrasava o processo de secagem das telhas.
O apogeu — No início dos anos 70, uma fábrica produzia em média 100 mil telhas por mês. Para isto, precisava de 10 funcionários e 2 ou 3 fornos. As consideradas grandes tinham capacidade para 7 mil telhas, que demoravam 3 ou 4 dias para queimar. A produção era transportada pela ferrovia, em vagões abertos (gôndolas). As telhas eram empilhadas em forma de pirâmides e seguiam por trem até Londrina. De lá, os vagões voltavam carregados com madeira. “Era uma luta para se conseguir um vagão, porque não havia muitos. Por isto apareceram os armazéns gerais, onde a mercadoria ficava estocada aguardando oportunidade de embarque”, recorda Mella. Além do Paraná, uma parte da produção cerâmica também seguia para o Mato Grosso.
O sucesso das olarias revelou o orgulho do morador da vila Odilon. “O bairro era muito distante da cidade, mas independente. Era a única vila da cidade onde moravam muitos dos fundadores. Os empregados das cerâmicas também moravam ali”, conta Fantinatti. José Antonio Mella lembra que a única forma de se chegar na vila Odilon era pela rua Cambará, que ganhou este nome porque era o caminho para a cidade paranaense.
A modernização do setor aconteceu a partir de 1970. O antigo barril, onde o barro era misturado graças ao trabalho de um burrinho, foi substituído pelas primeiras marombas e amassadores elétricos. As prensas manuais foram aposentadas. Câmaras de vácuo começaram a retirar o ar da argila, garantindo a qualidade. Surgiram as estufas, que garantiam uniformidade no processo de secagem. A produção começou a ser realizada em tempo menor.

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