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ESCÂNDALO DO ITBI
O prefeito Adilson Donizeti vai novamente à Justiça
contra a CPI, desta vez para impedir a quebra de seu sigilo telefônico
O
juiz Antonio José Magdalena, da Segunda Vara Judicial de
Santa Cruz do Rio Pardo, concedeu liminar em mandado de segurança
impetrado pelo prefeito Adilson Donizeti (PSDB) e determinou a
suspensão de qualquer ato da CPI no sentido de quebrar
o sigilo telefônico do chefe do executivo. A decisão
saiu na última terça-feira e o presidente da CPI,
Jorge Araújo (PHS), assim como o presidente da Câmara,
Edvaldo Godoy, já foram notificados. A medida é
provisória, uma vez que o mérito do mandado ainda
não foi julgado.
A liminar afasta, ao menos por enquanto, o grande trunfo que a
CPI teria para tentar obter uma prova de que o prefeito Adilson
Donizeti (PSDB) esteve no município de Espírito
Santo do Turvo no dia 11 de agosto do ano passado, quando supostamente
o empresário Francisco Falavigna entregou-lhe R$ 30 mil
num pacote. Segundo alega o empresário beneficiado
no ano passado por uma lei do prefeito que o isentou de ITBI em
mais de R$ 400 mil na compra de uma fazenda , o prefeito
marcou o encontro em Espírito Santo, na frente da destilaria
Agrest (antiga Sobar), para concretizar a entrega dos R$ 30 mil,
que vinham sendo insistentemente pedidos por Donizeti. O prefeito
alegava dificuldades financeiras na campanha eleitoral, segundo
contou Falavigna à polícia e à CPI.
Com a quebra do sigilo telefônico de aparelhos celulares,
seria possível, por exemplo, descobrir a localização
física do prefeito no dia 11 de agosto. É que Francisco
Falavigna garante que, neste dia, acabou se desencontrando do
prefeito nas imediações da antiga Sobar: enquanto
Falavigna estacionou na porta da destilaria, o prefeito estava
na rodovia SP-225, num Volkswagen Gol, a cerca de 400 metros da
Agrest. Como o tempo passou sem que ambos se encontrassem, o prefeito,
segundo Falavigna, telefonou para o celular do empresário
indagando sua localização. Minutos depois, teria
ocorrido o encontro e a transferência do pacote com R$ 30
mil para o carro do prefeito. O ato foi presenciado pelo advogado
Sérgio Ricardo Cogo, de Itápolis, que acompanhava
Falavigna.
Além disso, o empresário sustenta que o prefeito
esteve pelo menos duas vezes em Bauru, pedindo dinheiro. Segundo
ele, Donizeti telefonou em determinadas datas pedindo para marcar
encontros em Bauru, já que iria viajar a São Paulo.
Assim, também existe a possibilidade do prefeito ter feito
alguma ligação de seu celular nestas datas.
São esses telefonemas do prefeito que a CPI quer desvendar.
A quebra do sigilo possibilitaria à concessionária
do serviço telefônico no caso a Vivo
informar a origem do telefonema. Em depoimento de quatro horas
à polícia, no mês passado, o prefeito garantiu
categoricamente que não se ausentou de Santa Cruz do Rio
Pardo no dia 11 de agosto e muito menos esteve no município
de Espírito Santo do Turvo. Ele, inclusive, juntou declarações
de funcionários públicos atestando que o prefeito
despachou normalmente em seu gabinete naquela data, sem viajar
para outro município. Donizeti também nega terminantemente
ter passado em Bauru, antes de seguir viagem para São Paulo,
em outras datas mencionadas pelo empresário.
Desde o início da semana, o prefeito vem dando sinais que
teme a quebra de seu sigilo telefônico. Em pronunciamentos
nas emissoras de rádio da cidade, antes da concessão
da liminar judicial, Adilson Donizeti disse que falar em quebra
de sigilo telefônico é armação.
Ele voltou a admitir que trocou vários telefonemas
com Francisco Falavigna, lembrando que o empresário possuia
os números de telefones inclusive da prefeitura
através de um cartão de visitas que entregou
no ano passado ao beneficiário da lei de isenção
do ITBI. Os telefones da prefeitura são públicos
e eles foram fornecidos para o sr. Francisco com a maior tranqüilidade
num cartão de visitas. Então, por que quebrar o
sigilo?, questionou o prefeito terça-feira, na rádio
Difusora AM, omitindo o fato de que a CPI iria investigar os telefonemas
oriundos de telefones celulares utilizados por Adilson Donizeti.
Segundo o empresário Francisco Falavigna, o prefeito usava
dois celulares em suas conversas um particular e outro
de propriedade da prefeitura. Não tem sigilo, uma
vez que eu já quebrei meu sigilo bancário,
desconversou o prefeito, garantindo que também quebrou
seu sigilo fiscal, apresentando até mesmo seu imposto de
renda.
Segundo Donizeti, a CPI quer dar uma impressão à
população de que o prefeito está escondendo
algo. O prefeito chegou a declarar que a CPI já tem uma
relação de telefonemas, insinuando tratar-se de
documentos fornecidos por ele próprio, o que não
é verdade.
Liminar Pelo menos dois advogados consultados pelo
DEBATE acreditam que a liminar concedida ao prefeito na terça-feira,
19, pelo juiz Antônio José Magdalena, pode cair no
julgamento do mérito através de sentença
do próprio magistrado. É que o prefeito, no mandado
de segurança que impetrou no dia 15, informou ao juiz que
a CPI já havia decretada a quebra do sigilo telefônico
sem mencionar se tratava dos números da prefeitura ou do
prefeito e seus familiares. A decisão, entretanto, não
ocorreu. Em seus trabalhos, a CPI apenas discutiu a possibilidade
de quebra do sigilo telefônico e instruiu o assessor jurídico,
César Mércuri, a estudar quais as medidas a serem
adotadas para que este ato pudesse ser oficializado. Uma delas
seria a busca da autorização para quebra junto ao
Poder Judiciário.
No mandado de segurança, o prefeito menciona que a CPI
autorizou o advogado César Mércuri a procurar a
companhia telefônica responsável para o fornecimento
da relação das ligações do prefeito,
fato que também não ocorreu. Na ação,
Donizeti pede para a Justiça anular a decisão de
quebra de seu sigilo telefônico, especificamente dos dias
11 de agosto de 2004 quando teria ocorrido a entrega dos
R$ 30 mil e do dia 29 de novembro do mesmo ano quando,
segundo denunciou o empresário Francisco Falavigna, teria
ocorrido a devolução parcial do dinheiro num hotel
de luxo em São Paulo.
Ao conceder a liminar, o juiz Antônio José Magdalena
suspendeu provisoriamente ato da CPI que eventualmente tenha determinado
a quebra do sigilo telefônico do prefeito. O magistrado
deu 10 dias de prazo para que a CPI e a Câmara Municipal
forneçam explicações à Justiça,
fazendo-o com lastro em documentos úteis ao esclarecimento
da questão posta a exame judicial. Após este
prazo, o processo vai para o Ministério Público
se manifestar possivelmente o promotor Vladimir Brega Filho
e posteriormente volta ao juiz para a decisão final.